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A recuperação truncada por um carro armadilhado

Primeiro-ministro por duas vezes, magnata, com excelentes contactos externos. Rafiq Al Hariri quase conseguiu o milagre da recuperação. Antes de ser assassinado.

Um primeiro impulso para sair do atoleiro teve como protagonista Rafiq Al Hariri, um homem de negócios, magnata, filantropo e político libanês, duas vezes primeiro-ministro, de 1992 a 1998 e de 2000 a 2004. Tinha o apoio do ocidente – desde logo de França, que tem para o Líbano uma atenção especial derivada da fase do protetorado e dos tempos do paraíso – conta corrente junto das instituições de Bretton Woods (FMI e Banco Mundial) e o apoio indireto dos Estados Unidos, focado na estabilização, na reconstrução e na contenção de grupos armados. Tudo isso acabou no dia 14 de fevereiro de 2005, quando Al Hariri foi assassinado com o recurso a um carro armadilhado.
A partir daí, o país nunca mais se encontrou, o que, se acaso fosse necessário, ficou bem patente a 4 de agosto de 2020, quando um depósito de nitrato de amónio causou mais de 100 mortos, quatro mil feridos e uma cratera gigante em seu torno. O poder político demorou muitos minutos a admitir que tinha sido apenas um acidente, muitos meses a investigar a sua causa e muitos anos para não chegar a nenhuma decisão: o processo não foi conclusivo e quando o poder judicial tentar acusar políticos de negligência grosseira, o poder político tratou de bloquear a Justiça. Até hoje.
O resultado da explosão, que veio a juntar-se a outras causas, determinou um crescente afastamento da comunidade internacional, reservas do FMI e principalmente um alheamento da enorme diáspora, que diminuiu drasticamente as remessas financeiras.
Agora, o país prepara-se para ficar sem parte do território a sul: Safaa Dib sabe que Israel – que já causou quase mil mortos no Líbano desde os ataques que começaram a 28 de fevereiro – só parará quando se apossar dessa nesga de terreno. Mas é um lugar que fica a sul de nenhum norte. “Há uns anos em que o Líbano é reconstruído, muito graças também à obra do primeiro-ministro que já faleceu, foi assassinado, Rafiq Al Hariri. Ele acaba por ser o grande reconstrutor do Líbano de pós-guerra e o país entra numa nova fase de crescimento e parece, finalmente, voltar a ter um futuro. De facto, é um país com um enorme potencial, seja económico, seja turístico, seja social. Muitas pessoas que visitam o Líbano percebem como é um país especial”. Mas não chega: “a guerra entre Israel e o mundo árabe nunca acabou e acaba sempre por arrastar o Líbano, de uma forma ou outra”.

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