Annamaria Lusardi começou a dedicar-se à literacia financeira numa altura em que o tema estava longe de ter a importância que hoje lhe é reconhecida. A economista italiana, que dirige o Initiative for Financial Decision-Making da Universidade de Stanford e estará em Portugal por ocasião das Conferências doEstoril, conversou com o Jornal Económico sobre a urgência de se repensar a forma como se olha para o tema, individual e coletivamente, e atuar nesse sentido.
“Um país desenvolvido não pode ter metade da população que não saiba o básico de finanças pessoais”, começou por alertar Lusardi.
E a premissa de um mundo que já não é o mesmo, que expõe sem reservas (ou mais a uns do que a outros) a população a riscos de várias naturezas, foi sendo recordada ao longo da meia hora de conversa: “O mundo mudou muito rapidamente. O sistema de pensões mudou. Agora somos responsáveis pela nossa segurança financeira. Os países e os governos têm muitas dificuldades em lidar com pessoas que vivem por muito tempo”, analisou.
Para Annamaria Lusardi, que fez carreira nos Estados Unidos, as pessoas são obrigadas a “tomar decisões que são muito complexas”, nos dias de hoje. “Os nossos pais estavam bem no passado, não precisavam de poupar nem investir muito. Em muitos países, as pessoas estavam bem por ter uma casa, e o governo tratava das suas pensões”, recordou. “O mundo mudou hoje, mas nós não estamos a acompanhar”. Segundo a professora universitária, a literacia financeira deve começar a ser trabalhada “o mais cedo possível”. E as escolas têm a “responsabilidade” de ajudar à adaptação “ao novo ambiente”.
“Temos de tomar decisões e não aprendemos na escola. As pessoas não têm o conhecimento rigoroso necessário para tomar essas decisões”, continuou.
Sobre os mercados financeiros, também eles “são muito mais complexos do que antes”. “Um mundo onde se pode investir em criptomoedas, em muitos instrumentos financeiros diferentes e muito complexos...”, listou. Não só para navegar nestes mercados é preciso ter conhecimento, mas também, e sobretudo, para não incorrer em riscos e armadilhas, apresentadas como oportunidades de investimento, que se têm multiplicado. E aqui entram as apostas desportivas, tema sobre o qual a instituição que dirige já se debruçou. “Fizemos um estudo no qual alertámos que as pessoas estão muito confusas: pensam que as bets desportivas são investimento”. E, sobre um tema que tem ganhado maior escrutínio e dividido opiniões – afinal de contas, movimenta milhões – continuou: “E, por acaso, eu posso dizer que as apostas desportivas têm um retorno negativo. Então, claramente, não são um bom investimento. Mas não é o que as pessoas pensam e fazem”, explicou a especialista em literacia financeira.
É este um assunto mais reclamado/defendido pela direita? “Não é um assunto político”, respondeu. “Em todos os lugares temos uma economia complexa. Não acho que seja um assunto de esquerda ou de direita. Provavelmente, em alguns países, a direita já fez algumas mudanças ou terá sido mais sensível a este assunto”, avaliou.
“Mas eu acho que não há escolha. É um assunto relacionado com as mudanças em torno de nós. Sem a literacia financeira, eu realmente penso que os países não são capazes de crescer neste momento”, defendeu.
E que desafios identifica na adoção destas práticas? “As pessoas acham que é algo ‘nice-to-have’ (bom, mas não essencial). É algo que veem como caridade, de empoderamento dos pobres, dos jovens... Mas eu acho realmente que é uma necessidade”. Lusardi defende que as pessoas devem ser “capazes e precisam de participar no mercado de ações”. “Olho para Portugal e poucas pessoas investem. Como fazer a riqueza crescer quando a inflação sobe?”.
“Acha-se que o governo deve dar apoio. E sou totalmente a favor desse apoio. O governo não pode forçar as pessoas a participarem no mercado de ações, a tomar decisões... Mas nenhum governo é capaz de lidar com o facto de que as pessoas jovens vão viver até aos 100 anos”, refletiu. E reiterou que cabe aos cidadãos “tomar essas decisões”. “Não há outra maneira. É um tópico urgente e importante para todos os países. E aqueles que não estão a agir serão deixados para trás”.
Lusardi, que foi responsável por desenhar uma estratégia nacional para a literacia financeira em Itália, lança-se mesmo para uma analogia com a proteção da saúde: “Hoje, para mim, é como saúde. Existem médicos, mas para se ser saudável é preciso ter boas práticas. É a mesma coisa para a literacia financeira”. E a ausência de “boas decisões financeiras” abre caminho ao “stress financeiro”, alertou a economista.
“Um país desenvolvido não pode ter 50% das pessoas sem o básico de literacia financeira”
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Annamaria Lusardi, economista italiana e professora em Stanford, é uma das vozes globais da literacia financeira. Numa conversa com o JE, em vésperas das Conferências do Estoril, desdobrou-se entre alertas e reflexões sobre aquele que é um assunto que estuda há mais de 20 anos.