É a pergunta do momento em Wall Street. Os investidores querem saber como é que os novos centros de dados vão obter energia para colocarem a máquina da inteligência artificial (IA) a bombar. Há uma quantidade gigantesca de dinheiro a ir neste momento para a IA.
O próprio CEO da Microsoft já alertou para isto. “Se não conseguirmos [energia], podemos acabar por ficar com chips que não conseguimos ligar. Este é o meu problema hoje”, disse Satya Nadella.
A xAI de Elon Musk financiou-se em 15 mil milhões de dólares esta semana e a OpenAI de Sam Altman angariou há um mês 6,6 mil milhões (está avaliada em 500 mil milhões, bem acima da riqueza criada anualmente em Portugal).
É no meio de toda esta euforia que surge uma empresa portuguesa. Os investidores começam a olhar para a EDPcomo uma empresa ligada à IA. Obviamente que não é a Nvidia ou uma tecnológica, pois o seu negócio não é produzir chips, ter centros de dados ou criar modelos de linguagem. Oseu centro de operações fica a montante disto tudo: vai haver eletricidade suficiente para alimentar os centros de dados? A que preços? E quando estará disponível?
Estas são as dúvidas que têm assolado os investidores de Wall Street nos encontros mais recentes com a companhia. A resposta tem sido direta por parte da EDP: as centrais de energias renováveis são a solução mais rápida para energizar os centros de dados, segundo informações recolhidas pelo JE. É mais rápido colocar centrais eólicas e solares a produzirem eletricidade verde, do que esperar pela construção de centrais a gás (listas de espera de 5 anos por turbinas) ou nucleares (que podem demorar uma década).
“Como é que a economia digital existe? Nos centros de dados”, disse John Medina da Moody’s ao “New York Times”.
Por ano, estão a ser construídos 65 gigas de potência nos EUA, abaixo dos 80 necessários para alimentar não só a IA, mas também o restante desenvolvimento tecnológico, mas também necessidades da indústria e lares.
Os EUA contam com 522 centros de dados gigantes (hyperscalers) onde a IA é processada, 55% do total a nível mundial. Até 2028, deverão nascer mais 280 só nos EUA.
No meio desta nova corrida ao algoritmo e ao eletrão, o presidente Donald Trump parece estar ciente das dificuldades pela frente. Este ano, declarou emergência nacional energética para acelerar a construção de centros de dados e a infraestrutura energética necessária, para não perder a corrida para a China.
Foi neste contexto de euforia que nas semanas anteriores à apresentação do plano estratégico vários ‘hedge-funds’ apostaram na cotada, na expetativa que a companhia iria apresentar um plano ambicioso com base no crescimento da procura por centros de dados. No entanto, o grupo EDP optou por um plano que a empresa considera realista, e não conservador, com um investimento mais adaptado aos novos tempos.
Oplano estratégico prevê um investimento de 12 mil milhões de euros no espaço de três anos, ao ritmo de quatro mil milhões por ano. Em 2023, a EDP planeava investir 25 mil milhões de euros no triénio seguinte. O plano de há dois anos foi revisto em baixa duas vezes, até atingir 14 mil milhões. Só a EDPR previa 20 mil milhões de euros de investimento no plano de 2023, face aos 4,5 mil milhões atuais, com 60% só nos EUA. A EDPR prevê acrescentar cinco gigas de capacidade até 2028, com dois gigas nos EUA já este ano.
Os ‘hedge-funds’ acabaram por ficar desiludidos com o plano menos expansivo face ao esperado. Nos dias seguintes, seguiu-se um ‘sell-off’, com as cotadas do grupo EDP a desvalorizarem 3,5 mil milhões de euros.
A procura por eletricidade para alimentar os centros de dados e a inteligência artificial vai disparar 130% nos EUA até 2030 face ao nível de 2024, com a procura a subir 70% na Europa, segundo os dados da Agência Internacional de Energia (IEA). Atualmente, a procura de energia pelos centros de dados pesa apenas 1,5% no consumo global, com um crescimento de 12% ao ano nos últimos cinco anos.
Na sede da EDPna Avenida 24 de julho, a ideia é que foi encontrado um ponto de equilíbrio no meio da instabilidade da modernidade líquida, como lhe chamou Zygmunt Bauman. Sem promessas vãs de investimento que depois não venha a ser concretizado. Se surgirem oportunidades, serão agarradas.
“Estamos a ser realistas, não estamos a ser conservadores. Vamos construir a partir daí. Se houver procura, avançamos”, disse o presidente-executivo da EDP durante a apresentação do plano estratégico em Londres na semana passada. “Não estamos pressionados por megawatts, preferimos retorno. Cinco gigas é um número saudável”, defendeu Miguel Stilwell d’Andrade.
Se 2025 começou com “nuvens negras” no horizonte, existe agora “muito mais clareza sobre as renováveis e os EUA”. A companhia já tem 3,3 gigas de contratos assinados com as big tech em todo o mundo. “Temos a Google e a Amazon a ligarem-nos”, disse Stilwell perante investidores e analistas.
Futuro Wall Street quer energia para a inteligência artificial
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O mundo da IA não se resume só às grandes tecnológicas. As companhias que criam as bases para esta febre também são beneficiadas. No meio desta vaga há uma empresa portuguesa que passou de ser uma simples energética para colocar os algoritmos de IA a bombar.