A operação norte-americana que resultou na captura do Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, está a preocupar os madeirenses radicados neste país sul-americano, confessam as líderes da Associação da Comunidade de Imigrantes Venezuelanos na Madeira (Venecom) e da Associação Comando com Venezuela, Ana Cristina Monteiro e Lídia Albornoz, ao Jornal Económico (JE). Edmundo Gonzalez é visto como uma solução para pacificar o ambiente vivido em território venezuelano. Calcula-se que existam 1,2 milhões de portugueses e luso-descendentes no país com 80% a terem origem na Região Autónoma da Madeira.
A líder da Venecom, Ana Cristina Monteiro, refere que o feedback que tem recebido da comunidade madeirense é de "preocupação" depois da operação levada a cabo pelos Estados Unidos que resultou na captura de Nicolás Maduro, no passado fim-de-semana.
"A comunidade está expectante sobre os próximos desenvolvimentos", acrescenta Ana Cristina Monteiro.
A líder da Associação Comando com Venezuela na Madeira, Lídia Albornoz, dá conta que o passar dos dias leva a que a comunidade "fique mais apreensiva" depois do que aconteceu no passado fim-de-semana.
"A situação preocupa-me a mim, aos madeirenses, aos lusodescentes, e aos venezuelanos", adianta Lídia Albornoz.
A líder da Venecom esclarece que a comunidade madeirense, que está na Venezuela, está "muito enraizada" no dia-a-dia do país sul-americano. "Estas pessoas fazem parte do setor produtivo do país. O comércio tem uma forte influência portuguesa. Tudo isso [operação norte-americana na Venezuela] gera preocupação", dá conta Ana Cristina Monteiro.
Delcy Rodriguéz desagrada
Com a saída de Nicolás Maduro do poder foi Delcy Rodríguez quem assumiu a presidência interina do país sul-americano. Ana Cristina Monteiro aponta que Delcy Rodríguez é um dos "elementos principais" do regime de Maduro.
"Vamos ver que posições vai tomar. [...] Veremos se tem interesse em que a Venezuela alcance a democracia que merece. Estou expectante. Preocupa-me que ele seja parte do regime. O regime [de Nicolás Maduro] continua instalado na Venezuela", salienta Ana Cristina Monteiro.
Apesar disso, Ana Cristina Monteiro espera que o processo de transição que venha a acontecer no país sul-americano seja realizado "em paz".
Delcy Rodríguez "é pior" que Nicolás Maduro
Sobre Delcy Rodríguez ter sido a escolhida para tomar o poder na Venezuela, Lídia Albornoz descreve Delcy Rodríguez como "ainda pior" do que Nicolás Maduro. "É uma costela do Chavez e continua a ser do Maduro", acrescenta a líder da Associação Comando com Venezuela.
Lídia Albornoz considera que Delcy Rodríguez "é cúmplice" da atual situação. "Ela e os que estão lá. Que ela pague pelos crimes [que cometeu]. A Delcy Rodríguez não tem legitimidade [para estar no poder]", afirma a líder da Associação Comando com Venezuela na Madeira.
Lídia Albornoz considera que a situação na Venezuela "iria-se agravar" se Delcy Rodríguez continua-se à frente do país sul-americano.
Ana Cristina Monteiro diz ainda que o cenário ideal seria processo de transição "muito breve" em que seja transmitida a direção do governo a quem foi eleito pelo povo, em alusão a Edmundo González Urrutia. Após isto, no entender de Ana Cristiana Monteiro, pode ser convocadas novas eleições de modo a que se "retome" a democracia que imperava na Venezuela antes de aparecer o chavismo.
Ana Cristina Monteiro adianta também que tanto Maria Corina Machado [que foi galardoada como o Prémio Nobel da Paz, em 2025, devido à oposição ao regime venezuelano] como Edmundo González Urrutia "têm legitimidade e a capacidade" para fazer face à restruturação da Venezuela neste processo de transição.
Apesar de Lídia Albornoz considerar que deveria ser Edmundo González Urrutia a tomar o poder na Venezuela, tendo em conta que foi ele que venceu as eleições frente a Nicolás Maduro, a líder da Associação Comando com Venezuela considera que face ao estado em que está a Venezuela neste momento essa possa não ser a melhor solução.
"Eu acredito que o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ponderou a situação de Edmundo González Urrutia. Mete-lo logo como Presidente é um ato que não seria muito seguro. [Temo] que pudesse acontecer algo de mau", refere Lídia Albornoz, tendo em conta que ainda existem sinais de vida por parte do regime liderado por Nicolás Maduro.
"Se a Maria Corina Machado fosse para lá seria antidemocrático. Ela não foi eleita presidente", refere Lídia Albornoz.
Lídia Albornoz considera que Delcy Rodríguez no poder na Venezuela seja uma situação "temporária", acrescentando que tem a expetativa de que se esteja a preparar "o caminho correto". Dito isto, Lídia Albornoz acredita que não se pode instalar um regime democrático enquanto se tem o regime [liderado por Nicolás Maduro] lá dentro. "Eles são capazes de tudo o atual regime. Eles estão a ser cercados", diz Lídia Albornoz.
Lídia Albornoz expressa ainda que a Associação Comando com Venezuela "tem muito medo" pelos presos políticos, que se encontram no país, onde também estão portugueses. "O direito internacional tem falhado para com a Venezuela. Têm existido crimes graves contra a dignidade humana", protesta a líder da Associação Comando com Venezuela
Lídia Albornoz diz ainda que existem "infiltrados" do regime de Nicolás Maduro mesmo na Madeira. "Tememos pela nossa vida e pelos nossos", refere a líder da Associação Comando com Venezuela.
Apesar do estado em que se encontra atualmente a Venezuela, Lídia Albornoz acredita que o país "pode ser recuperado".
Estados Unidos com papel de observador
A líder da Venecom aborda também o papel que os Estados Unidos podem ter face à atual situação que se vive na Venezuela. Ana Cristina Monteiro considera "importante" este seguimento que está a ser feito pelos norte-americanos relativamente ao país sul-americano.
"Mas tudo isto é tão novo que vamos ter de observar como é que se desenvolve todo este processo. [Os Estados Unidos] devem ter uma posição não de decisão mas de observação e de recomendação", defende Ana Cristina Monteiro.
Ana Cristina Monteiro mostra confiança de que se forem cumpridos "os passos corretos" e tendo as pessoas a consciência do "papel importante" que vão cumprir neste processo de democratização da Venezuela se possa chegar a um "final feliz".