O turismo português deverá encerrar 2026 com um crescimento de aproximadamente 3% nas receitas para 30 mil milhões de euros. Um valor que o setor já tinha apontado em 2025, mas que acabou por se fixar nos 29,1 mil milhões de euros. A expectativa do número redondo para este ano é apontado pela Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) no inquérito "Balanço do Verão & Perspetivas Outono 2026" apresentado esta quarta-feira, 19 de outubro.
O inquérito realizado entre 28 de setembro e 11 de outubro, que recebeu 403 respostas de membros hoteleiros prevê que os proveitos totais possam atingir os 7,4 mil milhões de euros, um aumento de 5%, face aos 7,1 mil milhões de euros do ano anterior.
Já as dormidas deverão superar a marca dos 83 milhões (+1,4%), enquanto o número de hóspedes poderá aproximar-se dos 33 milhões (+1,5%). Contudo, Cristina Siza Veira, vice-presidente executiva da AHP, alertou durante a apresentação do estudo à imprensa, que "é necessário ter em atenção o impacto da inflação".
Na análise ao desempenho do setor, Cristina Siza Vieira destacou o abrandamento dos indicadores de ocupação e preço em alguns dos principais destinos nacionais, com consequências para a rentabilidade da atividade hoteleira. Lisboa surge entre as regiões que mais preocupam os operadores, depois de um verão em que a evolução da procura ficou aquém das expectativas.
A Grande Lisboa viu a sua taxa de ocupação descer 2 pontos percentuais para 82% e o preço médio por quarto fixar-se nos 173 euros, uma ligeira queda de 1%. Ainda assim, estes valores ficam acima da média nacional de 80% e 171 euros, respetivamente, mas a responsável considera que essa vantagem perdeu expressão, principalmente devido aos constrangimentos no aeroporto Humberto Delgado, uma preocupação que já tinha sido identificada durante o primeiro semestre.
Os sinais de abrandamento da Grande Lisboa são também visíveis na perceção dos operadores turísticos relativamente aos proveitos totais. No conjunto nacional, 53% dos inquiridos consideraram que o desempenho do período foi melhor ou muito melhor do que no período homólogo, enquanto 19% apontaram uma evolução semelhante e 28% uma evolução pior ou muito pior. Na Grande Lisboa, o cenário foi mais desfavorável, com 57% dos inquiridos a classificarem o desempenho como pior ou muito pior face ao mesmo período do ano anterior.
Algarve e Madeira lideram o desempenho do verão
O Algarve e a Região Autónoma da Madeira voltaram a destacar-se entre os destinos turísticos nacionais durante o verão, tanto pela capacidade de atrair visitantes como pelo nível dos preços praticados.
A região do Algarve foi a única a registar um preço médio por quarto superior a 200 euros (+5%, para 228 euros), com uma taxa de ocupação de 86%, só superada pelos 90% da Região Autónoma da Madeira, que observou um preço médio de 196 euros, num aumento de 6%.
Por sua vez, a região do Alentejo apresentou o maior crescimento absoluto nos indicadores de ocupação, apesar de abaixo dos 80% de média nacional (+2%, para 73%) e preço (+5%, para 146 euros) embora continue abaixo da média nacional (171 euros).
Saída da Ryanair pressiona os Açores
A suspensão da operação da Ryanair na Região Autónoma dos Açores constituiu um dos fatores que contribuíram para a quebra da taxa de ocupação (-2%, para 86%) no arquipélago. Embora a região tenha beneficiado de reservas efetuadas com maior antecedência, a saída da companhia aérea veio acentuar os desafios de acesso ao destino.
No entanto, o preço médio registou um ligeiro aumento de 1%, para 180 euros, mantendo-se acima da média nacional. Cristina Siza Vieira, salienta que "a manutenção da atividade tem dependido sobretudo das companhias aéreas nacionais", nomeadamente a TAP e a SATA, não existindo ainda uma substituição equivalente da capacidade retirada pela Ryanair.
Mercado interno perde peso relativo
O mercado português continua a ser um dos principais pilares da atividade turística nacional, mas perdeu importância relativa em vários destinos durante o verão. No conjunto dos inquiridos, a proporção que identificou Portugal como um dos três principais mercados passou de 78% para 72%.
A redução foi particularmente visível na Grande Lisboa, onde o indicador recuou de 60% para 56%, e no Algarve, de 99% para 95%. No Centro, a proporção desceu de 100% para 97%; na Região Autónoma dos Açores, de 83% para 81%; e no Alentejo, de 96% para 93%. O Oeste e Vale do Tejo constituiu uma exceção, com um aumento da relevância do mercado nacional para 98%.
Entre os mercados internacionais, o Reino Unido continua a ter um peso significativo, em particular no Algarve, apesar de ter registado uma descida de 55% para 49%, com os Estados Unidos a caírem de 45% para 41% no verão.
Uma tendência que se verifica no caso britânico para o outono, com as perpetivas dos hoteleiros a apontarem para uma quebra de 56% de 2025, para os 48% em 2026. Em sentido contrário, o mercado espanhol ganhou relevância no verão, passando de 39% para 44%, enquanto o mercado alemão apresenta sinais positivos nas perspetivas para o outono, passando de 33% para 39%.