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Mário Trinca: "Não se antecipa impacto estruturalmente relevante na performance do setor" com subida da taxa de stress do crédito à habitação

Na semana passada foi conhecido que o Banco de Portugal quer dificultar acesso ao crédito à habitação, no contexto de querer travar o endividamento excessivo das famílias. Mário Trinca, da Alvarez & Marsal Lisboa, em entrevista ao JE, diz que não espera que medidas para travar o crédito à habitação venham a ter "impacto estruturalmente relevante na performance do setor". O responsável pelo estudo da banca, que acaba de ser publicado, não antevê também risco de contágio direto da crise dos fundos de crédito privado à banca tradicional.

A Alvarez & Marsal (A&M) publicou a terceira edição do "A&M Portugal Banking Pulse ‘The Pulse’ Annual 2025", que analisa o desempenho comparativo da CGD, Millennium BCP, Santander, Novobanco, BPI, Crédito Agrícola e Banco Montepio. A este propósito Mário Trinca, da Alvarez & Marsal Financial Industry Advisory Services em Lisboa, em entrevista ao Jornal Económico, diz que não espera que as medidas do Banco de Portugal para travar o crédito à habitação venham a ter "impacto estruturalmente relevante na performance do setor".

Notícias da semana passada revelam que o Banco de Portugal quer dificultar acesso ao crédito à habitação, no contexto de querer travar o endividamento excessivo das famílias . Tornar mais difícil o acesso ao crédito à habitação vai em sentido oposto à política do Governo que acaba de reforçar em 750 milhões a garantia pública para facilitar o acesso dos jovens ao crédito para compra de casa.

 

"No curto prazo, eventuais ajustamentos - como a revisão das taxas de stress - poderão introduzir alguma moderação na procura, mas não se antecipa um impacto estruturalmente relevante na performance do setor"

O Governador disse esta semana nas redes sociais que o nível de endividamento das famílias voltou a subir em 2025 à boleia do crédito à habitação e tem demonstrado não ser um apologista do prolongamento da garantia do Estado, admitindo inclusive rever a taxa de stress usada nas simulações. Esta iniciativa do BdP pode prejudicar a performance futura dos bancos? Até que ponto a atividade de 2025 foi beneficiada pelo crédito à habitação e de que forma essa mudança pode afectar performance futura?

Era expectável que, num contexto de descida das taxas de juro e consequente compressão das margens financeiras, os bancos procurassem compensar esse efeito através do aumento dos volumes de negócio. Nesse enquadramento, o crédito à habitação - enquanto produto estruturante - assumiu naturalmente um papel central na dinâmica comercial de 2025, beneficiando também de medidas de estímulo como a garantia pública dirigida aos segmentos mais jovens.

Quanto às iniciativas do Banco de Portugal, importa sublinhar que qualquer medida que reforce a literacia financeira e promova uma avaliação prudente da capacidade de endividamento das famílias tende a contribuir para a sustentabilidade do sistema no médio e longo prazo. No curto prazo, eventuais ajustamentos - como a revisão das taxas de stress - poderão introduzir alguma moderação na procura, mas não se antecipa um impacto estruturalmente relevante na performance do setor.

O impacto da guerra do Médio Oriente na economia pode criar um stress acrescido no crédito a empresas? Numa altura em que o Banco de Fomento está a avançar com linhas pré-aprovadas de crédito, o malparado pode aumentar no crédito a empresas se a situação geopolítica se prolongar?

O principal canal de transmissão de um agravamento do contexto geopolítico será, tipicamente, através do aumento da incerteza, com reflexo no custo de financiamento, numa maior seletividade por parte das instituições financeiras e, em alguns casos, numa atitude mais prudente por parte das empresas na procura de novo crédito.

Instrumentos como os disponibilizados pelo Banco Português de Fomento podem desempenhar um papel importante de estabilização, ao mitigar eventuais constrangimentos de acesso ao financiamento, sobretudo em fases de maior volatilidade.

Naturalmente, empresas com níveis de alavancagem mais elevados ou maior exposição a choques externos poderão enfrentar maior pressão, o que reforça a importância de uma monitorização próxima e de uma gestão proativa do risco por parte das instituições financeiras.

 

"É possível assistir a uma normalização do custo do risco face aos níveis historicamente baixos observados nos últimos anos"

O custo do risco pode aumentar?

É possível assistir a uma normalização do custo do risco face aos níveis historicamente baixos observados nos últimos anos. Ainda assim, importa referir que o setor bancário português tem apresentado indicadores de qualidade de crédito bastante sólidos no contexto europeu, o que sugere uma base relativamente resiliente para acomodar eventuais ajustamentos.

Há algum risco de contágio da crise dos fundos de crédito privado à banca tradicional? Pode afetar os bancos portugueses?

As autoridades europeias, incluindo o Banco Central Europeu, têm vindo a sinalizar potenciais vulnerabilidades associadas às interligações entre o sistema bancário e o setor financeiro não bancário (NBFI).

No entanto, no caso português, o risco de contágio direto aparenta ser limitado. Eventuais impactos deverão materializar-se sobretudo de forma indireta, nomeadamente através de condições financeiras mais restritivas ou maior aversão ao risco. Poderão existir efeitos mais específicos em empresas com exposição relevante a este tipo de financiamento, mas sem implicações sistémicas evidentes para a banca tradicional.

 

"O Banco Montepio e o Crédito Agrícola têm vindo a reforçar a componente de comissões no seu produto bancário, o que contribui para uma maior diversificação e resiliência das receitas" 

O Banco Montepio e o Crédito Agrícola estão numa zona crítica em termos de rácio de eficiência que ultrapassa limiar crítico de 50%. Em termos de rentabilidade são também as exceções preocupantes: O ROE do Crédito Agrícola colapsou de 15,4% para 9,2% (-620 bps, -40%) e o Banco Montepio situa-se na cauda com 5,8% — ambos enfrentam um desafio na rentabilidade. O que considera que terá de ser o caminho destes bancos? Acredita que a consolidação dos bancos para criar dimensão é um caminho incontornável? 

Tanto o Banco Montepio como o Crédito Agrícola apresentam modelos de negócio com características próprias, assentes em lógicas mutualistas e de proximidade às comunidades, o que naturalmente influencia a forma como equilibram objetivos de rentabilidade, serviço e missão institucional.

Em termos de eficiência, sendo indicadores a acompanhar, é provável que as equipas de gestão continuem a desenvolver iniciativas de otimização operacional, em linha com as respetivas prioridades estratégicas. Importa também notar que ambos os grupos têm vindo a reforçar a componente de comissões no seu produto bancário, o que contribui para uma maior diversificação e resiliência das receitas num contexto de normalização das margens financeiras.

O setor bancário português, no seu conjunto, tem evidenciado progressos relevantes em eficiência e disciplina de custos, o que constitui uma base sólida para enfrentar um enquadramento mais exigente.

Quanto à consolidação, não se trata necessariamente de um caminho inevitável, mas poderá representar uma alavanca relevante em determinados contextos, sobretudo para ganhos de escala, eficiência e capacidade de investimento — nomeadamente ao nível tecnológico.

 

"A capacidade de continuar a gerar valor dependerá de fatores como a eficiência operacional, a diversificação das fontes de receita, uma gestão rigorosa do pricing e do risco, bem como da aposta contínua na transformação digital"

Os bancos têm atualmente uma rentabilidade superior ao custo do capital. Isso irá continuar?

Após um período prolongado, no rescaldo da crise financeira, em que o setor enfrentou desafios significativos de rendibilidade, a banca portuguesa entrou recentemente numa fase de criação de valor, com níveis de rendibilidade acima do custo de capital.

O cenário mais provável para os próximos anos será de alguma normalização desses níveis, refletindo um enquadramento de taxas de juro mais estável e maior pressão concorrencial.

Neste contexto, a capacidade de continuar a gerar valor dependerá de fatores como a eficiência operacional, a diversificação das fontes de receita, uma gestão rigorosa do pricing e do risco, bem como da aposta contínua na transformação digital — com destaque crescente para o papel da inteligência artificial como fator de diferenciação.