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Bruxelas corta previsões à boleia da guerra e Kristin

Choques negativos que assolaram Portugal - disparo na energia e tempestades do início do ano - levaram a Comissão a cortar no crescimento para este ano, mas mantêm o país acima da média da zona euro.

Bruxelas está mais pessimista em relação ao crescimento português, fruto da guerra no Médio Oriente e das tempestades que assolaram o país no início do ano, mas continua a projetar uma performance acima da média da zona euro. Por outro lado, a expectativa passa por um défice já este ano, ainda que diminuto e menor do que projetado no mais recente exercício da Comissão, sublinhando o cenário mais negativo do que o antecipado pelo Governo.
Portugal deverá crescer este ano 1,7% e 1,8% no próximo, ou seja, abaixo dos 2,2% e 2,1%, respetivamente, antecipados pela Comissão Europeia no outono, com Bruxelas a explicar a revisão em baixa com os “choques inesperados no início de 2026, começando pelas fortes tempestades de janeiro e fevereiro, seguidas de uma escalada nos preços da energia em março e abril”.
Ainda assim, a projeção fica acima dos 0,9% e 1,1% projetados para a zona euro, respetivamente, para este ano e o próximo, mantendo Portugal como uma das economias com uma performance mais positiva no bloco da moeda única. E isto considerando que a Comissão apresenta das previsões menos otimistas para Portugal, com apenas o Conselho de Finanças Públicas (CFP) a apontar a um resultado mais baixo, com 1,6%. Para comparação, o Fundo Monetário Internacional (FMI) antecipa 1,9% este ano e 1,8% no próximo, enquanto o Banco de Portugal (BdP) vê 1,8% e 1,6%, respetivamente. Já o Governo aponta a 2% este ano.
A Comissão explica que este é “o segundo choque [energético] em menos de cinco anos” a atingir o bloco europeu, o que tem pressionado as finanças das famílias e das empresas. Como tal, a confiança dos consumidores caiu para mínimos de 40 meses, embora “o consumo deva permanecer como o principal motor de crescimento”.
“O conflito no Médio Oriente desencadeou um choque energético de larga escala, testando ainda mais a Europa à medida que navega num contexto geopolítico e comercial já volátil”, diz o Comissário para a Economia e Produtividade, Valdis Dombrovskis, que pede ainda que os decisores “aprendam com as lições do passado, mantendo o apoio orçamental temporário e dirigido”.
A crise energética desencadeada pela guerra iniciada pelos EUA e Israel contra o Irão está já a fazer-se sentir nos preços e, como tal, as projeções para a inflação também foram atualizadas em alta, tanto em Portugal, como no bloco da moeda única. Para a economia nacional, a inflação deve acelerar até 3%, embora esta previsão diga respeito ao indicador harmonizado – ou seja, a referência para as instituições europeias. Para 2027, o indicador deve desacelerar para 2,3%.
Tal fica em linha com o cenário traçado para a zona euro, que foi alvo de revisões consideráveis: para este ano, os 3% projetados constituem uma atualização de 1,1 pontos percentuais (pp) em alta, enquanto os 2,3% para 2027 ficam 0,3 pp abaixo do previsto em novembro. Em ambos os casos, tal superaria o objetivo de médio prazo traçado pelo Banco Central Europeu (BCE), aumentando as probabilidades de nova subida dos juros ou até de um período de estagflação na Europa.
Já olhando para a vertente orçamental, haverá uma deterioração dos resultados macro portugueses, com Bruxelas a antever uma passagem de superavit para défice já este ano. Contudo, até houve lugar a uma revisão em alta: se no anterior exercício a Comissão apontava a 0,3% de défice, agora antecipa 0,1%.
Para 2027, igual cenário, com Bruxelas a prever um défice de 0,4%, ou seja, menos pronunciado do que os 0,5% anteriormente previstos.
Recorde-se que para este ano o Governo espera atingir um saldo nulo, embora o ministro das Finanças já tenha admitido que o défice é, de facto, um cenário plausível.
Para a dívida, a Comissão vê a continuação de uma descida sustentada do indicador, em linha com o Governo e as restantes instituições. Este ano, o rácio deve cair para 87,6% do PIB, o que compara com 87,8% previsto pelo Ministério das Finanças no final do ano passado, e 2027 deverá fechar com 86%.

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