O problema já não é apenas o preço do gás. É o que este faz à estrutura de custos de uma fábrica, à sua capacidade para investir e à possibilidade de competir com empresas de outros países europeus. É com esta preocupação que a indústria cerâmica e o setor têxtil voltam a colocar em cima da mesa o Apoiar Gás, o mecanismo criado durante a crise energética que se seguiu à invasão da Ucrânia.
Paulo Almeida, da APICER lamenta que nas medidas anunciadas ao país, a 17 de setembro por Luís Montenegro, nada tenha sido previsto para a indústria e competitividade. Na cerâmica, uma simulação da APICER permite perceber a dimensão do problema. Partindo de um preço de 32 euros por MWh e assumindo uma subida para 80 euros/MWh, o custo do gás aumenta 150%. Numa empresa com um consumo anual de 40 GWh, a fatura passaria de 1,28 milhões para 3,20 milhões de euros, um agravamento de 1,92 milhões por ano.
Numa unidade com um consumo de 60 GWh, o custo anual passaria de 1,92 milhões para 4,80 milhões de euros, ou seja, mais 2,88 milhões de euros. Os valores são uma simulação, mas dão a dimensão concreta do sufoco que a indústria enfrenta quando o gás, uma componente essencial do processo produtivo, dispara. E é precisamente para amortecer este tipo de choque que Paulo Almeida defende que o Governo volte a considerar um mecanismo semelhante ao Apoiar Gás.
A proposta não passa por o Estado assumir a fatura energética das empresas. Mesmo com apoio, a maior parte do aumento continuaria a ser suportado pelas empresas, cerca de 60%. O objetivo é evitar que uma subida extraordinária do preço do gás seja transformada num custo permanente para uma indústria que concorre lá fora.
A simulação da APICER considera, por analogia com o anterior Apoiar Gás, apoios de 30% e 50% sobre o custo elegível. No cenário da empresa que consome 40 GWh, o apoio seria de cerca de 192 mil euros numa modalidade de 30% e poderia chegar a 320 mil euros numa modalidade de 50%, associada a perdas de exploração. Na empresa com consumo de 60 GWh, os valores seriam de aproximadamente 288 mil e 480 mil euros,
O Apoiar Gás não elimina o choque, mas reduz a dimensão do impacto que chega à empresa. Na simulação, a associação considera como custo elegível a diferença entre os 80 euros/MWh e o limite correspondente a 200% do preço de referência de 32 euros/MWh. Daí resulta um diferencial elegível de 16 euros/MWh.
A lógica é importante. Uma subida de 32 para 80 euros/MWh não significa que o Estado passe a pagar os 48 euros de diferença. O mecanismo serviria para compensar apenas parte do sobrecusto considerado elegível, deixando a maioria do aumento a cargo da indústria.
É justamente esta característica que leva também o têxtil a defender o regresso de uma solução deste género. Ricardo Silva, da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), diz que o custo energético no setor chegou a triplicar face aos valores de há cerca de um ano. A exposição é particularmente elevada na tinturaria e na fiação, processos que exigem grandes quantidades de energia. “O problema aqui está a ser a longa duração”, diz.
Cerca de metade das empresas consumidoras de energia terá contratos fixos, celebrados anteriormente, mas a outra metade está em contratos variáveis e sente diretamente os picos do mercado. O presidente da ATP diz já ter recebido relatos de empresas que admitem deixar de produzir se não houver uma alteração das condições. “Se não houver uma mudança neste regime energético nos próximos dias ou semanas, vamos fechar portas”, relata, citando a posição transmitida por algumas fábricas à associação.
O problema surge num setor que enfrenta uma redução do consumo mundial. As exportações continuam a crescer, mas apenas cerca de 2% a 3% em termos de faturação. Esse crescimento, porém, não significa uma melhoria da situação financeira, porque os custos estão a aumentar mais depressa.
É aqui que a ATP estabelece a diferença entre um apoio direto e uma linha de financiamento. O Governo pode ajudar uma empresa a financiar uma fatura elevada, mas a dívida permanece. Se o preço da energia continuar alto durante meses, o problema deixa de ser apenas de tesouraria. “A linha Apoiar Gás, na altura, não foi uma linha de endividamento. Foi de redução efetiva do custo energético com apoio estatal. Foi muito positiva, porque mitigou aquele aumento”, afirma. É essa experiência que os dois setores querem recuperar agora, embora adaptada às condições atuais.
Cerâmica e têxtil pedem programa para travar aumento de custos
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Réplica do Apoiar Gás permite que parte do choque com a crise energética seja amortecido pelo Estado, evitando maior perda de competitividade. Mas, para já, notam que nada foi anunciado.