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Relatório para a Conferência de Munique recusa aceitar pressupostos da ‘era Trump’

Mais de 50 chefes de Estado são esperados na capital bávara um ano depois de o vice-presidente norte-americano JD Vance ter destruído os alicerces da ‘natural’ ordem transatlântica. Trump é duramente criticado.

A 14 de fevereiro de 2025, na 61ª Conferência de Segurança de Munique – um dos principais fóruns globais de geoestratégia – o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, dinamitou os alicerces da ordem transatlântica de segurança herdada do rearranjo global saído dos escombros da II Guerra para de seguida os fazer explodir. O lado europeu deste entendimento transatlântico ficou exangue e percebeu, tardiamente (já havia bastos sinais nesse sentido), que estava entregue a si próprio e que o lado norte-americano assumia uma posição pouco mais que meramente comercial: tratava-se de vender armas e não de assegurar hegemonia securitária. Era a própria NATO e o seu famoso artigo 5º que ficava exposto aos avatares da política externa de Donald Trump – foi isso que os europeus extraíram da intervenção de JD Vance, porque foi exatamente isso que o vice-presidente dos EUA disse.
Agora, um ano depois da ‘revoada teórico-estratégica’ de 2025, um relatório sobre segurança da responsabilidade do grupo de Munique, que servirá para espaldar a conferência deste ano, que tem início esta sexta-feira, afirma que a nova ordem “está a destruir as regras” para criar “um mundo que privilegia os ricos”. Há “uma crescente sensação de impotência e desespero individual e coletivo”, sublinha o relatório, que deriva da “política de demolição” liderada pelo presidente dos Estados Unidos. Donald Trump, que não será visto em Munique, é deste modo considerado o autor de um novo quadro estratégico que não ser os propósitos de segurança da Europa nem o equilíbrio de forças planetário.
O relatório anual, que é tradicionalmente divulgado antes da Conferência de Segurança, descreve Trump, sem rodeios, como a figura mais poderosa a desafiar as regras e instituições existentes e argumenta que a sua abordagem corre o risco de desmantelar alianças e normas estabelecidas há oito décadas. “Mais de 80 anos após o início da sua construção, a ordem internacional pós-1945, liderada pelos Estados Unidos, está agora num processo de destruição”. O relatório desafia o ‘novo mundo’ criado nos últimos 12 meses, classificando Donald Trump como “o mais poderoso entre aqueles que estão a destruir as regras e instituições existentes”, uma vez que optou, sem perguntar nada a ninguém, por “um mundo moldado por acordos transacionais em vez de cooperação baseada em princípios”. O relatório não poda ser mais explícito, ao exibir o temor de que as políticas de Trump “abram caminho para um mundo que privilegia os ricos e os poderosos e não a grande maioria das pessoas que depositaram as suas esperanças em mudanças transformadoras”.

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