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Vem aí um choque energético a caminho, como na década de 70

Com os preços da energia a disparar, toda a economia global será afetada. A produção de todo o tipo de bens vai tornar-se mais cara se a guerra se prolongar por muito tempo.

As bombas voltam a cair por todo o Médio Oriente. Há uma nova guerra em curso com consequências mundiais.
Além das trágicas mortes no terreno, o setor da energia no Golfo Pérsico está literalmente debaixo de fogo, com as consequências a chegarem aos bolsos de famílias e empresas em todo o mundo em breve.
“Temos aqui um novo choque petrolífero em grande escala, se o conflito se propagar por mais alguns dias”, disse ao Jornal Económico António Costa Silva, especialista em energia e antigo ministro da Economia.
“Tudo aquilo que alimenta a economia mundial está, nesta altura, sob grande tensão. Temos tudo junto ao mesmo tempo: do aprovisionamento de petróleo e gás que está em causa, ao comércio marítimo internacional. Todo o impacto que isso tem na economia, que está-se a ver nas bolsas, no comportamento dos preços do petróleo e do gás, na própria inflação... podemos ter aqui um surto inflacionista grave”, diz.
O Irão fechou, de facto, o estreito de Ormuz, por onde passava diariamente um quinto do petróleo transportado por via marítima e 20% do gás líquido.
Até quando pode o preço do petróleo subir? “Pode subir até 100 dólares ou mais, a não ser que haja um colapso do regime iraniano, que não se antevê para já”, afirma.
O preço do petróleo já disparou mais de 38% este ano e o preço do gás na Europa subiu mais de 77%. Face à semana anterior ao início do ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, o petróleo subiu 24% e o gás 40%.
Costa Silva considera o Irão um país muito institucionalizado. “São tributários do Império Persa, têm a estrutura de poder muito bem organizada”, diz. Mas com os ataques a matar os líderes designados, o regime “está encostado à parede, e isso preocupa muito, porque numa situação desesperada, perdido por 100, perdido por mil, estão a reagir de todas as formas e feitios, e isso é temível para toda a região”, analisa.
Depois dos ataques norte-americanos e israelitas, o Irão retaliou contra oito diferentes países, atacando também infraestruturas energéticas no Médio Oriente.
Na segunda-feira, atacou a maior fábrica de exportação de gás natural do mundo, que fica no Qatar. Em resultado, o país – responsável por 20% do gás global – congelou a sua produção.
A maior refinaria da Arábia Saudita também foi alvo de ataques.
“Eles estão cirurgicamente a alvejar tudo aquilo que pode representar qualquer alternativa. Como é que a economia mundial vai viver numa situação deste tipo?”, questiona António Costa Siva.
“O mercado estava com excesso de produção de cerca de dois a três milhões de barris por dia, e a procura mundial agora também vai cair. Mas será rapidamente absorvido pelos mercados. Se realmente tivermos muito tempo sem o aprovisionamento daquela região do mundo, e com tudo aquilo que se passa nos mercados financeiros e económicos, nesta situação também os investidores se retraem”, avalia.
“Vamos ter aqui uma retração completa no investimento. Com a inflação a subir, o impacto na economia vai ser devastador, se a situação continuar por muito mais tempo”, remata.

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