O humor é uma forma de compreensão extrema do ser humano.” A conversa começou pelo humor. E por uma pergunta nada fortuita. Intencionalíssima. Como é que a filosofia lida com o humor? “Como dizia Platão a Aristóteles, as mesmas letras escrevem tragédias e comédias. É o mesmo alfabeto. O que muda é a compreensão.” Acontece que nós não achamos graça nenhuma quando o nosso ridículo é exposto. António de Castro Caeiro corrobora. “Nenhuma. Nós achamos graça quando o ridículo do outro é exposto. Uma das primeiras identificações é essa. A segunda é quando acontece no palco e não na vida privada. Nietzsche fala do Pathos der Distanz [o pathos da distância]. Ou seja, há uma distância. E não tem a ver com a distância de estar sentado a assistir a uma peça. A afeção acontece ao outro e não acontece a mim. E a afeção é o ridículo.”
Para o Professor de Filosofia Antiga, “consumidor assíduo da stand-up comedy”, o humor é uma forma de interpretação do mundo. Até pode ser uma reação primária, mas tem de ser trabalhado. “Tem de ser polido. Tem de ter punch lines.” E vai mais longe ao dizer que “gostamos de rir porque é uma forma de expressão da nossa inteligência. Não é um rir parvo. É o riso, o sorriso, a gargalhada.” Interessa-lhe a forma como os humoristas trabalham questões fraturantes e também banais, do quotidiano. “Desde a relação com o corpo, o envelhecimento, o álcool, com... tudo.” Os humoristas visam a gargalhada de forma epidérmica, arriscamos. “Sim, mas é uma interpretação do quotidiano, é um olhar filosófico. Platão diria que é uma ‘segunda navegação’ sobre aquilo que primariamente nós vivemos.” E conclui dizendo que o humor é fundamental. Mas alerta: “nós procuramos achar graça às coisas e depois não achamos graça ao acharmos graça porque há um editor dentro de nós que bloqueia o riso.” Um censor? – questionamos. “Pode não ser censor, mas está em busca do tom. Acho que é uma das possibilidades de o humano interpretar o quotidiano e, nesse sentido, tudo é objeto de humor. E na filosofia tudo é objeto de filosofia.”
Podemos dizer que a filosofia nos acontece? “A filosofia acontece, é uma possibilidade do humano. Mas nós estabelecemos teorias acerca de quem é quem, como é o outro, se é uma pessoa engraçada, se não é engraçada.” No fundo, estamos continuamente a medir o pulso à nossa existência, sublinha ao JE. “Se acordamos bem-dispostos, maldispostos, preocupados, despreocupados, se resolvemos uma situação ou não. Estamos continuamente sob uma forma de pressão, que não é cartesiana, não é uma reflexão sobre nós, mas uma interpretação tática de como nos achamos.”
“O humor é uma forma de interpretação do mundo”
/
Entrevista : António de Castro Caeiro, professor de Filosofia Antiga e divulgador de filosofia, pensa o mundo à sua volta entre a stand-up comedy e os antigos mestres. Não prescinde da tecnologia, mas alerta para a sua adição. E para a “perda de civilização” a que estamos a assistir.