Donald Trump tem uma montanha de desafios para ultrapassar de forma a colocar a Venezuela novamente no mapa mundial de produção de petróleo.
Um dos maiores desafios é como vai o presidente convencer as principais petrolíferas norte-americanas a investirem milhares de milhões de dólares num país com um enorme risco político e sem garantias de estabilidade no longo prazo.
António Costa Silva destaca que “existe alguma tensão” entre as petrolíferas americanas e o presidente Trump, recordando que no seu primeiro mandato, a Casa Branca fez um leilão para explorar petróleo no Ártico. “Ele queria atrair as companhias, é um crime ecológico, mas o primeiro concurso ficou deserto. As empresas fizeram as contas e ponderaram muito bem os riscos. E aqui, não é líquido o que vão fazer face a esta complexidade toda, com exceção da Chevron que já está lá”, disse o especialista em energia ao JE.
Sobre a Chevron, Costa Silva destaca que “muito possivelmente é a companhia que pode capitalizar a curto com todo este novo enquadramento. Já nas outras companhias, as reações são muito cautelosas”, referindo-se às outras duas gigantes: a Exxon Mobil e a ConocoPhillips.
“Se o comportamento errático da administração americana não garante, para já, que amanhã se possa ter uma Venezuela minimamente estável, também há o risco de guerra civil. Se estas incertezas políticas sobre o país se acumularem, as companhias não vão investir de qualquer maneira”, avisa Costa Silva.
“São incógnitas a mais, é uma situação muito complexa e há um grande risco de instabilidade”, alertou.
A ofensiva de Donald Trump na Venezuela deve-se ao desejo de ter “acesso às reservas colossais” do país, que tem a “maior reserva de petróleo do mundo” com 300 mil milhões de barris face aos 55 mil milhões dos EUA, seis vezes menos. Em termos de receitas com petróleo, a Arábia Saudita gera 160 mil milhões de dólares, com os EUA a gerarem 120 mil milhões, enquanto a Venezuela gera apenas 4 mil milhões.
“Os Estados Unidos pretendem anexar o petróleo venezuelano, mas isto tem grandes fragilidades: o mercado petrolífero tem tido um desempenho muito mau em 2025, com um preço muito baixo. A intervenção militar dos EUA não teve nenhum impacto nos preços porque o mercado mundial está abastecido: a cada dia que passa, temos 4 milhões de barris que são produzidos a mais”, sublinhou.
A agenda de descarbonização que está a ser implementada pela China e a sua aposta nos carros elétricos está a contribuir para este recuo no consumo de petróleo a nível mundial.
“Temos aqui uma grande luta entre aquilo que são os petro-estados, os estados do petróleo e gás com os Estados Unidos hoje à cabeça”, afirmou.
Juntar os 300 mil milhões de reservas da Venezuela com os 55 mil milhões de barris dos EUAsupera as reservas da Arábia Saudita e a Rússia somadas. “Isso dá um poder muito grande aos EUA”, destaca.
Mas o especialista avisa que nem Donald Trump consegue influenciar os preços do petróleo nos mercados mundiais que vivem da oferta e da procura.
O presidente Nicolas Maduro foi capturado pelos EUA, mas a “ditadura militar continua e é controlada pelo exército. A Venezuela tem 2.200 generais, três vezes mais do que os Estados Unidos que controlam tudo e continuam a controlar o aparelho de Estado. Vamos ter uma intervenção, mais uma, dos Estados Unidos com botas no terreno, que vai ser completamente caótica? Ao mesmo tempo, que ameaça todos os outros países o México, o Panamá, Cuba, Gronelândia. Como é que vamos sair daqui?”, questiona.
Trump quer investir no petróleo na Venezuela? Há “incógnitas a mais”
/
Relação tensa com petrolíferas dos EUA pode complicar planos de Trump para o país latino, aponta o especialista em energia António Costa Silva. Investimento na Venezuela “tem incógnitas a mais”, com falta de estabilidade política e risco de uma guerra civil.