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KPMG vê Portugal a crescer acima da média europeia em 2026 apesar das dificuldades

A confiança dos empresários está em mínimos de quatro anos a nível global, pressionada pela incerteza na vertente comercial, mas Portugal deverá conseguir continuar a crescer acima da média europeia. Questões relacionadas com IA e cibersegurança dominam as prioridades de investimento para este ano.

Portugal fechou 2025 marginalmente abaixo da meta de crescimento definida pelo Governo, de 2%, mas conseguiu ficar próximo do topo da moeda única apesar do contexto internacional de elevada incerteza e tensões comerciais. Haverá oportunidades para conquistar novos mercados, sobretudo com os acordos comerciais recentemente firmados, projeta o Partner, Head of Clients & Markets e membro da Comissão Executiva da KPMG Portugal, Miguel Afonso, que vê os empresários nacionais focados em questões tecnológicas este ano, além do reforço da resiliência operacional.

Como perspetivam a economia nacional em 2026, sobretudo no atual contexto de fraco crescimento na zona euro e das tensões geopolíticas e comerciais globais?

Há duas perspetivas que importam referir neste âmbito: a análise global e a visão nacional. Globalmente, tal como o nosso estudo indica, há uma menor confiança (68%) no crescimento da economia mundial, o valor mais baixo dos últimos quatro anos, precisamente por conta da incerteza gerada pelas tensões geopolíticas e comerciais no Mundo, no entanto, a nível nacional, as perspetivas são mais otimistas, nomeadamente em relação ao crescimento das próprias empresas (86%) e da economia nacional (74%).

Apesar destes serem dados de opinião dos principais líderes globais e nacionais, as previsões do governo, e também da KPMG, apontam para um crescimento da economia nacional acima da média da zona euro em 2026. Num outro estudo que realizamos trimestralmente, o 'European Economic Outlook', apontamos para um crescimento alinhado com esta expectativa em 2026, um número positivo face ao contexto internacional em que vivemos. Este crescimento económico de Portugal é sustentado por diversos fatores como um mercado de trabalho resiliente, com uma taxa de desemprego reduzida, uma maior estabilidade governativa que, esperemos, possa levar à implementação de algumas reformas que permitam que haja uma aceleração do crescimento económico nos próximos anos, através de estratégias e de políticas de médio e longo prazo.

As exportações abrandaram em 2025, travando o crescimento que vinham registando nos últimos anos. Com a escalada tarifária dos EUA, como podem os exportadores portugueses contrariar esta tendência?

As exportações são, desde sempre, um fator determinante para a economia portuguesa, e é importante que Portugal retome a dinâmica de crescimento que vinha a registar nos últimos anos, principalmente desde 2020, e que abrandou no ano passado. Naturalmente que o contexto internacional, os conflitos e a aplicação de tarifas condicionam o comportamento do mercado, no entanto, as empresas portuguesas devem seguir a tendência europeia na busca por novos mercados que se podem tornar relevantes para o peso das exportações do país. O acordo entre a União Europeia e a Mercosul é um sinal de que novas relações devem ser estabelecidas para que se minimizem os efeitos negativos produzidos pelas alterações impostas em velhas parcerias.

Além disso, é importante referir que a aposta cada vez maior na inovação e em produtos de maior valor acrescentado pode tornar as empresas portuguesas cada vez menos sensíveis a condicionantes externas do mercado. Por esse motivo, o desenvolvimento de estratégias de incentivo a indústrias inovadoras portuguesas e a outras que se queiram fixar em Portugal é muito importante para o fortalecimento da economia nacional.

O euro tem valorizado recentemente e há quem projete um rally prolongado em 2026 face ao dólar. Como perspetivam o comportamento da moeda única este ano e que efeitos terá para a economia nacional?

Tem havido uma pressão cada vez menor sobre o euro principalmente com os cortes das taxas de juro e a diminuição da inflação, fruto das medidas decretadas pelo BCE. Ainda assim, os riscos externos como as tarifas dos Estados Unidos continuam a persistir. Por esse motivo, a expectativa de uma valorização do euro face ao dólar vai depender das políticas monetárias adotadas pelo BCE e pela Federal Reserve.

Para a economia nacional, um euro mais forte tem dois tipos de consequências. No lado positivo, a valorização do euro traduz-se numa redução dos custos de importação, o que ajuda a controlar a inflação e aliviar empresas dependentes de bens importados. Um euro mais forte pode servir ainda como um fator que reforça a confiança dos investidores e para apoiar fluxos de capital para setores estratégicos como a tecnologia e a sustentabilidade.

Por outro lado, a valorização da moeda única europeia torna as exportações portuguesas menos competitivas, fora da zona Euro, especialmente para o mercado norte-americano. Setores como o automóvel, o metalúrgico e o agroalimentar podem sentir alguma pressão. O turismo pode ser outro dos setores afetados por este contexto porque os custos aumentam para os turistas que sejam de geografias fora da UE.

O investimento deve acelerar este ano, contando com forte impulso do PRR e com a normalização da política monetária europeia. Como podem as empresas portuguesas posicionarem-se para conseguirem manter esta dinâmica positiva de investimento, incluindo a captação de IDE, nos anos seguintes?

Desde logo e de acordo com os dados do estudo 'CEO Outlook', a aposta na inteligência artificial será um motor relevante para o investimento tanto em termos de tecnologia como de talento, pelo que estes fatores serão relevantes nos próximos anos. O PRR e a estabilidade da política monetária europeia poderão igualmente desempenhar um papel muito importante no capítulo do investimento. No entanto, o mais relevante para sustentar esta dinâmica no médio prazo, será a priorização de um conjunto de estratégias: apostar na inovação e produtividade de forma a poderem entregar maior valor e diferenciar- se da concorrência internacional. Como referimos o investimento na tecnologia, na digitalização e integração de inteligência artificial para aumentar a eficiência e libertar os profissionais para tarefas de alto valor acrescentado. Outra estratégia será alavancar os fundos europeus e os incentivos uma vez que a execução acelerada dos fundos da UE até 2027 é uma oportunidade única. Preparar projetos alinhados com as prioridades europeias (digitalização, transição energética, defesa e ICD) para captar financiamento e atrair IDE é uma boa estratégia para conseguir dar um salto qualitativo nas nossas empresas.

Por último, as organizações devem reforçar a resiliência operacional e a gestão de risco. Os CEOs portugueses já estão a ajustar estratégias para lidar com a volatilidade, investindo em talento, em tecnologia e em estruturas empresariais robustas. Esta abordagem deve continuar para garantir a estabilidade perante choques externos imprevistos.

Ǫuais os principais ajustes que as empresas portuguesas planeiam fazer nos próximos trimestres para acomodarem a incerteza existente na economia global e as novas ameaças tecnológicas?

Segundo o CEO Outlook 2025, as organizações poderão promover um conjunto de ajustes para enfrentar a incerteza, que se prendem com o investimento em cibersegurança, que surge como o maior risco, identificado por 32% dos CEOs, refletindo a necessidade de proteger os ativos digitais e os dados, num contexto de crescente ameaça cibernética. Conforme referido anteriormente, a integração da Inteligência Artificial também é apontada como prioridade por 24% dos líderes corporativos, exigindo a requalificação e a adaptação dos processos. Além disso, a gestão de equipas multigeracionais e o compliance regulatório são vistas como essenciais para manter a competitividade. Por fim, 72% das empresas já ajustaram estratégias para reforçar a resiliência operacional, com foco na eficiência, no talento e na tecnologia.

Todos estes temas são fundamentais para criar um ambiente seguro e promover o crescimento das empresas em Portugal, enquanto tornam as organizações cada vez mais resilientes e preparadas para agir rapidamente face às incertezas que ainda existem no contexto internacional.

O país está próximo do pleno emprego e com desemprego em mínimos, mas a expectativa é que o PIB continue a crescer e a atividade a expandir. Dado este contexto e a já visível falta de mão-de-obra em vários setores, como podem as empresas portuguesas tentar contrariar este desafio?

Com o desemprego em números mínimos e com a expectativa de expansão do PIB, 80% dos CEOs em Portugal consideram que a preparação e qualificação da força de trabalho relativamente ao IA terá um impacto na prosperidade das suas organizações. De igual modo, 56% dos CEOs em Portugal concordam que a concorrência pelo talento pode limitar o sucesso das suas organizações. Por estas razões é cada vez mais relevante que as empresas avaliem a capacidade de apostar no upskilling e na requalificação do seu talento, uma vez que a formação contínua é crítica para integrar novas tecnologias e compensar a escassez de perfis especializados. A automatização e a digitalização também assumem papeis centrais, já que a adoção de Inteligência Artificial e da automação pode reduzir a dependência de mão-de-obra em tarefas repetitivas, libertando recursos para funções de maior valor acrescentado para a organização.

Paralelamente, é essencial apostar na retenção de talento nacional. Continuam a sair de Portugal todos os anos cerca de 60 mil pessoas, muitas delas qualificadas e importa promover medidas, sejam fiscais ou outras, para que a atratividade das nossas empresas se sobreponha à das organizações internacionais. Neste campo, há ainda um outro ponto relevante que é a retenção de talento internacional. Neste momento, recebemos nas nossas universidades um grande número de estudantes estrangeiros, que, na sua maioria, após o término dos seus estudos regressam aos seus países. É necessário alterar este paradigma e procurar que eles possam ver Portugal não só como o país ideal para a sua vida académica, mas como o país ideal para iniciarem a sua vida profissional.