Skip to main content

Retomar do conflito no Irão. Agências de viagens admitem cancelamentos e suspensões pontuais de voos

Miguel Quintas, presidente da ANAV assume que os clientes procuram confirmação de voos, alternativas de rota ou eventuais remarcações, mas ainda de forma "muito incipiente", até porque a situação geopolítica na região já é acompanhada há bastante tempo. "Enquanto não existir uma paz duradoura, a região continuará condicionada para o turismo de lazer e também para uma parte importante do turismo de negócios", afirma.

O retomar do conflito entre o Irão e Estados Unidos é visto pelos turistas portugueses com cautela, mas sem reações precipitadas. No lado das agências de viagens o sentimento é de adaptação a uma realidade que já dura há algum tempo. Contudo, e apesar da segurança ser a prioridade absoluta, a atual situação na região do Golfo não deve ser encarada com pânico.

A reabertura do Estreito de Ormuz no passado mês de junho veio devolver a normalização das rotas aéreas na região do Golfo, para onde cerca de 110 mil portugueses viajam anualmente para esta zona do mundo, segundo as estimativas da Associação Nacional de Agências de Viagens (ANAV).

Esta perspetiva é traçada em entrevista ao Jornal Económico (JE), por Miguel Quintas, presidente da ANAV, onde aponta também as previsões turísticas para este ano naquela região do Golfo e para o mercado nacional.

Com o retomar do conflito no Irão estão ser cancelados voos para aquela região do globo?

Muito pouco. A situação é ainda muito recente e deve ser acompanhada com prudência. Neste momento, não existe um encerramento geral do espaço aéreo do Golfo, mas sim um encerramento efetivo do espaço aéreo do Irão, Iraque e Líbano para operadores europeus, com operação condicionada nos restantes países da região. Existem, por isso, cancelamentos, suspensões pontuais, alterações de horários e reajustamentos de rotas, dependendo das companhias aéreas, dos destinos e da evolução diária do conflito, mas todos eles muito residuais.

Os corredores aéreos permanecem abertos, de forma geral, e continuam a ser utilizados sob critérios muito pesados de segurança operacional, sendo que a recomendação atual é não sobrevoar a região diretamente associada à guerra ou considerada de maior risco.

Importa também sublinhar que as companhias aéreas já se vêm adaptando há algum tempo a esta realidade, que infelizmente deixou de ser totalmente nova. Com os sucessivos avanços e recuos do conflito, as operações têm sido ajustadas, as rotas redesenhadas e as decisões tomadas sempre com a segurança como prioridade absoluta.

Que impacto tem nas agências de viagens?

Do lado das agências de viagens, nota-se algum aumento no contacto com clientes que procuram esclarecimentos, confirmação de voos, alternativas de rota ou eventuais remarcações, mas ainda muito incipiente. Ainda assim, neste momento, estamos longe de um impacto significativo e muito longe de uma situação de pânico generalizado. Isto acontece também porque a situação geopolítica na região já vem sendo acompanhada há bastante tempo.

As agências de viagens sempre tiveram muita prudência no envio de turistas para zonas instáveis e muitos clientes também já encaram estes episódios com maior cautela, mas sem reações precipitadas.

Naturalmente, enquanto não existir uma paz duradoura, a região continuará condicionada para o turismo de lazer e também para uma parte importante do turismo de negócios. O papel das agências é acompanhar a evolução, informar os clientes, propor alternativas quando necessário e garantir que qualquer decisão de viagem é tomada com segurança e informação atualizada.

Que impacto pode ter para o turismo português a reabertura do Estreito de Ormuz?

A reabertura do Estreito de Ormuz é uma notícia potencialmente muito positiva para o turismo português, desde logo porque reduz a pressão sobre a energia, o jet fuel e, consequentemente, sobre os preços das viagens aéreas e, indiretamente, a hotelaria e demais serviços conexos. Mas é também essencial para restabelecer a confiança dos turistas, dos passageiros, das companhias aéreas, dos operadores turísticos e dos mercados emissores.

A região do Golfo tem importância direta e indireta para Portugal. Estimamos que cerca de 110 mil portugueses viajem anualmente para esta zona do mundo (na zona reduzida de Qatar, Abu Dhabi e Dubai), quer em lazer, quer em negócios, quer em trânsito, mas com entrada, para outros destinos, em especial na Ásia. Há ainda uma dimensão muito relevante de conectividade: Dubai, Abu Dhabi e Doha são alguns dos principais hubs mundiais entre a Europa, Ásia, África e Oceânia.

A normalização das rotas aéreas nessa região beneficia os portugueses que viajam para Oriente, mas também Portugal enquanto destino recetor de turistas provenientes desses mercados. Importa ainda recordar que, durante o conflito, Portugal tem beneficiado parcialmente do desvio de procura turística internacional que deixou de considerar destinos do Golfo. A paz e a segurança poderão normalizar esses fluxos, mas o efeito global será positivo, porque turismo, aviação e confiança dos consumidores dependem de estabilidade.

Quais são as previsões para este verão?

A ANAV mantém uma perspetiva muito prudente, mas moderadamente otimista. A reabertura do Estreito pode aliviar progressivamente a pressão sobre os combustíveis, reduzir o risco de perturbações operacionais e reforçar a confiança para as reservas de médio e longo curso. No entanto, não devemos esperar um efeito imediato nos preços nem na abertura dos mercados emissores.

As companhias aéreas compram combustível antecipadamente, têm contratos de cobertura diferentes e continuam expostas a custos elevados, alterações de rotas e constrangimentos operacionais acumulados, enquanto os operadores não programarão o destino se não houver total segurança na zona (voos, hotéis, cruzeiros, etc), assim como os turistas não terão o desejo imediato de se deslocarem para a zona. Todo este processo demorará meses após uma definição clara e irredutível de um acordo de paz e de estabilidade energética.

O preço do jet fuel pode afetar a escolha dos portugueses nos destinos de férias?

O jet fuel é uma das maiores componentes de custo de uma companhia aérea, pesando até 40% das suas estruturas de custos. Quando o seu preço sobe de forma significativa, o impacto tende a refletir se nas tarifas, sobretudo nos voos de longo curso, nos voos com escalas e nas viagens compradas mais perto da data de partida. Para as famílias portuguesas, e porque os preços têm vindo a subir, isto significa uma procura maior por destinos mais próximos, voos diretos, estadias mais curtas ou produtos com preço previamente fechado, como os pacotes turísticos.

Poderemos também assistir a uma maior comparação entre destinos, com alguns consumidores a trocar Caraíbas, Ásia ou Médio Oriente por destinos europeus, mediterrânicos ou de proximidade. De uma forma geral o consumidor português continua a valorizar muito as férias. O que tende a mudar é a antecedência da reserva, a duração da viagem, o tipo de alojamento e o destino escolhido e, obviamente, o preço que tem impacto nas opções de escolha final.

Aqui, as agências de viagens têm um papel decisivo: comparar alternativas, proteger o consumidor, encontrar soluções com melhor relação qualidade-preço e evitar que uma escolha aparentemente mais barata se transforme numa viagem mais cara ou mais arriscada.

Poderemos ter um verão 'vá para fora cá dentro'?

Há uma franja de turistas que optou por esta decisão, sobretudo para uma parte da procura mais sensível ao preço. Portugal pode beneficiar de uma procura acrescida por férias internas, escapadinhas, litoral, ilhas, turismo rural e destinos de menor distância. Mas não devemos assumir que será um verão exclusivamente de turismo interno. Os portugueses continuam a querer viajar para fora e muitos já têm férias reservadas e acreditamos que muitos ainda por reservar, a avaliar pela procura.

Além disso, Portugal também sofre pressão de preços na hotelaria e no transporte, pelo que “ficar cá dentro” não será automaticamente a opção mais barata. O mais provável é um verão mais seletivo: maior procura por proximidade, destinos europeus e produtos com preço fechado, mas sem perda do desejo dos portugueses de viajar internacionalmente.