A Venezuela tem potencial para dobrar a produção de petróleo até ao final da década, mas ainda é preciso superar muitos desafios e investir muito dinheiro.
A análise foi feita em Wall Street pelos analistas do Bank of America (BofA) que concluíram que vai ser preciso investir entre 10 a 12 mil milhões de dólares somente para fazer manutenção básica. "Existem muitas barreiras para ultrapassar", apontam. "Aumentar a produção vai ser mais desafiante do que o esperado por razões técnicas, legais e práticas".
A recuperação "pode ser mais rápida no principio dada a base baixa. Mas, grandes riscos permanecem na transição política e nos desafios do setor petrolífero", argumentam.
A petrolífera estatal venezuelana PDVSA já disse que a sua infraestrutura não é atualizada há 50 anos e que o custo para a atualizar seria de quase 60 mil milhões de dólares. A estimativa foi divulgada em 2021 pela “Reuters” com o investimento a ter capacidade para colocar a produção em 3,4 milhões de barris diários aos níveis registados em 1998 antes de Hugo Chávez chegar ao poder.
A Venezuela está a produzir entre 900 mil a 1,1 milhões de barris diários de petróleo, muito abaixo dos cerca de 3,5 milhões registados em 1997 e acima dos 400 mil durante a pandemia.
No cenário negativo, os analistas do BofA apontam que as mudanças políticas podem causar mais fricção política e caos. E se os EUA também não levantarem as sanções atuais, a produção deverá manter-se nos níveis atuais.
No cenário conservador, os analistas preveem que a produção pode subir para 1,5 milhões de barris diários até 2030, dada a necessidade avultada de investimentos.
No cenário moderado, a expetativa é que a produção atinja entre 1,75 a 2 milhões de barris diários até ao final de 2030. É aqui que podem entrar mais companhias americanas, mas também a espanhola Repsol ou a francesa Maurel&Prom.
No cenário otimista, a produção pode atingir os 2,5 milhões de barris diários até ao final de 2030, sendo de esperar aqui menos problemas no financiamento do investimento necessário, contratação de pessoal especializado e de equipamento para maximizar a produção. Neste cenário entram mais operadores americanos, mas também europeus e companhias mais pequenas dos EUA, América Latina e o resto do mundo. Mas é preciso um quadro legal "robusto".
O que é preciso fazer? Fim das sanções pelos e outros países; recuperação de infraestruturas como oleodutos, estradas, portos, centros de armazenamento, poços, entre outros; acesso a diluentes para misturar com crude pesado antes de ir para o mercado; revisão de contratos existentes, estruturas de propriedade, casos de arbitragem internacional; determinar receitas de produção e impostos para reconstruir o setor; manutenção de contratos com russos e chineses; quem vai ficar responsável por coordenar o setor.
Na linha da frente está a Chevron, a única petrolífera ocidental presente no país, que tem esperado pacientemente pela sua oportunidade, tendo rejeitado sair quando Hugo Chavez procedeu a nacionalizações no setor. A segunda maior petrolífera americana está a produzir 240 mil barris diários atualmente, sendo a única petrolífera ocidental com autorização dos EUA para exportar petróleo da Venezuela.
Mais de 300 mil milhões de barris jazem debaixo da Venezuela. É a maior reserva global provada do mundo e corresponde a um quinto das reservas globais.
A Arábia Saudita surge na segunda posição (267 mil milhões de barris), seguida do Irão (208 mil milhões), e do Canadá (163 mil milhões). Estes quatro países detêm mais de metade das reservas globais de petróleo.
Por dia, o país produz apenas um milhão de barris, menos de 1% da produção de crude a nível global, muito abaixo do seu potencial.
Desde que Nicolas Maduro assumiu o poder em 2013 que a produção caiu para metade. Desde o início do regime Chavez/Maduro em 1999 que a produção caiu para menos de um terço face aos 3,5 milhões de barris à época.
O casal presidencial rendeu-se assim que os operacionais entraram na casa. Nicolas Maduro ainda tentou chegar a uma sala segura, mas não conseguiu fechar a porta.
Duas horas e 20 minutos depois, os helicópteros americanos já sobrevoavam o mar das Caraíbas, levando Nicolas Maduro e a sua mulher a bordo.
Como preparação, as tropas de elite dos EUA, incluindo a famosa Delta Force, criaram uma réplica exata da casa presidencial de Nicolas Maduro para praticar a operação.
Já no terreno, a CIA tinha uma equipa desde agosto a vigiar os hábitos de Nicolas Maduro. A agência secreta também tinha um ativo próximo a Maduro que os informava dos seus movimentos e que acabou por ser crucial ao dar a sua localização exata na madrugada de sábado.
Chegou a deter a maior reserva de petróleo do mundo, mas agora Nicolas Maduro vai enfrentar a justiça norte-americana perante acusações de tráfico de droga e e de armas.
A doutrina Monroe está de volta, sem dúvida: os EUA voltaram oficialmente a exercer, e sem pudores e de forma bastante pública, a sua influência direta sobre os seus vizinhos da América Latina.
"O presidente Donald Trump tem agora o seu próprio império de petróleo", comentou Javier Blas, especialista em energia da Bloomberg, apontando que as Américas produzem 40% do petróleo mundial: além do maior produtor mundial, os próprios EUA, também outros produtores relevantes como o Canadá, México, Brasil, Guiana, Argentina ou Colômbia.
"Com estes recursos, Trump tem uma alavancagem económica e geopolítica que nenhum presidente norte-americano teve desde Franklin D. Roosevelt na década de 40. Em casa e por perto, o seu país tem acesso a um vasto mar de petróleo", escreveu Javier Blas.
Além da influência política e militar, a lógica é que Washington passa a ter (mais) poder sobre o preço do petróleo, mantendo-o idealmente perto dos 50 dólares por barril, tendo vantagem contra quem tentar aumentar os preços no futuro ao fechar a torneira da produção, um aviso à navegação tanto a aliados como a Arábia Saudita como a inimigos como a Rússia ou o Irão.
Donald Trump já criou a sua própria versão: a 'doutrina Donroe', escreveu Andreas Kluth da Bloomberg, com o presidente americano a exercer cada vez mais pressão sobre as Américas e não receando intervenções militares, como demonstrou a captura de Maduro.
Em Wall Street, os analistas acreditam que, se a transição decorrer sem problemas, a "produção de petróleo da Venezuela tem um grande potencial". Dos atuais um milhão de barris diários, pode atingir até dois milhões, até ao final de 2030, isto no cenário intermédio do BofA. "A recuperação pode ser mais rápida no princípio dada a base tão baixa. Mas há grandes riscos em relação à transição e desafios no setor do petróleo".
No cenário mais conservador, pode atingir 1,5 milhões de barris diários até ao final da década; no cenário mais otimista, pode atingir 2,5 milhões de barris por dia até 2030.
A recuperação do setor vai custar entre 10 a 12 mil milhões de dólares, para recuperar somente o básico, segundo as contas do BofA que apontam para "muitas barreiras" para reconstruir a infraestrutura de energia" para relançar a produção que enfrenta desafios técnicos, legais e práticos.
A Casa Branca já disse às grandes petrolíferas norte-americanas que têm de regressar à Venezuela rapidamente para investir no moribundo setor do ouro negro. O país chegou a produzir 3,5 milhões de barris por dia na década de 70, chegando a pesar 7% na produção mundial, mas tem vindo a recuar para 1,1 milhões de barris (dados de 2024).
Na segunda-feira, as cotadas do setor dispararam em Wall Street, com a Chevron, a única presente na Venezuela a subir 4%, com a Exxon Mobil a ganhar 5%, a ConocoPhillips a ganhar mais de 3%, seguidas de várias companhias que subiram entre 6% e 9%, incluindo a Marathon Petroleum, Phillips 66, PBF Energy e Valero Energy. Já fornecedores como a Baker Hugues, Halliburton ou SLB, ganharam entre 4% e 8%.
Para os analistas da Allianz GI, a ação militar dos EUA "deverá ter repercussões nos mercados globais de energia e nos debates sobre segurança", além de "modificar o futuro político da Venezuela".
"Para os investidores, as implicações podem variar desde a volatilidade dos preços do petróleo até um foco renovado no risco político nos mercados emergentes”, de acordo com a nota de Christian Schulz e de Alexander Robey.
"A recuperação da produção venezuelana pode demorar anos e exigir investimentos maciços", alerta a Allianz GI.
E como reagiu o mercado global de petróleo à capitulação de Maduro? O preço do barril de petróleo começou segunda-feira praticamente inalterado, mas ao final da tarde de ontem o Brent valorizava 1,6% para quase 62 dólares, com o WTI a ganhar 1,7% para mais de 58 dólares.
Já os analistas da XTB destacam que a reabertura do setor venezuelano ao investimento terá vantagens para quem já estiver no país ou que tenha conhecimento do mesmo. A única petrolífera presente no país é a Chevron, além da estatal PDVSA.
Venezuela conta com as maiores reservas de petróleo do mundo
Mais de 300 mil milhões de barris jazem debaixo da Venezuela. É a maior reserva global provada do mundo e corresponde a um quinto das reservas globais.
A Arábia Saudita surge na segunda posição (267 mil milhões de barris), seguida do Irão (208 mil milhões), e do Canadá (163 mil milhões). Estes quatro países detêm mais de metade das reservas globais de petróleo.
Por dia, o país produz apenas um milhão de barris, menos de 1% da produção de crude a nível global, muito abaixo do seu potencial.
Caracas foi bombardeada pelos Estados Unidos na madrugada de sábado, com as forças especiais Delta Force do exército dos EUA a capturarem Nicolás Maduro que segue agora a caminho de Nova Iorque para ser julgado por tráfico de droga e de armas.
A Delta Force é responsável, por exemplo, pelo resgate de soldados dos EUA durante a batalha de Mogadíscio na década de 90, que deu origem ao filme ‘Black Hawk Down”.
Os EUA contam desde dezembro com uma dúzia de navios de guerra nos mares da região e com mais de 15 mil soldados.
Desde que Nicolás Maduro assumiu o poder em 2013 que a produção caiu para metade. Desde o início do regime Chávez/Maduro em 1999 que a produção caiu para menos de um terço face aos 3,5 milhões de barris à época.
O crude venezuelano é diferente do saudita, por exemplo, sendo mais pesado, logo mais difícil de extrair. Mas é melhor para produzir certos produtos, como gasóleo, asfalto e outros combustíveis para a indústria, ao contrário do saudita, que é melhor para produzir gasolina.
O mercado mundial de gasóleo está mais apertado atualmente, em grande parte devido às sanções sobre o petróleo venezuelano.
As grandes petrolíferas internacionais têm capacidade para tal, mas têm sido proibidas de operar no país desde que Washington começou a impor sanções em 2005.
Em 2022, o presidente Joe Biden deu autorização à petrolífera Chevron para operar no país, mas Donald Trump começou por revogar a licença este ano, para depois voltar a permitir a operação.
Washington tem sido acusado por Caracas de querer invadir o país para roubar o petróleo, com Trump a argumentar que quer combater o narcotráfico.
Apesar de os EUA serem o maior produtor mundial, ainda precisam de comprar petróleo ao exterior, pois produzem somente crude leve.
O país compra atualmente mais de 100 mil barris por dia à Venezuela, ficando na 10.ª posição de fornecedores, mas fica muito atrás dos mais de 250 mil barris comprados à Arábia Saudita ou mais de quatro milhões ao Canadá.
A abertura do setor petrolífero venezuelano ao mundo e às companhias globais poderá tornar o país num produtor mais musculado.
“Se tivermos um governo legítimo na Venezuela, abriria as portas ao mundo para mais fornecimento, reduzindo o risco de disparos nos preços e escassez”, disse à “CNN” Phil Flynn, analista da Price Futures Group.
A petrolífera estatal venezuelana PDVSA disse que a sua infraestrutura não é atualizada há 50 anos e que o custo para a atualizar seria de quase 60 mil milhões de dólares. A estimativa foi divulgada em 2021 pela “Reuters” com o investimento a ter capacidade para a produção em 3,4 milhões de barris diários aos níveis registados em 1998 antes de Hugo Chávez chegar ao poder.