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Fábrica de baterias de lítio em Sines de gigante chinês poderá estar em risco

O projeto de construção de uma mega fábrica de baterias de lítio do grupo chinês CALB, que deverá representar 4 por cento do PIB em 2028, está a ser reequacionado, sabe o JE.

O projeto de construção de uma mega fábrica de baterias de lítio do grupo chinês CALB em Sines está a ser reequacionado, apurou o Jornal Económico.

Vários motivos estarão a contribuir para esta reavaliação. Por um lado, de acordo com fontes diplomáticas, a decisão de afastar a Huawei das redes 5G nacionais está a fazer com que vários investimentos chineses em Portugal sejam repensados, seja por retaliação, seja por perda de confiança no país.

Por outro, o grupo China Aviation Lithium Battery Technology (CALB) está a ter problemas na própria China, tendo recentemente voltado atrás na decisão de contratar dois mil licenciados, num volte face que colocou em causa a sua imagem pública num país que tem como desafio colocar no mercado de trabalho uns estonteantes dez milhões de jovens licenciados por ano.

O Jornal Económico tentou obter esclarecimentos do grupo CALB, mas até ao momento não obteve resposta.

Ao que foi possível apurar, não houve desenvolvimentos significativos nas parcerias que o grupo CALB formalizou com empresas portuguesas aquando da assinatura do memorando de entendimento para a construção da fábrica, em novembro último.

Porém, de acordo com as mesmas fontes, a parte chinesa ainda não notificou o governo português sobre uma eventual decisão de suspender o projeto, que foi apresentado no ano passado pelo ministro da Economia, António Costa e Silva, como um passo decisivo para a instalação em Portugal de um cluster da mobilidade elétrica. E o AICEP garantiu ao Jornal Económico, através de fonte oficial, que o projeto permanece "ativo", mas sem dar mais pormenores sobre o avanço real do mesmo, além do que já foi noticiado.

O projeto da terceira maior fabricante chinesa de baterias para carros elétricos entrou em processo de licenciamento ambiental em fevereiro. A fábrica estará situada na Zona Industrial e Logística de Sines, gerida pela AICEP Global Parques, ocupando uma superfície de 100 hectares. O início da produção está previsto para 2025, com uma capacidade de 15GWh. No final do ano passado, um responsável da empresa disse à agência Lusa que, em velocidade de cruzeiro, entre 2028 e 2030, a fábrica deverá representar cerca de 4% do PIB português, superando assim o contributo da Autoeuropa, da Volkswagen.

“Um dos grandes investimentos é de uma grande empresa internacional na área das baterias que quer sediar em Sines a fabricação das baterias. (...) Se isto acontecer, com todo o trabalho que estamos a fazer, com a Volkswagen, a Stellantis, a Mercedes e outras marcas, queremos ser um país que esteja à frente na mobilidade eléctrica. São negociações complexas, mas nós estamos a avançar”, disse o ministro durante uma audição no Parlamento, em novembro.

Na altura, a CALB revelou ter assinado um memorando de entendimento com a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) para a construção em Sines de uma "fábrica de ponta mundial, altamente inteligente, informatizada e automatizada, com zero emissões de carbono".

Porém, na mesma comunicação, que teve lugar na recta final do seu processo de entrada em bolsa na praça de Hong Kong, a empresa chinesa deixou a ressalva de que o acordo em causa não era ainda legalmente vinculativo, pelo que o projeto poderia avançar ou não.

O Jornal Económico tentou obter esclarecimentos junto do Ministério da Economia, mas até ao momento não foi possível obter mais pormenores junto de fontes oficiais.

Retaliação e perda de confiança?

As fontes ouvidas pelo Jornal Económico consideram que, a ocorrer, a suspensão de alguns investimentos chineses em Portugal será apresentada como uma decisão das próprias empresas e não do governo de Xi Jinping, apesar da influência significativa que este exerce sobre as mesmas.

A suspensão poderá explicar-se por uma eventual retaliação pela decisão relativa à Huawei, mas também pelo receio que algumas empresas chinesas terão de passarem por uma situação idêntica, numa altura em que outros países europeus, como Itália, têm levantado entraves à presença de capitais chineses em sectores considerados estratégicos. No passado dia 17, o governo de Roma confirmou que vai intervir na Pirelli para limitar o acesso do acionista chinês CNRC à tecnologia dos sensores dos seus pneus.

A decisão de afastar a Huawei das redes de 5G nacionais, divulgada em primeira mão pelo Jornal Económico a dia 25 de maio, causou um pequeno terramoto nas relações entre Portugal e a China, por contrariar várias declarações de responsáveis políticos portugueses nos últimos anos e, por essa via, ter apanhado Pequim de surpresa. O Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês demorou vários dias a reagir publicamente ao anúncio, tendo enviado uma nota à Lusa, a 8 de junho último, a referir que espera que "o lado português faça escolhas políticas racionais de forma autónoma e adira à criação de um ambiente de negócios aberto, justo e não discriminatório”.

A questão da CALB, “ou qualquer outra que venha a suceder”, inscrevem-se em claras medidas de retaliação face ao que sucedeu com a expulsão da Huawei do sistema do 5G nacional, disseram ao Jornal Económico o major-general Carlos Branco e o embaixador Francisco Seixas da Costa.
 
“Será uma retaliação que não só é esperada como é compreensível”, disse Carlos Branco, para quem – com certeza – as medidas retaliatórias “não vão ficar por aqui”. Aliás, recordou, essa retaliação tem um vasto caminho a percorrer, explicou, não só porque as relações entre Portugal e a China são antigas, “reforçaram-se num momento difícil para nós, na altura da troika” e cruzam-se em diversas geografias “como por exemplo em África e não apenas nos países da CPLP”.
 
Para Carlos Branco, subsiste ainda a questão de Macau. “Estamos a fazer tábua rasa de séculos de relações”. “Vamos ver o que vai acontecer a Macau, ao Fórum Macau e a tudo o que ali está envolvido”. E recordou que “os chineses têm projetos no âmbito dos países de língua portuguesa. Na Universidade de Macau há uma cátedra (ou o que se lhe possa chamar) sobre a China e os países de língua portuguesa”. Ou seja, são relações que não podem ser colocadas em causa por uma decisão do Conselho Nacional de Segurança do Ciberespaço relativa à Huawei – e a todas as oriundas da China. O que, na ótica de Carlos Branco foi feito – e com requintes de ‘malvadez’: “o vice-presidente da China, Han Zheng, esteve em Portugal poucos dias antes da decisão, reuniu com António Costa e ninguém lhe disse nada”.
 
Para Seixas da Costa, a decisão da CALB é evidentemente “uma retaliação” que só não foi antecipada porque não se quis. Isto apesar de o analista político considerar que a decisão tomada pelo Conselho de Segurança Nacional “está inscrita num quadro mais vasto de uma decisão semelhante no quadro europeu”.

Vale a pena recordar que o Reino Unido foi o primeiro país europeu a deixar de lado a Huawei no 5G (no final de 2020). Pouco depois, em fevereiro de 2021, o Comité de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Comuns publicava um relatório destacando que o processo de implantação da tecnologia ficou mais caro e atrasado pela decisão do governo de remover a Huawei por causa de preocupações com a segurança e sanções dos Estados Unidos.