A União Europeia (EU) celebrou com a Índia, aquilo a que a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen apelidou nas redes sociais de “a mãe de todos os acordos”. Esta foi uma negociação que durou 18 anos. O acordo que eliminará 90% das tarifas mútuas aproxima os 27 países do bloco europeu do quarto maior Produto Interno Bruto (PIB) do mundo e de um mercado consumidor de 1,4 mil milhões de habitantes. Segundo a agência Brasil, a expetativa os europeus esperam vender duas vezes mais para a Índia até 2032, já que 96% das suas exportações beneficiarão das reduções tarifárias.
“Por sua vez, o país asiático estima que mais de 99% dos produtos que exporta terão entrada preferencial na UE, incluindo setores de mão de obra intensiva, como têxteis, vestuário, couro, calçados, produtos marinhos, joias, pedras preciosas, artesanato, bens de engenharia e automóveis”, revela a mesma fonte.
A aproximação entre a Europa e a Índia ocorreu num momento em que os Estados Unidos (EUA) aumentaram as tarifas, tendo os indianos sido um dos principais alvos das sobretaxas de Trump. No final de agosto de 2025, Trump aplicou tarifas de 50% sobre as exportações da para pressionar o país a deixar de comprar petróleo à Rússia.
A Índia decerto respirou de alívio ao firmar esta parceria com a Europa, afinal, “entre outubro e dezembro as exportações para os EUA caíram 50%. As empresas indianas estimavam já uma perda entre 5 e 6 milhões de dólares”, contabiliza o The Economic Times. Os EUA são o principal mercado da Índia no que respeita aos têxteis e os prejuízos já estavam a entrar neste mercado.
Um dos setores europeus que não ficou agradado com este acordo foi o da moda, vestuário e calçado, já que a Índia será mais um concorrente de peso a competir com a indústria europeia. “As projeções estimam que as exportações indianas de vestuário poderão crescer entre 20% e 25% ao ano após a entrada em vigor do acordo de livre comércio, em comparação com a taxa de crescimento atual de 3,01% no mercado da UE”, afirma o The Secretariat.
No entanto, o imprevisível aconteceu. O The Guardian acaba de noticiar que os EUA reduzirão as tarifas sobre a Índia após Nova Deli ter concordado em deixar de adquirir petróleo à Rússia, quando era o segundo maior comprador do país e passar a encomendar o ouro negro aos EUA e à Venezuela. Segundo o jornal inglês, Donald Trump anunciou o acordo nas suas redes sociais, após uma conversa telefónica com o seu homólogo indiano, Narendra Modi. Segundo um alto funcionário da Casa Branca que falou à Reuters citado pelo The Guardian, “o acordo alcançado entre os dois líderes elimina as tarifas punitivas de 25%. Além disso, “por amizade e respeito pelo primeiro-ministro, e a seu pedido, chegámos a um acordo comercial entre os Estados Unidos e a Índia, pelo qual imporemos uma tarifa recíproca reduzida, (que passará dos atuais) 25% para 18%”, anunciou Trump na sua mensagem.
E agora com Trump a renegociar as tarifas com a Índia, algo altera?
Será que esta reviravolta ajudará as empresas europeias a fazer face à invasão indiana no setor têxtil, ou será que a Índia aproveitará esta onda benéfica de acordos para crescer ainda mais? César Araújo, Presidente da Direção da Associação Nacional da Indústria de Vestuário (ANIVEC), admite que se a Índia exportar mais para os Estados Unidos a Europa terá menos pressão. Porém, considera que o problema da Europa persiste. “É necessário regular, controlar e fiscalizar”.
Luís Cristino, especialista no setor têxtil e em economia circular observa de forma bastante crítica e cética as políticas comerciais da Europa, afirmando que estamos a competir com armas desiguais. “A indústria têxtil da União Europeia entra neste acordo com custos de energia, trabalho e conformidade ambiental muito superiores aos dos seus concorrentes, ao mesmo tempo que enfrenta uma agenda regulatória densa, complexa e ainda em fase de assimilação pelas empresas.”
Uma opinião partilhada por César Araújo. “As indústrias europeias de moda, vestuário e calçado não conseguem competir com empresas altamente subsidiadas, que têm custos de energia muito mais baixos e salários mínimos de 170 euros”, afirma. Luís Cristino, conta que numa reunião com uma empresa de têxtil indiana que visitou Portugal, foi confrontado com a questão de qual a principal fonte de energia utilizada nas nossas fábricas. Respondeu gás natural. Ao que retorquiu que usavam carvão. “Isto mostra que há um desequilíbrio do custo energético e da sustentabilidade”, afirma o especialista do setor têxtil.
César Araújo está convicto de que se o acordo entre a UE e a Índia não for regulado e controlado teremos problemas. “Estamos na expetativa de ver o que acontecerá. Ainda não se sabe qual será o modelo. Porém, conhecendo o mecanismo europeu não tenho esperança que seja benéfico para as empresas do setor europeu”, lamenta, acrescentando que também deveria ficar estipulado o que a Índia nos compraria, como por exemplo fios, redes de pesca, roupa, entre outros. “Caso não exista esta salvaguarda, o acordo afastará, ainda mais, o mercado europeu de um verdadeiro level playing field”, considera. O presidente da ANIVEC compara este acordo a um ringue de boxe, em que a Europa compete em desvantagem, contra mais do que um adversário. “É um contra vários! Vamos lutar contra a Índia, a China, o Paquistão, entre outros. Assim é difícil vencer”, mas garante que o setor está preparado para enfrentar a concorrência. “Tem é de ser justa!”, termina.
O efeito dominó no corredor euro-asiático
Este acordo não mexe apenas com a relação UE–Índia. Redesenha todo o tabuleiro competitivo do setor têxtil no corredor euro-asiático. A Turquia é um exemplo claro. Atualmente, beneficia de acesso livre de direitos à UE para têxteis e vestuário, ao passo que a Índia pagava tarifas de 10–12%. Com o novo acordo, os produtos indianos passarão a entrar na União Europeia com tarifa zero, aproximando-se da posição turca e ganhando vantagem adicional através da escala e de custos de produção mais baixos.
“Por força da União Aduaneira UE–Turquia, Ancara é obrigada a alinhar os cortes tarifários decididos em Bruxelas, sem direito automático ao mesmo tratamento por parte da Índia. O resultado é uma assimetria estrutural: a Turquia torna-se tomadora de decisões em política comercial europeia, suportando os custos sem estar verdadeiramente sentada à mesa”, explica Luís Cristino, advertindo ainda que perante a ameaça decerto que vai combater pelo preço, assim como investir na maquinaria. “A Turquia já está a colocar máquinas do setor têxtil na Europa, competindo com os alemães, mas a metade do preço”.
Até agora, Bangladesh e Paquistão, eram beneficiários de regimes preferenciais no mercado europeu, conseguiam compensar os custos internos de produção mais elevada, agora veem-se também subitamente ultrapassados. “O acordo corrige a desvantagem tarifária indiana e desloca quotas de mercado, cadeias de fornecimento e empregos em todo o Sul da Ásia. Mais uma prova de que os têxteis continuam a ser uma das moedas de troca centrais da diplomacia comercial global”, defende Luís Cristino.
E Portugal, onde fica?
Se até a Turquia, com uma escala industrial e proximidade geográfica, se sente encostada à parede, o que se poderá dizer de uma indústria portuguesa baseada em valor acrescentado, rapidez e nichos, mas exposta a uma guerra de preços em que não controla as regras? Para Luís Cristino, cada grande acordo comercial que inclui os têxteis como ficha negocial, sem um verdadeiro teste de stress às condições de concorrência, transfere risco diretamente para as PME portuguesas — silenciosamente, contrato a contrato, estação a estação. Na opinião do especialista em sustentabilidade, sem regras de origem bem escrutinadas, exigências ambientais e sociais simétricas e instrumentos concretos de ajustamento e reconversão industrial, “não se trata de abertura de mercados. Estamos a falar de redistribuição de vulnerabilidades. Quando Bruxelas celebra acordos históricos, as fábricas em Portugal fazem contas à vida.”