As tensões entre Estados Unidos e Europa devem continuar na ordem do dia. Apesar do acordo entre União Europeia com Índia e Mercosul ser positivo este não deve compensar, pelo menos no curto prazo, a influência mercado norte-americano. Quanto ao dólar este deve continuar a desvalorizar mas não deve perder a sua posição enquanto moeda de referência mundial. Estas foram algumas das conclusões do economista-chefe da Coface, Bruno de Moura Fernandes, responsável em entrevista ao Jornal Económico (JE).
A Coface lançou na sexta-feira a sua análise anual de risco político e social, e considera que 2026 deve ser um ano de "elevada volatilidade global", com "impactos diretos" nas empresas, no comércio internacional e nas decisões de investimento.
Em entrevista ao JE, Bruno de Moura aborda vários temas que têm estado na ordem do dia. Desde as relações comerciais entre Estados Unidos, China, e bloco europeu, à guerra na Ucrânia, ao dólar, e aos acordos comerciais fechados entre União Europeia, Índia e Mercosul.
Relativamente à relação entre europeus e norte-americanos, Bruno prevê que as "tensões devem continuar". O economista-chefe da Coface assinala que a política internacional norte-americana "é imprevisível" embora ressalve que, no campo comercial, os Estados Unidos e o seu Presidente norte-americano, Donald Trump, têm a convicção que "as tarifas funcionam".
Bruno de Moura lembrou que o modus operandi norte-americano tem passado pela ameaça tarifárias a vários parceiros comerciais. Um exemplo foi a ameaça tarifária contra França quando o país não quais entrar no Conselho de Paz, sugerido pelos norte-americanos. E uma das vítimas foi o vinho francês. "Quando temos uma complicação ele [Donald Trump] ameaça com tarifas", refere Bruno de Moura
Tema da Gronelândia deve continuar e pressão sobre Américas
Bruno de Mora acredita que o tema da Gronelândia deve também continuar. As Américas devem ser também outro assunto de relevo na gestão política norte-americana. Aqui surgem áreas como a Venezuela. Relembre-se que os Estados Unidos realizam uma operação, em território venezuelano, que levou à captura do Presidente, Nicolás Maduro. Bruno de Moura lembra ainda que os Estados Unidos lançaram também ameaças a outros países tais como a Colômbia, o México e Cuba. A isto junta-se as eleições no Brasil que Bruno de Moura considera poder vir a ser um "tema importante".
Bruno de Moura considera que os Estados Unidos "querem controlar" as matérias primas que estão no continente [Américas] e evitar que a China tenha acesso a esses áreas.
Rivalidade entre Estados Unidos e China deve continuar
Abordando as relações entre Estados Unidos e China, Bruno de Moura acredita que a rivalidade entre os dois países devem continuar. "A rivalidade não é de agora", assinala. O economista-chefe da Coface lembra que Donald Trump, no seu primeiro mandato presidencial "já tinha tido tarifas", algo que continuou com Joe Biden.
"Isto mostra bem que há um acordo, que há um consenso, entre os dois partidos [Democrata e Republicano], que a China é rival", diz Bruno de Moura, e que é preciso ter cuidado com questões como a da segurança.
Sobre se vai existir um "agravamento" da tensão entre Estados Unidos e China, Bruno considera que isso é "difícil de dizer", sublinhando que os dois países têm um encontro previsto para abril. "Antes disso é difícil saber se vão subir as tensões ou não", sublinha o economista-chefe da Coface.
"Os Estados Unidos querem ser o mais independentes possíveis face à China. Ao mesmo tempo a China tem um poder de negociação muito forte. Eles [China] têm uma posição muito forte nas terras raras", assinala Bruno de Moura, que assinala que apesar da União Europeia ter a sua força "não tem esse poder de negociação" que a China possui face aos Estados Unidos.
"Com a China, Donald Trump vai querer a longo prazo ser mais independente, e retirar a influência da China em muitos países. E não sabemos muito bem como a China vai reagir", considera Bruno.
Acordos com Mercosul e Índia são positivos mas não substituem mercado norte-americano
Relativamente aos acordos comerciais estabelecidos pela União Europeia com o Mercosul e com a Índia, Buno de Moura salienta que estes são simbólicos e passam o sinal de que a União Europeia, tal como os Estados Unidos e a China, também são "capazes" de fazer acordos, além de passar o sinal de que numa fase em que os Estados Unidos estão mais protecionistas a União Europeia encontra-se aberta [em termos comerciais].
Apesar disso Bruno de Moura considera que é preciso ter noção que a curto prazo, os acordos estabelecidos entre a União Europeia, com Mercosul e Índia, estes "não substituem" o mercado norte-americano. Apesar de Bruno de Moura referir que os acordos com a Mercosul e a Índia dão "possibilidades" e trazem "potencial" à União Europeia "falta muito tempo" para representarem uma "alternativa" ao mercado norte-americano.
Bruno de Moura lembra que União Europeia vai enfrentar a concorrência chinesa no Mercosul, lembrando a importação de produtos chineses que existe na América Latina. "A China já está lá há muito tempo [no Mercosul]", refere o economista-chefe da Coface. Bruno de Moura entende que "vai ser difícil" ganhar quota de mercado no Mercosul face à competitividade da China.
Relativamente ao conflito entre Ucrânia e Rússia, Bruno de Moura salienta que a guerra lembrou a Europa sobre a necessidade de "investir mais" na defesa militar. "Isso vai pesar nos orçamentos. Tínhamos a noção de que tínhamos de investir mais no problema demográfico, na transição ecológica, e com a guerra [Rússia-Ucrânia] descobrimos que temos um terceiro problema o de que é preciso investir na defesa".
Dólar deve continuar a desvalorizar
Bruno de Moura acredita também que vamos continuar a ver a depreciação do dólar, face a várias moedas. O economista-chefe da Coface salienta que a Reserva Federal norte-americana (Fed) "deve baixar" as taxas de juro uma ou duas vezes. "Isso faz pressão à depreciação [do dólar]", refere.
Bruno de Moura sublinha que existem muitas razões para a depreciação do dólar, como por exemplo os ataques à independência da Fed, a imprevisibilidade da política norte-americana, e o chamado debasement trade (movimentação de cautal para fora de ativos como moedas e títulos de rendimento fixo, como por exemplo as obrigações). "As pessoas já confiam um pouco menos nos Estados Unidos. As pessoas já perceberam que a política fiscal norte-americana vai continuar a ser muito expansionista nos próximos anos. No Japão vai-se gastar mais. As pressões para a depreciação do dólar vão continuar. Algumas já foram precificadas. [O dólar] pode depreciar um pouco mais mas não muito mais", defende o economista-chefe da Coface.
Apesar da desvalorização que tem existido no dólar Bruno de Moura considera que "é difícil" o dólar perder o seu posto de referência [como moeda]. "O euro tem 20 anos e a evolução não foi significativa. Não há mercado tão líquido e abundante como o dólar e a divida norte-americana", refere o economista-chefe da Coface.
"Não vemos outra moeda que tenha capacidade de substituir o dólar", salienta Bruno de Moura, que salienta que mais depressa ativos como o ouro podem desempenhar esse papel do que algumas moedas. "O yuan (moeda chinesa) está a ser mais utilizado pelos países emergentes. Mas não sei se é mais simbólico mas eu diria que para chegar ao nível do dólar falta muito. Não vemos para já aquele potencial para essa evolução [substituir o dólar]", refere Bruno de Moura.
Relativamente às obrigações das principais potências mundiais, como por exemplo Estados Unidos, França, Alemanha, Japão, o economista-chefe da Coface considera que a tendência pode passar por termos taxas de juro mais altas de longo prazo.
"As principais economias do mundo estão a gastar mais. Isto faz com que as taxas de juro a longo prazo subam", sublinha.