Regressam os medos de estagflação à zona euro com o maior aperto na concessão de crédito nos últimos três meses e um aumento nas expectativas de inflação das famílias, alerta o Banco Central Europeu (BCE). Poucos dias antes da reunião de abril, a autoridade monetária publica os seus inquéritos trimestrais que mostram uma degradação das perspetivas no bloco da moeda única, em grande parte devido à guerra no Médio Oriente e ao choque energético subsequente. Em Portugal, tal como no resto da moeda única, os bancos apertaram os critérios de aprovação, mas a procura não recuou.
Os critérios para a concessão de financiamento dos bancos europeus tornaram-se mais rígidos desde o início da campanha de bombardeamentos israelitas e norte-americanos no Irão, de acordo com o inquérito ao crédito bancário, fruto sobretudo de uma maior perceção de risco pelo setor financeiro combinado com o disparo nos custos para as empresas.
Ainda assim, este agravamento das condições foi maior do que esperado e, em vários casos, foi mesmo o mais súbito desde 2023. O fenómeno parece, contudo, focado na economia alemã, onde uma parte significativa da indústria é intensiva em energia e, portanto, fica mais exposta ao choque exógeno criado pela guerra.
Noutros países como Itália, França e Espanha, as maiores economias do bloco, as condições de crédito não aparentam ter sofrido um impacto significativo decorrente da instabilidade geopolítica. No entanto, Espanha registou, a par da Alemanha, um aumento na percentagem de rejeições a pedidos de crédito.
Simultaneamente, a procura por crédito abrandou em março, segundo o relatório do BCE, com o setor empresarial a recuar nas decisões de investimento. Isto contrariou a expectativa dos analistas, que antecipavam uma subida na procura para satisfazer constrangimentos de liquidez, mas as projeções para o segundo trimestre são de uma quebra ainda mais expressiva.
O BCE publicou também esta semana os resultados do inquérito aos consumidores, que espelham um aumento nas expectativas de inflação no curto prazo. Em fevereiro, as famílias da UE antecipavam 2,5% de inflação nos doze meses seguintes; em março, a referência para os dados agora divulgados, essa expectativa havia disparado para 4%.
Aperto na concessão de crédito aumenta risco de estagflação
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A procura por crédito recuou com a guerra no Médio Oriente. E deverá cair ainda mais no próximo trimestre. Expectativas de inflação das famílias dispararam, reforçando risco de estagflação.