Skip to main content

Guerra no Irão condena cartel de petróleo à morte

Emirados Árabes fartaram-se dos sauditas e abandonaram o cartel. Estão apostados em produzir mais petróleo para conseguir mais dinheiro. A guerra continua a mudar a região e o mundo.

Aguerra no Irão vai ter impactos duradouros no Médio Oriente e no mundo. Se é certo que muitos efeitos só serão conhecidos nos próximos anos, muitas das réplicas já se fazem sentir, ao fim de apenas dois meses de conflito, especialmente ao nível da arquitetura de relações entre os países da zona.
Apesar dos preços elevados do barril, acima dos 110 dólares, esta semana, houve novidades: chegou ao fim uma era, com a saída dos Emirados Árabes Unidos (EAU) da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). O temido cartel chegou a dominar por completo os preços de petróleo a nível mundial, mas o seu poder anda há muito pelas ruas da amargura, em boa parte pela ascensão dos EUA ao trono de maior produtor mundial.
“É um paradoxo profundo que a retirada da EAU aconteça com os preços de petróleo num nível recorde. Isto sugere que mesmo as subidas de preços significativas já não são suficientes para resolver o défice de confiança entre produtores”, reagiu o especialista em energia Francesco Sassi.
Os Emirados Árabes juntaram-se ao cartel em 1967. Com a sua saída, ficam 11 membros na OPEP. Já a OPEP+ junta outros 10 países, incluindo a Rússia. A OPEP foi criada em 1960 pelo Irão, Iraque, Kuwait, Venezuela e Arábia Saudita com a missão de defender os interesses dos exportadores de petróleo. A ideia foi procurar equilibrar produção com a procura, para garantir receitas estáveis aos países, muitos deles ultra-dependentes do crude.
“É o princípio do fim” da OPEP, que vai perder 15% da sua capacidade e um dos seus membros “mais cumpridores”, segundo o analista Saul Kavonic da MSTFinancial, citado pela “BBC”.
A monarquia liderada pelo Xeque Mohamed bin Zayed Al Nahyan (MBZ) é a quarta maior produtora de petróleo da OPEP: quase 3 milhões de barris diários. O pódio é liderado pela Arábia Saudita com quase 9 milhões, o Iraque com quase 4 milhões e o Irão com mais de 3 milhões, dados de 2024.
“A Arábia Saudita vai ter dificuldades para manter o resto da OPEP junta. Isto representa uma mudança geopolítica fundamental no Médio Oriente e mercados petrolíferos”, segundo Saul Kavonic prevendo que outros membros possam sair do cartel.
A Arábia Saudita e os EAU são dos poucos membros da OPEP com capacidade adicional, isto é, conseguem aumentar a produção para responder a choques de procura. Mas as duas monarquias do Golfo Pérsico têm vindo a afastar-se cada vez mais em termos geopolíticos, em particular devido à suas posições em relação ao Iémen.
“Isto vai ter consequências duradouras nas estratégias energéticas do pós-guerra e vai injetar nova volatilidade nos mercados. A era de uma política petrolífera unificada no Golfo Pérsico chegou ao fim. A geopolítica energética está a tornar-se crítica para perceber o futuro do poder global”, segundo Francesco Sassi, investigador da Universidade de Oslo.
Vários países já abandonaram a organização nos últimos anos, incluindo Angola, Qatar, Equador, Indonésia ou o Gabão, em desacordo com a imposição de quotas à produção.
A OPEP controla 30% da produção global. Em conjunto com a OPEP+, controla mais de 40%.
“A decisão foi tomada após uma análise cuidada às políticas atuais e futuras relacionadas com o nível de produção, disse à “Reuters” o ministro emirati da Energia Mohamed al-Mazrouei.
Na sua perspectiva, o mundo precisa de mais energia, com a EAU a acreditar que está na posição de entregar mais petróleo e gás.
Esta é uma vitória para o presidente norte-americano que já chegou a acusar a OPEP de inflacionar os preços do petróleo, “roubando o resto do mundo”. Considerando que os EUA defendem os membros da OPEP, estes em troca “exploram-nos ao impor preços elevados de petróleo”.
Para a consultora Rystad, fora do grupo os EAU “têm o incentivo e a capacidade para aumentar a produção, levantando questões sobre o papel da Arábia Saudita como estabilizador central do mercado”, segundo Jorge Leon.
Os Emirados Árabes Unidos têm estado focados em tornarem-se num centro regional de negócios e de finanças. Têm também reforçado as suas relações com os EUA e Israel, considerando a relação com Tel Aviv como crucial para ter acesso a Washington.
A monarquia tem também apostado em aumentar a sua esfera de influência tanto no Médio Oriente como em África.

Este conteúdo é exclusivo para assinantes, faça login ou subscreva o Jornal Económico