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Portugal à luz das velas: mercado nacional lento diante do boom internacional

O mercado mundial de velas projeta um crescimento consistente, estimado em 11,2 mil milhões de euros até 2030, impulsionado por produtos de gama alta e pelo consumo online. Em Portugal, porém, o setor continua pequeno e estável, com uma faturação projetada de cerca de 8,9 milhões de euros para 2030, refletindo um consumo moderado e concentrado sobretudo em velas decorativas e aromáticas.

Num século em que um simples interruptor ilumina uma casa, são as velas que resgatam a magia de criar momentos íntimos. Já não são utilizadas apenas para cerimónias ou para iluminar durante falhas de eletricidade; atualmente são símbolos de bem-estar. Este fenómeno global não é apenas social, mas também económico, como confirmam os números.

Segundo um estudo da Arizton Advisory and Intelligence, o mercado global de velas, avaliado em cerca de 8,88 mil milhões de euros em 2024, deverá atingir aproximadamente 11,21 mil milhões de euros até 2030. Nesse período, as expedições globais deverão chegar a 4,55 milhões de toneladas, com um crescimento anual composto (CAGR) estimado em 3,96%. O impulso vem da procura por velas premium, fragrâncias naturais, compras online e pela expansão do consumo nos mercados da região da Ásia-Pacífico.

Sustentabilidade à luz da chama

O setor distingue-se sobretudo pelo tipo de cera e pela aplicação das velas. A cera mineral ou de parafina predomina devido à sua acessibilidade, tendo sido produzidas cerca de 2,6 mil milhões de unidades em 2024. As ceras vegetais, de soja, palma e coco, somam mais de 1,2 mil milhões de unidades, com a soja na liderança. A cera animal, sobretudo a de abelha, representa 180 milhões de unidades, estando presente principalmente em produtos de gama alta e artesanais. As ceras sintéticas e os polímeros são típicos de produtos de nicho, com cerca de 160 milhões de unidades. Quanto à aplicação, em 2024 o uso tradicional, destinado à iluminação e a cerimónias, totalizou 1,3 mil milhões de unidades, enquanto o segmento artesanal, de cariz decorativo e estético, foi dominante, com 2,9 mil milhões de unidades.

Os consumidores mostram cada vez maior preferência por velas produzidas com ceras naturais, como a de soja, de coco ou de cera de abelha, em detrimento da parafina. Esta mudança reflete não só uma preocupação ambiental, mas também a procura de produtos mais saudáveis e sustentáveis. Marcas como a Yankee Candle e a Paddywax apresentam coleções premium com estas ceras, ao passo que retalhistas como a IKEA e a Target promovem velas com uma combustão mais limpa. Em 2024, foram produzidas mais de 1,1 mil milhões de velas com ceras naturais ou renováveis.

O segmento wellness como motor de crescimento

O segmento do bem-estar é outro motor do mercado. As velas aromáticas tornaram-se parte de rituais de relaxamento, meditação e sono, com fragrâncias como lavanda e camomila ga ganhar popularidade entre consumidores mais jovens. Plataformas sociais e eventos de bem-estar reforçam o papel das velas no dia a dia, tornando-as não apenas objetos decorativos, mas aliados do equilíbrio emocional.

A tradição de oferecer velas como presente continua forte, sobretudo em ocasiões festivas, empresariais ou comemorativas. Nos Estados Unidos, as vendas sazonais impulsionam a comercialização de conjuntos de velas, enquanto na Índia, festivais como o Diwali reforçam a importância de velas decorativas e aromáticas. Marcas posicionam as velas como itens acessíveis, mas sofisticados, para um público que valoriza estilo e bem-estar.

Em 2024, as velas perfumadas dominaram o mercado, representando cerca de 47% do total. A sua versatilidade enquanto elemento decorativo e aromático tornou-as particularmente populares nos mercados urbanos e desenvolvidos, reforçando a ligação entre estética e bem-estar. A região da Ásia-Pacífico é atualmente o maior mercado global de velas, respondendo por aproximadamente 38% do total, impulsionada por rendimentos crescentes, estilos de vida voltados para o bem-estar e festivais culturais. A América do Norte e a Europa representam quase 46% das receitas globais, refletindo mercados maduros com consumidores habituados a produtos premium e de decoração doméstica.

Mercado de velas em Portugal: pequeno, mas resiliente

Em Portugal, o mercado das velas — incluindo decorativas, aromáticas e tradicionais — mantém-se modesto em termos de faturação, mas com características próprias no âmbito da decoração de interiores. Segundo a Statista Market Insights, a receita estimada para 2025 é de cerca de 8,6 milhões de euros. O crescimento anual projetado para o período de 2025 a 2030 é moderado, com uma CAGR de apenas 0,70%, prevendo-se uma ligeira expansão de até  8,9 milhões de euros. Este padrão reflete a natureza estável, mas não explosiva, do consumo de velas em Portugal, em contraste com mercados maiores, como o norte-americano ou outros países europeus, onde a utilização decorativa e para o bem-estar é mais intensa.

O número de consumidores ativos no país é relativamente reduzido, estimando-se que haja cerca 477 mil pessoas até 2030, o que corresponde a uma taxa de penetração de utilizadores de 4,8% em 2025 e de 4,9% em 2030. O valor médio da receita por utilizador em 2025 será cerca de 20 euros por ano, o que mostra que a maior parte das compras ocorre em volumes baixos, tipicamente velas para uso doméstico ou como presente ocasional.

Relatórios internacionais indicam que o consumo de velas e velas longas em Portugal tem vindo a aumentar em volume nos últimos anos, com  crescimento significativo no consumo físico em toneladas e no valor total de mercado (incluindo produção e importação) que poderá ter ultrapassado os 90 milhões de dólares em 2022, o que equivale a cerca de 84 milhões de euros, segundo a IndexBox. Estes números abrangem toda a cadeia até o consumidor final, não apenas o comércio online.

Do ponto de vista cultural, as velas em Portugal continuam associadas a tradições festivas, usos decorativos e eventos sazonais, sustentando um mercado resiliente, apesar da sua reduzida dimensão económica. No conjunto, o setor representa uma oportunidade estável para produtores locais e artesãos, embora a concorrência seja intensa e dominada por produtos importados e marcas internacionais. Num mundo cada vez mais acelerado, a luz de uma vela continua a encantar, oferecendo momentos de pausa e transformando espaços e rotinas numa experiência sensorial completa.