Há três anos, em Lisboa, Mary Lou McDonald, presidente do Sinn Féin, apontava esta como a década em que poderia concretizar-se a reunificação irlandesa. Quando faltam dois anos para o trigésimo aniversário do acordo que pacificou a ilha, defendia que esse passo exigiria preparação democrática nos domínios da saúde, da educação, da economia, do mercado laboral e das garantias à população unionista.
A perspetiva de uma Irlanda unida ganhou força, sobretudo depois do Brexit. Mas a convocação de um referendo não está nas mãos do chefe do Governo da Irlanda do Norte. Cabe ao secretário de Estado britânico para a Irlanda do Norte ordenar a consulta se considerar provável que a maioria apoie a saída do Reino Unido e a integração numa Irlanda unida. A lei não estabelece critérios objetivos para essa avaliação.
A possibilidade está inscrita no Acordo da Sexta-Feira Santa, ou Acordo de Belfast, que, em 1998, criou a arquitetura política que encerrou a fase principal de três décadas de conflito. The Troubles opuseram nacionalistas e republicanos, maioritariamente católicos, a unionistas e lealistas, maioritariamente protestantes.
Fundado em 1905, o Sinn Féin — “nós próprios” — tem aumentado a pressão sobre o Governo do taoiseach, Micheál Martin, para que prepare uma eventual alteração constitucional. Em Dublin, é uma das principais forças da oposição. Na Irlanda do Norte, Michelle O’Neill, do Sinn Féin, é primeira-ministra, e Emma Little-Pengelly, do Partido Unionista Democrático (DUP), vice-primeira-ministra. Os dois cargos têm poderes conjuntos e equivalentes.
Em 16 de junho, Mary Lou McDonald apresentou ao Dáil Éireann, a câmara baixa do Parlamento irlandês, o Planning for Constitutional Change Bill 2026. O projeto previa um Livro Verde, uma assembleia de cidadãos e consultas públicas. “À medida que nos aproximamos do trigésimo aniversário do Acordo da Sexta-Feira Santa, em 2028, é importante reconhecer a dimensão da transformação que ocorreu em toda a Irlanda ao longo das últimas três décadas. Hoje, a paz está assegurada e o próximo capítulo da trajetória política desta ilha centra-se na reforma constitucional”, defendeu.
A iniciativa foi rejeitada, em 8 de julho, por 79 votos contra e 69 a favor. O tema não saiu da agenda, mas o resultado mostrou que não existe consenso em Dublin sobre o calendário, o modelo de preparação ou o papel do Governo antes de Londres considerar preenchidas as condições para um referendo.
Irlanda Uma ilha com duas histórias
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A ideia de unificação da Irlanda está prevista há 30 anos, desde os acordos que trouxeram a paz à ilha. Mas ainda não há uma vontade evidente para que isso aconteça. Talvez não seja, ainda, esta década. Até porque requer preparação aturada. Porque ainda há muito que divide os irlandeses. São duas irlandas.