Skip to main content

Portugueses na disputa pela invenção europeia do ano por avanço na luta contra o cancro

Equipa liderada por Paula Videira desenvolveu um anticorpo altamente específico que distingue células cancerígenas de tecido saudável. A invenção, patenteada, abre novas possibilidades para o diagnóstico e tratamento do cancro e está na corrida ao Prémio Inventor Europeu 2026, na categoria Investigação.

Investigadores portugueses desenvolveram um anticorpo altamente específico que reconhece assinaturas moleculares presentes nas células cancerígenas, mas ausentes ou inacessíveis no tecido saudável. Ao identificar moléculas de açúcar associadas a tumores com uma precisão sem precedentes, a invenção abre novas possibilidades para diagnósticos mais seletivos e terapias contra o cancro.

A descoberta - protagonizada pela equipa de Paula Videira, professora catedrática na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa | NOVA FCT e diretora da unidade de investigação UCIBIO - é uma das três finalistas na categoria Research (Investigação) do Prémio Inventor Europeu 2026.

Na corrida estão o irlandês Adrian Hill, pela vacina R21/MatrixM contra a malária, e o finlandês Mikko Möttönen, por um bolómetro criogénico ultrassensível para monitorizar sistemas quânticos.

A Organização Europeia de Patentes (OEP) anunciará os vencedores a 2 de julho numa cerimónia transmitida em direto a partir de Berlim.  Além das categorias principais, o Prémio do Público será atribuído com base numa votação combinada entre o público e um júri independente. A votação pública abre esta terça-feira, 12 de maio, e termina no dia 2 de julho.

O cancro é a segunda principal causa de morte em geral e a principal causa de morte em pessoas com menos de 65 anos. A Comissão Europeia reporta cerca de 2,7 milhões de novos casos de cancro em 2024. Uma das grandes dificuldades no diagnóstico e tratamento do cancro é a identificação das características moleculares que "distingam claramente as células tumorais do tecido saudável".

"As células cancerígenas apresentam frequentemente moléculas de açúcar alteradas, conhecidas como glicanos, na sua superfície. Embora estes glicanos possam atuar como marcadores de doença, estruturas semelhantes podem também estar presentes em células normais, tornando extremamente difícil uma atuação seletiva sem afetar o tecido saudável".

O anticorpo L2A5, desenvolvido pelos investigadores portugueses, reconhece glicanos associados a tumores numa configuração específica que está exposta nas células cancerígenas, mas ausente ou inacessível no tecido saudável.

"Esta seletividade molecular permite que o anticorpo se ligue às células malignas, preservando as células saudáveis, alcançando um nível de precisão que abordagens anteriores não conseguiam atingir", explica Paula Videira.

A investigadora fala de um processo cumulativo, em que cada experiência reforçava a confiança da equipa. "Quando observámos o nosso anticorpo a ligar-se ao tecido tumoral, mas não ao tecido saudável, percebemos o potencial terapêutico da nossa invenção,” afirma.

Na base da descoberta estão anos de investigação na área da glicobiologia associada ao cancro. O progresso exigiu anos de experimentação, aperfeiçoamento e validação, frequentemente com resultados incertos, conta.

A equipa estabeleceu parcerias com a Universidade NOVA de Lisboa, o Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil (IPO) e o Helmholtz-Zentrum Dresden-Rossendorf.

"O resultado é um anticorpo patenteado com elevado potencial para utilização no diagnóstico do cancro e como base para terapias direcionadas, incluindo conjugados anticorpo-fármaco", revela.

“A nossa história não poderia vir de uma única área disciplinar. Na investigação, por vezes surgem dúvidas, mas quando partilhamos ideias, a energia torna-se coletiva. Fomos avançando juntos”, salienta Paula Videira. “Equipas fortes constroem-se não só com pessoas, mas também com instituições, e ter acesso ao ambiente certo fez toda a diferença".