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Semana de quatro dias avança e desafia modelo tradicional

Trabalho : Duas dezenas de empresas participantes no projeto piloto mantêm o registo dos quatro dias. As PME são as protagonistas. As empresas de grande dimensão, pelo contrário, ignoram olimpicamente este instrumento de gestão. Sexta-feira é o novo sábado.

Mais de dois anos e meio depois da conclusão do projeto piloto, a semana de quatro dias avança em várias empresas portuguesas.
“Mais de 50% das participantes do piloto continuam a praticar e há novas empresas a aderir aos quatro dias”, revela Pedro Gomes, economista, especialista em questões laborais, professor em Birkbeck, University of London, e coordenador do projeto que envolveu 41 empresas, ao Jornal Económico (JE).
A semana de quatro dias não é fechar as empresas ao quinto dia. É reorganizar o trabalho na semana e reduzir efetivamente o tempo que um trabalhador trabalha, sem corte salarial. Se para uns, a sexta-feira pode tornar-se o novo sábado, para outros será a segunda, a terça, a quarta ou a quinta...
Para as empresas, explica o autor de “Sexta-feira é o novo Sábado”, “o que é importante perceber é que a produtividade por hora vai ser mais alta do que era antes e mesmo que tenham que contratar, nunca será na proporção direta, dados estes ganhos”. 
Os estudos falam em cerca de 20% no aumento da produtividade, mas não pode ser tomado como um valor estanque e sobretudo não é transversal a todas as áreas de atividade.
Em Portugal são as pequenas e médias empresas que estão a abraçar esta nova organização do trabalho, sobretudo na área dos serviços. No grupo das participantes do projeto piloto que dão continuidade à medida contam-se gabinetes de arquitetura, consultoras, uma empresa de comércio de material de saúde e uma creche. Não tendo entrado no projeto piloto, a Farmácia Graciosa em Ferreira do Zêzere avançou para este registo.
“É quase um paradoxo serem as PME, empresas que correm mais risco financeiro se as coisas não correrem bem, que estão na linha da frente desta disrupção”, salienta Pedro Gomes ao JE. Na sua perspetiva, as PME têm aqui um grande trunfo na competição pela atração e retenção de talento. Podem oferecer aos trabalhadores algo que as grandes empresas, que, por norma, pagam melhores salários, para já, não estão a oferecer: menos horas de trabalho, logo mais tempo livre.
Com efeito, a retenção é um dos principais fatores que levam as empresas a experimentar a semana de quatro dias. Uma das participantes mais emblemáticas do projeto piloto coordenado por Pedro Gomes, o Centro Infantil Maria de Monserrate, em Lisboa, que passados quase três anos mantém o registo, aponta justamente para duas batalhas: retenção e absentismo (ver texto ao lado).
No retalho especializado, os ganhos são à partida evidentes. Um trabalhador que faça quatro dias e fique na empresa cinco anos, será sempre mais produtivo e mais eficiente do que uma sequência de trabalhadores com horário de cinco dias, que fiquem um ano e a seguir se vão embora, obrigando a empresa recomeçar o processo.
Um avanço social desta grandeza não se faz, no entanto, sem o envolvimento das grandes empresas. Em termos internacionais há duas marcas mediáticas que têm em curso projetos deste género: a fabricante automóvel Lamborghini e a multinacional do setor ótico Essilor.
“É preciso as empresas terem coragem de experimentar, os governos terem coragem de avançar com projetos piloto, as grandes empresas não terem medo de experimentar”, afirma Pedro Gomes. Olhando para dentro do país, o economista apela a que deem uma hipótese à experimentação: “Testem!”
Avanço civilizacional
Quatro dias de trabalho é disruptivo, tal como a semana de cinco dias há um século, quando foi adotada nos Estados Unidos por Henry Ford nas suas fábricas de automóveis e que a Portugal só chegou na sequência do 25 de Abril. Finalmente, consolidada por legislação em 1996.
Nas últimas três décadas, muita coisa mudou no mundo e em Portugal. Da tecnologia ao papel da mulher, da demografia (população mais envelhecida, acompanhada de quebra na natalidade) aos empregos cada vez mais qualificados. “Só a organização do trabalho em cinco dias se mantém”, salienta o economista, que defende a mudança.
A redução da jornada de trabalho pode trazer ganhos não apenas às empresas, mas a toda a economia e sociedade ao nível da saúde mental, da redução do stresse e do aproveitamento noutras atividades que fazemos quando não trabalhamos. Ou até mesmo como estratégia para aumentar a natalidade.
“Não há que concordar ou discordar”, afirma Pedro Gomes. A semana de quatro dias é uma prática de gestão. Ponto. “Pode haver práticas de gestão que trazem mais benefícios sociais do que outras, o trabalho infantil, por exemplo, achamos que tem efeitos negativos na sociedade e não o queremos”. Do seu trabalho no terreno, sabe que a percepção dos trabalhadores é que esta é uma conquista de enorme valor, sobretudo para as mulheres, para as pessoas com filhos e para as novas gerações que querem um maior equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Em concreto, no projeto piloto feito em Portugal “as pessoas valorizavam a semana de quatro dias em 28% do salário quando a redução do tempo de trabalho médio foi de 12%”.
O economista mantém a convicção de que grande parte dos portugueses pode ter uma semana de quatro dias daqui a oito anos. “É realizável. Só não acontecerá se nada fizermos e se as grandes empresas se mantiverem sempre à margem”.
Se as empresas têm de banir o medo de experimentar, aos governos cabe a coragem de avançar com pilotos sectoriais. O pacote laboral, que as empresas prometeram relançar após o chumbo em junho, poderá ser uma oportunidade para fazer mover esta roda do progresso. Assim, haja vontade e criatividade.

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