O Banco de Portugal revelou esta quarta-feira que o crescimento acumulado das exportações de material com fins militares subiu 77% em termos nominais entre 2022 e 2025. Apesar de ainda não contarem muito para as exportações nacionais, este tipo de produtos tem tido um crescimento "superior ao total", nomeadamente desde que a Rússia invadiu a Ucrânia.
Em 2024 e 2025, "o peso do conjunto de bens considerado como tendo utilização militar no total das exportações de bens foi inferior a 1%", afirma o Banco de Portugal num segmento do boletim de março, embora sinalize que "uma classificação mais lata destes bens, incluindo alguns bens dos setores automóvel e de vestuário e calçado, pudesse mais do que duplicar esse peso".
A autoridade estatística afirma que "é muito difícil apurar com precisão os valores comercializados correspondentes a material militar", uma vez que "em muitos casos a sua utilização é dual, ou seja, bens classificados numa mesma nomenclatura detalhada do comércio internacional podem ter utilização militar ou civil".
A dificultar a análise estão ainda a forte regulação de acordos internacionais, "relacionados com embargos e sanções", que "obedece frequentemente a autorizações das autoridades nacionais", mas também "os padrões irregulares de encomendas, particularmente do lado das importações".
Drones representam 21% do material militar exportado
O Banco de Portugal classifica os produtos para utilização militar em cinco categorias, com a maior fatia a corresponder a "armas de fogo e suas componentes" — cerca de metade do total (46,3%) —, seguidas de equipamento de proteção pessoal, que representam "aproximadamente um terço" (29,8%).
A entidade liderada por Álvaro Santos Pereira destaca ainda "o crescimento muito rápido das exportações de aeronaves não tripuladas, que eram inexistentes em 2021" mas que subiram para 7,5% das exportações com fins militares em 2023, 18,1% em 2024 e 21,3% em 2025.
Só para a Ucrânia, Portugal exportou 87,3 milhões de euro em drones no ano passado, um crescimento de 164,5% face aos 33 milhões do ano anterior. Como o Jornal Económico noticiou no início deste mês, estes bens enviados para Kiev superaram sozinhos, pela primeira vez, todas as vendas para a Rússia.
Entre as categorias consideradas, há ainda a registar, com peso residual, "veículos blindados e navios" e as munições, mas o supervisor explica que "esta classificação deixa de fora outros bens com potencial utilização militar — por exemplo, produtos do setor têxtil e do calçado que podem constituir-se como uniformes militares — e, em menor grau, poderá incluir bens que não têm essa utilização".
Os Estados Unidos foram o maior destino deste tipo de exportações, com um peso de 40,5%, em média, entre 2021 e 2025. São seguidos por Bélgica e França, ambos com pesos médios a rondar os 14% no mesmo período, e Espanha (6,8%). Apesar da crescente exportação de drones para Kiev, a Ucrânia ainda teve um peso de 5,1% nestes quatro anos, embora tenha representado já "perto de 12% em 2025".
O Banco de Portugal nota ainda que o número de exportadoras deste tipo de material "tem registado um aumento nos últimos anos, após uma redução marcada no período 2015–2016", sendo que "cerca de um terço apresenta uma participação de capital estrangeiro superior a 10%" do total das respetivas empresas. A grande maioria, mais de 90%, tem produção regular e para os mesmos destinos, mas a entidade liderada por Álvaro Santos Pereira também dá conta de uma maior dinâmica das vendas "para novos mercados ou de novos produtos" desde o início da guerra da Ucrânia.
Estes produtos "não são dominantes no portfólio de exportações da maior parte das empresas identificadas", mas, ressalva ainda, "terão ganho peso no valor total das exportações no período mais recente".