Já não é segredo, embora seja sussurrado ou transmitido apenas a uns quantos eleitos. Os convites são circunscritos. Fazer parte desse núcleo restrito é aquilo que sempre foi. Acesso à exclusividade. Pois, não é para todos. Mas é isso que está a acontecer com as listening parties, que têm devolvido à música o encanto da descoberta. Qual ritual de antecipação e partilha. Ainda não percebeu nada do que se está aqui a dizer, certo? A explicação é deveras simples. Numa era em que a música vive no bolso, salta entre anúncios e algoritmos, pensar em ouvir um álbum com outras pessoas soa a coisa do passado. Em plena febre do vinil, nos anos 70 e 80, era habitual os amigos juntarem-se em casa de alguém para ouvir um novo álbum. Lado A e lado B. Discutiam-se quais os melhores temas. Sabia-se a letra das músicas preferidas de cor. O nome de todos os elementos da banda. You name it!
O CD entrou em cena, acabou com o “lado A e lado B”, encantou pela portabilidade e a música passou a andar no asfalto, no leitor do carro e até na mochila, com o ‘ovni’ criado pela Sony, o walkman. Por vezes, ainda era partilhado com os amigos, indefetíveis da banda x ou z, e tocava umas quantas vezes nas jantaradas regadas a música e bebidas várias. Com o tempo, a velocidade do digital e a solidão dos auscultadores (que rapidamente ganharam estatuto e passaram a ser tratados por ‘fones’), esbateram essa dimensão social. A música tornou-se um décor onde tudo o mais acontece. Fones na bicicleta do ginásio, fones nas viagens de avião, fones para fazer scroll no telemóvel... Quando foi a derradeira vez que alguém lhe perguntou: “já ouviste o último álbum de...”?
O streaming matou a espera? Sim, mas a curiosidade continua cá
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á ouviu alguém dizer que as ‘listening parties’ estão de volta? Nem por isso? Olhos bem abertos. Ou melhor, ouvidos atentos ou corre o risco de passar ao lado da mais recente tendência. Espécie de ritual de antecipação e partilha, lembra-nos que a música é uma emoção coletiva.