O setor bancário português encerrou 2025 com indicadores robustos, mas já sob sinais claros de inversão do ciclo favorável dos últimos anos. A conclusão resulta do relatório Portugal Banking Pulse – Annual 2025, divulgado pela Alvarez & Marsal, que analisa o desempenho das principais instituições financeiras a operar no país.
Após um período excecional impulsionado pela subida das taxas de juro, as sete maiores instituições financeiras do país enfrentaram, em 2025, a primeira vaga de compressão de margens desde o pico do Euribor em 2023.
Da análise ao estudo há várias conclusões a tirar. Uma é que a banca portuguesa resistiu em 2025, mas as compressão de margens marca o fim do ciclo de lucros recorde. Pois juros mais baixos corroeram os lucros da banca que perdeu 14% de rentabilidade em 2025.
A queda do Euribor tirou 500 milhões de euros à receita da margem financeira da banca portuguesa. Portanto o fim do ciclo de taxas altas apagou 100 pontos base de rentabilidade na banca.
Menos malparado e mais comissões marcaram também as contas de resultados de 2025.
Por outro assistiu-se ao regresso do fosso entre os gigantes e os pequenos bancos. A CGD e o Novobanco, que está prestes a passar para as mãos dos franceses do BPCE, brilharam em ano de margens apertadas. No pólo oposto, o Banco Montepio e o Crédito Agrícola viram o seu rácio eficiência ultrapassar o limiar crítico. Isto é, estão à beira da "ineficiência".
Em 2025 os sete maiores bancos portugueses expandiram o crédito 8% apesar de a rentabilidade cair.
É este o retrato traçado pelo terceiro relatório anual Portuguese Banking Pulse, elaborado pela Alvarez & Marsal (A&M), que analisa o desempenho comparativo da CGD, Millennium BCP, Santander, Novobanco, BPI, Crédito Agrícola e Banco Montepio.
Para 2026, a performance será inevitavelmente marcada pelo impacto da Guerra no Irão e pela política monetária do BCE.
Os desafios de 2026 serão a Inteligência Artificial e a geopolítica. A banca portuguesa caminha paulatinamente do pico do Euribor para a eficiência através da IA.
Banca portuguesa resiste à queda das taxas mas margens encolhem para mínimos de dois anos
O principal fator de pressão em 2025 foi a compressão da margem financeira. Todos os indicadores de rentabilidade apresentaram um efeito negativo à medida que a Euribor recuou face ao seu pico. A Margem Financeira Líquida (NIM) caiu para 2,23%, refletindo o impacto da descida da Euribor após os máximos de 2023-2024, e as comissões líquidas (NFCI) não compensaram esta perda, registando uma ligeira redução na sua proporção face à base de ativos dos bancos.
O Crédito Agrícola foi o banco mais afetado (-60 bps), seguido do Santander (-50 bps). O BCP mostrou a maior resiliência, com uma contração de apenas 10 bps.
As comissões ganharam no entanto relevância, representando agora 23,6% do produto bancário (face a 21,6% um ano antes), reduzindo ligeiramente a dependência excessiva das receitas de juros. O BCP destacou-se pela maior diversificação de receitas com 30,8% das receitas provenientes de comissões. Já a CGD, com apenas 15,9%, é o banco estruturalmente mais vulnerável neste domínio.
Os rendimentos dos ativos recuaram mais rapidamente do que os custos de financiamento, reduzindo a rentabilidade global do setor. Ainda assim, o alívio nos custos de financiamento — que caíram cerca de 60 pontos base — evitou uma deterioração mais acentuada.
O ROE (rentabilidade dos capitais próprios) e o ROA (rentabilidade dos ativos) diminuíram em relação ao ano anterior, embora os níveis absolutos permaneçam saudáveis para a maioria dos bancos.
"O ROE do setor diminuiu de 15,3% para 14,3% (-100 pb, -7%), impulsionado pela compressão da margem de juro que se traduziu numa redução do resultado líquido — no entanto, o nível absoluto mantém-se saudável e acima do custo estimado do capital próprio, o que significa que os bancos portugueses continuam a criar valor para os acionistas", diz a A&M.
O Santander lidera o painel com um ROE de 22,1% (apesar de uma redução anual de -200 pb), enquanto o Novobanco registou o maior crescimento (+330 pb para 20,0%, ocupando o primeiro lugar) — ambos confortavelmente à frente dos seus pares e refletindo uma geração de receitas superior em relação à sua base de capital próprio, revela o estudo.
Pelo contrário, o ROE do Crédito Agrícola colapsou de 15,4% para 9,2% (-620 bps, -40%) e o Banco Montepio situa-se na cauda com 5,8% — ambos enfrentam um desafio na rentabilidade, indicando a necessidade de iniciativas destinadas a aumentar a eficiência, bem como a expandir e otimizar o fluxo de receitas.
A CGD e o Novobanco destacaram-se positivamente, com subidas do lucro líquido de 20% e 9%, respetivamente. Já o Crédito Agrícola viu os seus resultados caírem 34%, e o BPI recuou 13%, ambos pressionados por margens mais estreitas e, no caso do CA, por um significativo aumento de provisões.
O resultado líquido ao nível do setor permanece bem abaixo dos níveis de pico de 2024 para a maioria das instituições, sendo que apenas a CGD, o Novobanco e o Millennium BCP contrariaram a tendência, apresentando crescimento dos resultados em termos homólogos.
Eficiência sob pressão, mas com líderes claros
No que toca à eficiência o rácio Cost-to-Income deteriorou-se para 39,95% (compara com 36,8%), impulsionado puramente pela compressão das receitas e não pelo crescimento dos custos (que se mantiveram controlados).
As receitas caíram mais depressa do que as estruturas de despesa conseguiram ajustar-se. Os custos operacionais sobre ativos mantiveram-se praticamente estáveis em 1,2%, o que revela disciplina de gestão.
Já o rácio Custos Operacionais/Ativos melhorou 120 pontos base, confirmando que a disciplina de custos se manteve firme em todo o setor.
A CGD e o Santander continuam entre os mais eficientes em Portugal. A CGD (26,8%) e o Santander (27,8%) mantêm-se mesmo na elite da eficiência europeia. Já o Novobanco foi o único banco a melhorar o seu rácio de cost-to-income, descendo para 31,6%.
Em contraste, Crédito Agrícola (52,2%) e o Banco Montepio (64,4%) ultrapassaram os 40% de cost-to-income o que a indústria considera o limiar máximo aceitável para banca de retalho. A A&M considera para ambos, a necessidade de reflexão estratégica é urgente — não como consequência do ciclo, mas como sinal de desafios estruturais ao modelo de negócio.
Qualidade dos ativos em máximos de uma década
Apesar das pressões na rentabilidade, a qualidade dos ativos continua a melhorar. O rácio médio de crédito não produtivo (NPE) desceu de 2,0% para 1,5%, o nível mais baixo desde a crise soberana. A cobertura por imparidades aumentou para 94,7%.
"A densidade de ativos ponderados pelo risco (RWA) do setor diminuiu modestamente para 44,9% (-150 bps), refletindo a melhoria da qualidade dos ativos e o forte crescimento do mercado hipotecário – com ponderações de risco mais baixas – sugerindo que o perfil de risco global do setor está gradualmente a tornar-se mais conservador", refere o estudo da A&M.
Aqui, o Santander destaca-se claramente com 25,5% – menos de metade da média dos pares – apontando para uma carteira fortemente colateralizada e dominada por hipotecas que requer significativamente menos capital por euro de ativos. No outro extremo, os 63,6% do BCP possivelmente refletem uma composição mais orientada para as empresas/PME e tornam-no o banco mais intensivo em capital no painel, acrescenta a análise.
No que toca ao custo do risco, o estudo diz que "a qualidade do crédito do sector continua amplamente saudável, com o custo médio do risco do setor a manter-se próximo de zero (+3 bps para 0,06%), o que traduz uma continuação do ciclo de crédito benigno que tem caracterizado o setor bancário português desde a limpeza dos ativos problemáticos pós-crise financeira mundial, com as necessidades de provisionamento a manterem-se mínimas na maioria dos bancos".
A Caixa destaca-se por combinar o segundo melhor rácio de NPE do painel (1,3%) com o maior rácio de cobertura (126%), uma posição estrutural sem paralelo entre os pares. "O custo de risco negativo do CGD (-0,35%) é uma característica estrutural notável, pois reflete as recuperações líquidas de perdas com empréstimos que superam as novas provisões, o que é lido como uma consequência dos seus padrões de empréstimo historicamente conservadores e das recuperações contínuas de ativos problemáticos legados", segundo a A&M.
Já o Novobanco continua a trajetória de recuperação, reduzindo significativamente o custo do risco, segundo a mesma análise. O custo do risco caiu de 0,33% para 0,08%, refletindo a progressiva resolução do legado problemático que marcou os primeiros anos após a resolução do BES.
Pela negativa, a A&M destaca o Crédito Agrícola, que considera ser "um caso atípico" onde "o custo do risco subiu acentuadamente de -0,19% para +0,31% (+50 bps), a maior deterioração do painel, de longe, sugerindo o surgimento de novas necessidades significativas de provisões em 2025 e explicando diretamente a quebra de -34% na receita líquida".
Capital e Liquidez: almofadas confortáveis
O setor mantém almofadas sólidas de capital e liquidez, com um rácio CET1 médio de 17,4% (ligeiramente abaixo dos 18,2% de 2024, por efeito do crescimento dos ativos ponderados pelo risco) e um rácio de cobertura de liquidez (LCR) de 245,8%, bem acima dos mínimos regulatórios. Isto à medida que o crescimento do balanço absorveu capital e liquidez.
Todos os bancos encerram 2025 com posições de capital e liquidez confortavelmente acima dos mínimos regulatórios.
O Crédito Agrícola e a CGD são os bancos com maior rácio de liquidez (LCR de 387% e 328%), enquanto o Santander (133%) e o Novobanco (160%) operam com buffers mais estreitos, ainda que perfeitamente adequados.
Já o rácio médio de Empréstimos/Depósitos (LtD) subiu para 80,0%.
Todos os indicadores apontam para uma resiliência robusta no setor bancário.
Subida dos ativos, à conta do aumento do crédito
Os sete maiores bancos — Caixa Geral de Depósitos, Millennium BCP, Santander Portugal, Novobanco, Banco BPI, Crédito Agrícola e Banco Montepio — somaram cerca de 365 mil milhões de euros em ativos, um aumento médio de 6% face a 2024.
"Os empréstimos cresceram fortemente (8,1%), superando o crescimento dos depósitos (4,7%) — refletindo uma procura de crédito generalizada nos sete bancos, com a expansão do crédito a exceder consistentemente as entradas de depósitos", destaca a A&M.
"O crescimento dos ativos foi generalizado e relativamente homogéneo entre os bancos (variando entre +3% no CGD e +9% no Novobanco), sugerindo uma expansão do crédito a nível de todo o setor, em vez de dinâmicas específicas de cada instituição", refere a A&M.
Setor concentrado e com modelos distintos
A análise confirma ainda a elevada concentração do sistema bancário português, com a CGD a representar cerca de um terço dos ativos totais e a gerar mais do dobro dos lucros do segundo maior banco (o BCP).
"O setor bancário português continua altamente concentrado, com a CGD a representar, por si só, cerca de um terço do total de ativos do setor (cerca de 97 mil milhões de euros de um total agregado de cerca de 365 mil milhões de euros)", diz o estudo.
O estudo diz ainda que o setor bancário português mantém uma presença física geograficamente alargada, apresentando uma rede combinada de cerca de 2.635 agências e 32.459 colaboradores nos sete maiores bancos.
No entanto, a distribuição desta presença é notavelmente desigual, com o Crédito Agrícola a operar a maior rede de agências, totalizando 615 balcões, apesar de ser apenas o sexto maior banco em termos de ativos, refletindo um modelo de proximidade. As suas 615 agências representam quase o dobro da média do setor, que se fixa em 373, refletindo um modelo cooperativo e de proximidade em detrimento de uma abordagem estritamente orientada para a eficiência.
Os outros bancos avançam gradualmente na racionalização da rede física.
Ranking da Alvarez & Marsal: Quem ganhou 2025?
No scorecard global da A&M, a Caixa Geral de Depósitos é o grande vencedor de 2025, com uma pontuação de 2,6 numa escala de 1 (melhor) a 7 (pior). O banco público lidera em eficiência e resiliência, consolidando a sua posição dominante — detém cerca de 35% dos ativos totais do painel e gerou quase o dobro do lucro líquido do segundo classificado (o BCP). Destaca-se ainda pela cultura de risco conservadora e disciplina de custos.
O Novobanco (3,8) e o BCP (4,0) completam o pódio, cada um com perfis distintos de vantagens competitivas.
Na outra ponta, o Banco Montepio (5,3) é o banco com maior necessidade de mudança, com baixos desempenhos em rentabilidade, eficiência e resiliência.
"É visível um contraste de desempenho acentuado entre os bancos analisados, distribuídos por três grupos distintos: a CGD supera significativamente os seus pares, impulsionada por uma eficiência e resiliência robustas; o Banco Montepio apresenta os resultados mais fracos, afetado negativamente por pontuações baixas em rentabilidade, eficiência e resiliência, sendo a sua única vantagem o crescimento demonstrado. Os outros cinco bancos apresentam pontuações relativamente semelhantes, com o Novobanco na vanguarda deste grupo, apesar de ser notavelmente penalizado pelo seu desempenho abaixo da média em termos de resiliência. O Santander destaca-se em rentabilidade e eficiência. O Crédito Agrícola e o BPI distinguem-se pelo seu crescimento e resiliência e o BCP apresenta a gestão mais equilibrada em todos os critérios avaliados", lê-se no estudo da A&M.
A relação entre rentabilidade e eficiência parece estar inversamente correlacionada com o crescimento e a resiliência, particularmente para as instituições mais fracas. O Montepio e o Crédito Agrícola registaram o seu desempenho mais baixo nestas áreas, indicando um desafio em alcançar retornos suficientes enquanto utilizam eficazmente os recursos dentro do seu modelo de negócio.
O que esperar de 2026?
O cenário base para 2026 é de continuação da compressão de margens, mitigada parcialmente pela recuperação do Euribor (que em março de 2026 já subia novamente em direção a 2,5%).
Os bancos com modelos mais diversificados, maior eficiência operacional e qualidade de ativos sólida — como a CGD, o Santander e o Novobanco — estão melhor posicionados para absorver o impacto, defende a A&M.
Para os bancos de menor dimensão ou com modelos de negócio menos eficientes, 2026 coloca perguntas difíceis sobre sustentabilidade e posicionamento competitivo a longo prazo, acrescenta a consultora.
A banca portuguesa passou pela crise. Agora enfrenta um desafio diferente — e talvez mais silencioso o de reinventar-se num ambiente de normalização das taxas, aceleração tecnológica e risco geopolítico crescente.
O relatório identifica três grandes forças que irão marcar o setor: a desregulação internacional, com os EUA a avançarem mais rapidamente do que a Europa, criando potenciais desequilíbrios competitivos; a transformação tecnológica, com a inteligência artificial a assumir um papel central na eficiência e geração de receitas; e a mudança no risco, com foco crescente em fatores geopolíticos e energéticos, acompanhados por iniciativas do Banco Central Europeu.
A gestão de risco está a mudar o seu foco, em vez de priorizar a sustentabilidade a longo prazo, foca-se agora em riscos geopolíticos, de segurança e de energia a médio prazo, defende a A&M.
Para medir o impacto destes cenários negativos no capital da banca europeia, o BCE já está a aplicar testes de stress geopolíticos.
O BCE está a realizar um exercício de Reverse Stress Testing Geopolítico para compreender qual o cenário geopolítico que geraria uma redução de 300 pontos base no capital de cada banco europeu.
O conflito no Irão em 2026 — que baixou a previsão de crescimento da Zona Euro para 0,9% — representa o primeiro grande teste prático deste novo paradigma.
No que toca à Inteligência Artificial a consultora diz que está a remodelar o setor em múltiplas camadas. Vai desde a interação com clientes à gestão de risco, passando pela automação de processos e pela infraestrutura de plataformas.
Os primeiros resultados dos grandes players globais já são visíveis — o JPMorgan reportou 2 mil milhões de euros de uplift de receitas através de mais de 300 casos de uso de IA e o Grupo Santander aponta para benefícios de 1 mil milhão entre receitas e custos.