Mais um dia de intensa pressão não resultou, como era de esperar, em nada: os líderes da União Europeia, reunidos em cimeira em Bruxelas, bem tentaram convencer o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, a levantar o veto que impede um empréstimo de 90 mil milhões de euros a conceder à Ucrânia, mas os seus esforços foram vãos. O empréstimo estava decidido há uns três meses, mas entretanto alguma coisa mudou: o oleoduto de Druzhba, que liga a Rússia à Hungria passando pela Ucrânia, ficou inoperacional e, mais importante que isso, Orbán arrisca perder o lugar que ocupa há mais de duas décadas (com interrupções) nas eleições gerais do próximo dia 12 de abril.
Perante um insurgente vindo do seu próprio partido, Péter Magyar, Orbán não pode, a três semanas das eleições, defraudar os seus fiéis – o que colocaria ainda mais em risco a possibilidade da sua reeleição. Neste contexto, a estratégia que a Comissão costuma usar para vergar a vontade de Orbán (passar cheques) não irá funcionar.
Orbán continua a exigir como condição para o levantamento do veto que o fornecimento de petróleo russo pelo oleoduto Druzhba seja retomado. A Ucrânia, no entanto, afirma que as obras de reparação podem levar até 45 dias – e não são, com certeza, uma prioridade. Uma inspeção organizada pela União Europeia irá em breve ao local, como forma de encontrar a melhor solução para o problema: convencer os ucranianos a reparar a infraestrutura, eventualmente pagando para isso.
A outra solução será talvez mais rápida, mas é mais incerta: esperar que Péter Magyar vença as eleições e esteja mais aberto à pressão da União Europeia. O que provavelmente acontecerá, segundo opinião manifestada ao JE por Francisco Seixas da Costa, especialista em assuntos internacionais.
A cimeira desta quinta-feira foi a última ocasião de alto nível para suspender o veto antes das eleições húngaras, cuja campanha está a ser marcada, pelo lado de Viktor Orbán, pela diabolização de Kiev e Bruxelas, retratadas como conspirando secretamente para favorecer a candidatura de Magyar.
Ucrânia: UE incapaz de vergar ‘vontade eleitoral’ de Viktor Orbán
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Acossado pelas eleições gerais, cujas sondagens não lhe são favoráveis, Orbán manteve-se irredutível: o financiamento de 90 mil milhões só avança se a Ucrânia reparar o oleoduto russo que abastece a Hungria.