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Ucrânia: ex-ministro da Defesa pede eleições presidenciais em tempo de guerra

O apelo de Mykhailo Fedorov é o desafio mais direto a Volodymyr Zelensky desde a invasão russa em 2022. O ex-ministro, que nunca chegou a ser reintegrado, estará a preparar-se para uma viagem aos Estados Unidos.

O ex-ministro da Defesa da Ucrânia Mykhailo Fedorov, recentemente demitido, pediu eleições presidenciais em tempos de guerra, representando o desafio político mais direto ao presidente Volodymyr Zelensky desde o início da invasão russa em fevereiro de 2022. Fedorov, cuja demissão abrupta no mês passado desencadeou uma onda de protestos, afirmou que a Ucrânia precisa de "restaurar um processo democrático pleno, mesmo no meio de uma guerra prolongada".

“A democracia não pode ser feita refém da Rússia. Lutamos precisamente porque queremos continuar a ser um Estado europeu livre”, disse Fedorov, numa intervenção de nove minutos num vídeo publicado nas redes sociais.

Embora não tenha mencionado diretamente Zelensky, Fedorov insinuou que o atual presidente lidera um Estado com um funcionamento precário e que tem na corrupção um dos seus maiores problemas, apesar do estado de emergência nacional. “As pessoas não podem viver indefinidamente num Estado onde não entendem as razões por que certas decisões são tomadas, por que razão algumas reformas avançam enquanto outras são bloqueadas”, disse.

“É particularmente perigoso quando a sociedade desenvolve a sensação de que o principal critério para uma nomeação não é o profissionalismo, os resultados ou a capacidade de transformar o país, mas sim a lealdade pessoal ao sistema”, afirmou – numa frase que, evidentemente, devia acabar com o nome do presidente e não com a palavra ‘sistema’.

As eleições estão suspensas na Ucrânia desde a imposição da lei marcial no início da invasão da Rússia. O mandato de cinco anos de Zelensky terminou em maio de 2024, mas há pouco interesse na Ucrânia em realizar eleições enquanto a guerra continuar. Recorde-se que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a exigir que a Ucrânia realizasse eleições, numa altura em que a relação entre ambos era muito má. Mas, à medida que Kiev demonstrou ser capaz de se defender no campo de batalha, Trump parece ter esquecido o assunto – assim como esqueceu muitos outros, nomeadamente a célebre empresa que deveria explorar as terras raras da Ucrânia.

Fedorov, de 35 anos, foi ministro da Transformação Digital de 2019 até janeiro passado, liderando a adoção de drones pelo país em tempos de guerra – o que representa ‘um antes e um depois’ em termos da capacidade de defesa contra as investidas russas. Depois disso serviu brevemente no que foi considerado um período de sucesso como ministro da Defesa até julho. Inicialmente considerada uma promoção, Fedorov acabou por sair – transformando-se num dos casos políticos mais difíceis de gerir por parte de Zelensky. Foi repentinamente afastado no quadro de uma reformulação do governo após um desentendimento com o comandante militar, General Oleksandr Syrskyi. Seguiram-se protestos nas ruas, coisa nunca vista antes em tempo de guerra, que levaram à demissão de Syrskyi , mas não à reintegração de Fedorov.

Esta terça-feira, 18 de agosto, Zelenskyy nomeou formalmente Yevhen Khmara, o ministro interino da Defesa, para assumir o cargo em permanência.

Se a Ucrânia realizasse eleições, teria de lidar com o facto de que milhões de pessoas estarem exiladas e deslocadas desde o início da guerra, e que mais de um milhão estão a servir nas forças armadas, muitas delas na linha de frente. Cerca de um quinto do território do país também está sob ocupação russa, o que dificultaria ainda mais uma decisão nesse sentido.

 

Viagem aos Estados Unidos

Entretanto, o jornal ‘Kiev Independent’ adianta que Mykhailo Fedorov está a considerar uma viagem aos Estados Unidos. Ainda não é claro com quem Fedorov planeia encontrar-se, mas, segundo o jornal, tem mantido contato próximo com o CEO da SpaceX, Elon Musk, sobre o possível uso de terminais Starlink para neutralizar sistemas de mísseis balísticos implantados em território russo. Fedorov não respondeu ao pedido de comentário do jornal e o gabinete de Zelensky afirmou não ter conhecimento sobre o assunto.

Zelensky nunca deu uma explicação detalhada sovre a demissão de de Fedorov, apontando, em vez disso, para um suposto conflito entre o ex-ministro Oleksandr Syrskyi . Em julho, Zelensky afirmou ter oferecido a Fedorov "um cargo de destaque no governo" com foco no fortalecimento do setor tecnológico da Ucrânia: vice-primeiro-ministro para a área da inovação militar ou para liderar a Ukroboronprom, o conglomerado estatal de defesa da Ucrânia. Fedorov rejeitou as duas opções, preferindo regressar apenas como ministro da Defesa.