Num recanto de Paços de Ferreira, no norte de Portugal, conhecida como a Capital do Móvel — onde a madeira sempre contou histórias antes mesmo de se transformar em peças de autor — nasceu a MainGUILTY, uma marca nacional de arte e design de mobiliário que ambiciona conquistar o mundo a partir de Portugal.
Carlos Mello, fundador e diretor criativo, cresceu entre matéria-prima e gesto artístico. Filho de um escultor, desde tenra idade que assistiu ao milagre da transformação da madeira, da pedra e do metal em objetos com significado. Foi nesse ambiente — entre o ateliê e a tradição artesanal da região — que começou a desenhar uma ideia: e se o mobiliário pudesse ir além da função e tornar-se escultura emocional?
A resposta começou a ganhar forma em 2021. Com apenas cinco mil euros de investimento inicial — um valor que diz pouco sobre as horas acumuladas no projeto, o risco assumido e a persistência exigida. Pouco depois, juntou-se à aventura Manuel Antunes, hoje CEO da marca, trazendo o contraponto estratégico e financeiro. “Tínhamos energia e uma certa irreverência”, recorda Manuel Antunes, de 30 anos. “E, sobretudo, a convicção de que era possível fazer algo diferente a partir de Portugal.”
Carlos Mello, com 28 anos, complementa: “Queríamos criar peças que provocassem uma reação. Que ninguém ficasse indiferente.” Talvez por isso se assumam, sem rodeios, como os “principais culpados” de uma nova linguagem no design português. A marca posiciona-se num segmento alto, onde o design cruza arte e exclusividade. Não há produção em massa, nem stock. Cada peça nasce de um projeto, de um cliente. Madeira, pedra e, cada vez mais, elementos como o estofo ou técnicas tradicionais — como a filigrana — fazem parte do catálogo.
Em 2025, a empresa faturou cerca de 350 mil euros. “Para 2026, a expetativa é, no mínimo, duplicar esse valor”, dizem. Os principais mercados estão fora de Portugal — Médio Oriente, Estados Unidos e América Latina — onde arquitetos e designers de interiores procuram peças com identidade forte.
Mas é num dos palcos mais improváveis que a jovem empresa encontra agora o seu maior momento de afirmação: A convite da organização, a marca portuguesa integra um espaço premium no Grande Prémio de Fórmula 1 Pirelli no circuito de Silverstone, lado a lado com nomes históricos do design internacional. “É mais do que visibilidade. É validação”, sublinha Carlos Mello. “Quando estamos num contexto destes, ganhamos confiança aos olhos de quem ainda não nos conhece.”
Esse impulso já começa a traduzir-se em novas oportunidades e encomendas, mas também em projetos paralelos que revelam a ambição tecnológica da marca. Em colaboração com a Nova IMS, a empresa está a desenvolver um sistema de certificação digital baseado em blockchain, que permitirá rastrear cada peça — desde o processo de criação até aos diferentes proprietários ao longo do tempo e materiais utilizados. Um “passaporte” que poderá depois ser usado por outras empresas e setores. Ao mesmo tempo exploram novas formas de ligação emocional, aproximando-se de universos como o desporto, a música e os grandes eventos culturais. A ideia é clara: “Levar o design para fora dos espaços tradicionais e colocá-lo onde a emoção acontece”, diz o CEO.
Entre os projetos mais discretos está a colaboração com uma família real do Médio Oriente. Os detalhes permanecem confidenciais, mas o significado é evidente: a pequena marca já começa a ocupar espaços de poder e prestígio global. Apesar de abordagens para relocalizar a marca noutros países — como Itália, com o seu reconhecido prestígio no design — a resposta tem sido sempre a mesma. “Alguém tem de furar a bolha”, afirma Manuel Antunes. “Se queremos mudar o valor do que se faz em Portugal, temos de construir marcas fortes a partir daqui.”
Hoje, a MainGUILTY é composta por uma equipa interna de cinco pessoas, apoiada por uma rede próxima de artesãos locais — uma comunidade que continua a dar corpo às ideias que nasceram, há poucos anos, quase em silêncio, mas que agora já correm a alta velocidade.
Portugal corre na Fórmula 1 com mobiliário exclusivo
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Nascida em Paços de Ferreira, a MainGUILTY assume-se ‘culpada’ de crescer nos mercados internacionais, apostando na exclusividade para ganhar clientes de peso.