Skip to main content

Venezuela: economia a caminho do colapso

Com uma crise económica de décadas, a Venezuela está próxima do colapso devido à ineficiência do setor petrolífero. O bloqueio dos Estados Unidos parou as exportações, que só reatarão se houver entendimento entre o regime e a Casa Branca. A Chevron, velha conhecida dos portugueses, pode ser uma chave da mudança.

Com o petróleo a fornecer à Venezuela, em média anual, mais de 90% das suas receitas em termos de exportações, o país ficou dependente do setor e deixou que toda a indústria colapsasse ao longo da última década. Os indicadores macro falam por si: a dívida pública está acima dos 163% do PIB, o saldo orçamental é sistematicamente negativo – em 2024, foi de menos 3,6% do PIB, apesar de tudo muito longe dos 31% negativos de 2018 – a inflação estacionou, previsivelmente, nos 91,3% no final de 2025. Os níveis de pobreza, um dado especialmente difícil de contabilizar, estão acima dos 70%, com algumas fontes a apontarem os 90%. Envolvendo o desastre económico estão as sanções impostas pelos Estados Unidos – que lançaram a Venezuela diretamente para os braços da China – principal responsável pelo facto de a PDVSA, a petrolífera estatal, ter anunciado um volume de negócios de 17 mil milhões de dólares em 2024.

Agora, as tensões com o bloqueio naval norte-americano – que pararam os navios nos portos e ‘secaram’ as exportações de petróleo – a economia tende a definhar em definitivo. A única saída é um alinhamento entre o novo executivo – liderado pela anterior vice-presidente, Delcy Rodriguez – e a administra Trump. E a única opção – a outra seria a imposição coerciva – é mesmo esse alinhamento, que a nova presidente já sinalizou como possível.

Um dos problemas da monocultura do petróleo é que fica especialmente exposta a oscilações de preços que verdadeiramente nenhum país controla. Depois de décadas de exuberância económica, a Venezuela foi especialmente atingida pela queda dos preços do crude nos mercados internacionais na década de 1980. O país sobreviveu como pôde – mas o financiamento do Estado social foi desaparecendo a pouco e pouco, até que o povo saiu à rua em 1989. Uma última tentativa do presidente que governava o país imediatamente antes do golpe de Estado que levaria ao Hugo Chávez ao poder, não resultou. Rafael Caldera, um democrata-cristão especialmente admirado por João Paulo II, lançou em 1996 um plano acordado com o Fundo Monetário Internacional (FMI), chamado ‘Agenda Venezuela’, que elevou os preços internos dos combustíveis, liberalizou as taxas de juros, unificou o sistema cambial sob uma taxa flutuante temporária, aboliu controlos sobre transações correntes e de capital e eliminou controlos de preços (exceto nos medicamentos). Em 1997, o PIB cresceu acima dos 5% e a inflação caiu 50% face ao ano anterior, mas a crise financeira asiática de 1997, lançou o preço do petróleo para níveis muito baixos, forçando o governo a promover grandes cortes orçamentais. Estava aberta a autoestrada para o golpe de Chávez e, anos mais tarde, para a chegada de Nicolás Maduro (em 2013).

Foi logo no ano seguinte, perante mais uma quebra do preço do petróleo, que a economia da Venezuela descarrilou. A inflação acelerou, surgiu uma falta generalizada de bens de primeira necessidade, a atividade económica contraiu e deixou de haver financiamento à modernização (e mesmo à manutenção) do complexo petrolífero instalado. Em pouco tempo a produção de petróleo caiu mais de 60% - passou de um pico de 3,7 milhões de barris por dia para apenas 660 mil barris em 2023 (recuperou para o milhão no ano seguinte). A recessão chegou e com ela a fuga de venezuelanos para o exterior – segundo dados recentes, na última década terão abandonado o país cerca de oito milhões de pessoas. E, evidentemente, os níveis de corrupção cresceram drasticamente, criando uma casta corrupta instalada no poder – cuja única hipótese de sobrevivência é a fuga para a frente. Uma vez instalada a corrupção no aparelho de um Estado, dizem os teóricos, a fuga para a frente só acaba no muro dos fuzilamentos ou, quando se tem sorte, numa prisão de alta segurança.

Após quase uma década de incerteza, a destituição de Nicolás Maduro transformou a reestruturação da dívida, antes uma esperança distante, numa possibilidade real para os detentores de títulos, impulsionando a sua valorização. No entanto, a dívida (calculada entre os 150 e os 170 mil milhões de dólares está nas mãos de uma teia de credores, desde detentores de títulos comerciais a tomadores de empréstimos garantidos por petróleo. Além de ‘hedge funds’ e gestores de ativos como a RBC BlueBay e a Canaima, que adquiriram a dívida a preços extremamente baixos apostando numa mudança de regime, fundos de pensão norte-americanos e outros gestores de ativos como a T. Rowe Price e Fidelity também estão, segundo a agência Reuters, expostos. Alguns ficaram com a dívida quando as sanções de 2019 impediram a negociação dos títulos.

 

À espera do amigo americano

A Chevron, a segunda maior empresa petrolífera dos Estados Unidos, que continuou a extrair petróleo no país depois que outras terem sido obrigadas a abandonar a Venezuela, pode ter relativa facilidade para expandir as suas operações se as condições políticas melhorarem, refere uma analista no jornal ‘The New York Times’. É uma empresa que aparenta dar-se bem desde sempre com ditaduras, e é uma velha conhecida dos portugueses: em 1954, a Chevron criou a Cabinda Gulf Oil Company, uma das primeiras iniciativas mundiais para explorar o petróleo angolano.

A empresa conseguiu isenções de curto prazo face à política de sanções dos Estados Unidos, mas, em fevereiro, Donald Trump disse que iria bloquear essas licenças. Por pouco tempo: durante o verão, voltou a permitir que a Chevron continuasse a operar na Venezuela. Resultado: a Chevron está em posição privilegiada para beneficiar de uma presença que nunca desapareceu. Segundo o jornal, várias conversas entre Trump e Mike Wirth, “o temperamental diretor executivo da Chevron”, terão, ao longo de um ano, antecipado a intervenção.

A Exxon, a maior empresa de petróleo dos EUA, e a ConocoPhillips desistiram da Venezuela e optaram, sem sucesso, serem ressarcidas em tribunal pelos danos causados. A Chevron não fez nada disso. "Se saíssemos todas as vezes que tivemos um desentendimento com um governo, teríamos saído de todos os lugares, inclusivamente dos Estados Unidos", disse Mike Wirth ao ‘The Wall Street Journal’ no mês passado. Um pragmático, portanto.

Depois da intervenção, o facto de a Chevron estar na Venezuela fará com certeza toda a diferença. Como a única empresa petrolífera ocidental com autorização do governo dos EUA para exportar petróleo da Venezuela, ela está posicionada, dadas as condições políticas certas, para aumentar a produção mais rapidamente do que toda a concorrência. Os investidores são otimistas, salienta o jornal: as ações da Chevron subiram mais de 5% na segunda-feira, ultrapassando amplamente o mercado de ações em geral. A Chevron pode ser a chave para um volte-face rápido da Venezuela – ou pelo menos da forma como a Venezuela se entende com a casa Branca.