A dose de esperança que foi inoculada em Havana às primeiras horas da madrugada de 1 de janeiro de 1959 há muito que deixou de fazer efeito. Para trás ficou a Baia dos Porcos, a crise dos mísseis, o embargo, a morte de Kennedy em Dallas (segundo uma tese consistente), de Guevara em La Higuera e de Fidel na capital, o inesperado aperto de mão de Obama a Raúl. Tudo isso faz parte de um mundo que desapareceu: em Cuba, o presente é um futuro sem petróleo, de que inevitavelmente resultará a asfixia económica, por certo a fome, com certeza a morte. O presidente norte-americano, Donald Trump, tinha isolado o ‘dossiê Cuba’ como prioritário durante o seu primeiro mandato: aumentou a extensão do embargo, afirmou que o aperto de mão entre Barack Obama e Raúl Castro era uma das provas da ‘demência política’ do seu antecessor na frente externa e esqueceu-se do assunto, rumo à Coreia do Norte. Quatro anos volvidos, fortalecido pela Estratégia de Segurança - que mandou redigir ao seu secretário de Estado Marco Rubio, filho de pais que fugiram dos assassínios de Fulgêncio Baptista, deposto a 1 de janeiro de 1959 e exilado num amigável país europeu, Portugal – Trump volta a apontar baterias a Cuba, depois de tratar da Venezuela.
Desde o início deste mês, a Casa Branca ançou um embargo ao fornecimento de petróleo a Cuba, alegando que a pequena ilha é “uma ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional dos EUA e ameaçando impor tarifas às exportações destinadas à América de qualquer nação que para lá envie petróleo.
Alguns países tentaram, antes de desistirem, ‘furar’ o bloqueio: a Rússia disse que manteria o fornecimento de petróleo; a China afirmou que não pactuaria com a “interferência injustificada de forças externas”, disse o ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, ao seu homólogo cubano, Bruno Rodríguez Parrilla; o México avalia como enviar combustível para Cuba para ajudar a suprir necessidades básicas como eletricidade e transportes sem provocar as represálias de Washington.
Uma semana depois destas promessas, aparentemente não aconteceu nada: as companhias aéreas canadianas suspenderam os voos para Cuba, a Rússia vai repatriar turistas russos ainda em solo cubano e suspender as ligações aéreas, o chefe do governo espanhol, um aliado de sempre, nada disse sobre a matéria e só a China reafirmou o seu propósito: “a China apoia firmemente Cuba na defesa da sua soberania e segurança nacionais e opõe-se à interferência estrangeira”, disse Lin Jian, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores. “Sempre forneceremos apoio e ajuda a Cuba da melhor forma possível”.
Há dois dias, as autoridades aeronáuticas cubanas proibiram todos os aviões que voam na região de aterrarem na ilha para reabastecer. Os voos de longo curso, que são fundamentais para a indústria do turismo cubano, foram interrompidos pela escassez de combustível. Internamente, os cubanos poderão comprar até 20 litros de combustível de cada vez (por um dólar), ao mesmo tempo que muitos autocarros públicos deixaram de circular, alguns serviços públicos (como os bancários) restringiram os seus horários de atendimento, vários eventos culturais foram cancelados e que a época de basebol (o desporto nacional, tal como nos Estados Unidos) foi encurtada.
Cuba: uma ilha cada vez mais abandonada pelo mundo
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A decisão de Donald Trump está a surtir efeito: as companhias aéreas deixaram de voar para Cuba e a vida da população está, segundo todos os relatos, a ficar impossível.