Armindo Monteiro, presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP) durante a 8ª Conferência para a competitividade sob o mote “O valor acrescentado da indústria agroalimentar”, organizada pela FIPA no centro cultural de Belém, em Lisboa voltou a colocar o foco num dos problemas estruturais mais recorrentes da economia portuguesa: a falta de escala e a fragmentação do tecido produtivo.
O presidente da CIP começou por sublinhar que o diagnóstico não é novo, ou seja, “Portugal tem um problema estrutural que continua por resolver. E esse problema é simples de identificar: falta de escala.” Na sua leitura, a economia portuguesa é dominada por pequenas unidades empresariais que, apesar de eficientes em muitos casos, operam de forma isolada, o que limita a capacidade de competir nos mercados internacionais. “Temos uma economia demasiado fragmentada. Temos muitas pequenas empresas, muito boas em muitos casos, mas isoladas.”
Esse modelo, acrescenta, tem impacto direto na competitividade externa. “Quando chegamos ao mercado internacional, isso sente-se imediatamente. Não temos dimensão suficiente para competir de forma consistente lá fora.”
O setor agroalimentar português enfrenta limitações estruturais, sobretudo ao nível da dimensão das explorações, o que dificulta a competição com países que operam em grande escala. A fragmentação da produção reduz a eficiência e torna mais difícil acompanhar mercados internacionais orientados para grandes volumes.
“Temos um problema de terra, que é um problema de dimensão, e que afeta também a nossa penetração em determinados mercados ou fileiras”, diz, contando uma história sem identificar a empresa. “Uma empresa recebeu uma visita de uma cadeia de distribuição internacional. No final, encomendaram três contentores de produtos. E o produtor, questionou: — em que meses vamos fazer essa entrega, pensando que seria ao longo do ano. O potencial cliente, respondeu: isto é só a amostra! Ou seja, estamos a falar de relações diferentes.”
Ao mesmo tempo, o setor é marcado por uma forte diversidade: coexistem explorações altamente tecnologizadas, com recurso a inovação e digitalização, e outras ainda assentes em métodos tradicionais. Esta dualidade influencia a produtividade média e a forma como o setor é percecionado.
Perante estas limitações, a estratégia não passa por competir na quantidade, mas sim na valorização dos produtos. “A aposta deve centrar-se em produtos com maior valor acrescentado, nomeadamente no segmento gourmet, biológico (bio) e com denominação de origem (DOP), onde a qualidade e a diferenciação são determinantes.”, defende.
Nestes nichos, Portugal consegue afirmar-se pela excelência, autenticidade e capacidade de transformação. Assim, em vez de exportar apenas matéria-prima, o setor deve privilegiar produtos transformados e diferenciados, capazes de conquistar mercados mais exigentes e dispostos a pagar pela qualidade.
Daí a defesa de uma mudança estrutural no tecido empresarial português, através de mecanismos de consolidação. “O que nós precisamos é de uma nova fase na economia portuguesa, que passe por concentração empresarial, fusões, alianças estratégicas e cooperação entre empresas.”
Monteiro insiste: “Quando digo cooperação, não é apenas cooperação informal. É cooperação estruturada, organizada, que permita criar escala real.”
O objetivo é claro: ganhar dimensão para competir em mercados globais. Sem isso, alerta, Portugal continuará preso a segmentos de baixo valor acrescentado.
E nesse campo, acrescenta, a desvantagem estrutural é difícil de ultrapassar. “Nesse segmento, Portugal perde sempre para economias com custos mais baixos.”
A alternativa, na sua visão, passa por uma mudança de modelo competitivo. O país deve abandonar a lógica do preço e apostar em diferenciação, marca e valor acrescentado.
Além da questão estrutural, Armindo Monteiro apontou também fragilidades institucionais. Criticou a falta de estabilidade no enquadramento fiscal e regulatório, que, no seu entender, condiciona o investimento.
“Precisamos de estabilidade. Precisamos de previsibilidade. Porque sem previsibilidade fiscal e regulatória, o investimento fica sempre mais difícil.”
E acrescentou que essa instabilidade tem efeitos diretos no comportamento das empresas. “As empresas não podem estar constantemente a adaptar-se a mudanças de regras. Isso cria incerteza e trava decisões.”
O presidente da CIP sublinha ainda que parte dos constrangimentos não é apenas económica, mas organizacional e administrativa, o que dificulta a execução de projetos e investimentos.
No fundo, a sua intervenção converge para uma ideia central: a economia portuguesa precisa de reorganização estrutural para ganhar escala e competitividade. “Ou ganhamos escala, ou continuamos limitados na nossa capacidade de competir internacionalmente.”