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Até onde vai a resiliência humana?

Há livros que amadurecem, mas nem por isso envelhecem. É o caso de “Ensaio sobre a Cegueira”. Publicado há 30 anos, não ganhou uma ruga. Antes cresceu em relevância. Agora reeditado numa edição ilustrada, recorda-nos os caminhos que não queremos seguir.

No dia 7 de setembro de 1991, José Saramago soube que teria de escrever um ensaio sobre a cegueira. Enquanto esperava um prato de bacalhau assado com batatas a murro num restaurante da Madragoa, em Lisboa, a pergunta assaltou-o. “E se todos fôssemos cegos?”. E de repente respondeu a si mesmo. “Mas somos cegos. Cegos que, vendo, não vemos.” “Não seria um ensaio, nem uma conferência, nem um conto filosófico, mas um romance nascido a partir de uma pergunta, como já havia acontecido antes”, como nos conta Pilar del Río em “A Intuição da Ilha”, onde narra os dias de José Saramago em Lanzarote. “Os personagens, quem, quantos, chegariam talvez pelo colapso do sistema, talvez pela degradação moral de quem, podendo ver, opta por tapar os olhos.”
Saramago, confrontado com a vida, a passagem do tempo e a morte, o amor, a intolerância, a violência e a crueldade, a verdade, a falsidade e a mentira, confrontado com a ideia de um Deus transcendente e criador de tudo o que existe, assumiu como missão questionar o mundo e os homens, procurando sossegar, tanto quanto possível, as interrogações que o desassossegavam. Importa dizer que o autor, Prémio Nobel da Literatura, não tinha a pretensão de ser filósofo, como o afirmou em diversas ocasiões. Quando ao velho da venda preta, uma das personagens principais de “Ensaio sobre a Cegueira”, lhe chamam filósofo, ele responde “Que ideia, só sou um velho”. Adotou sempre uma postura indagadora e reflexiva nos seus escritos. E nunca abdicou do livre-arbítrio para falar do mundo desconcertado e desconcertante que é o nosso.
“Não sou pessimista, o mundo é que está péssimo”, dizia amiúde. Noutras circunstâncias, sintetizava assim o seu pensamento: “O mundo é o inferno. Não vale a pena ameaçarem-nos com outro inferno porque já estamos nele. A questão é saber como é que saímos dele.”

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