Skip to main content

Do PER ao Nasdaq, como a Tearfil conquistou a Spinnova

Trocou a medicina pelo têxtil. A história de uma mulher que sobreviveu a sete anos de tempestades. Agora, está quase a passar o legado da empresa de fiação a uma cotada finlandesa.

Maria de Belém Machado nasceu numa família de industriais, mas escolheu um rumo diferente. Medicina. “Se há algo que adorei na minha vida foi ter sido médica. Tirei o curso dos meus sonhos”, conta, mas a indústria fê-la regressar às origens. Há 25 anos entrou na empresa do pai, a Fifitex. Mais tarde, em 2019, comprou a Tearfil, empresa portuguesa de fiação, fundada em 1973, em Guimarães, mas não revelou por quanto. Na altura, não imaginava a teia em que se metera. Atravessou uma sucessão de crises. “Covid, guerra na Ucrânia. Problemas energéticos e inflação”, enumera ao JE.
Sete anos depois, a mulher que entrou na fábrica para a recuperar prepara-se para sair. Não porque tenha baixado os braços, mas porque quer fechar um ciclo. “Tenho 70 anos. Não tenho sucessor e quero ver a empresa florescer.”
A Tearfil atravessou momentos em que a falta de liquidez ameaçou parar a atividade. Em agosto deste ano entrou num Processo Especial de Revitalização (PER) e precisou de reorganizar a estrutura. Mas a fábrica ficou de pé. E ficaram as pessoas, o conhecimento e a relação com uma empresa finlandesa que começou muito antes de se falar numa aquisição.
Em 2024, a Spinnova instalou na fábrica portuguesa uma linha de fiação de investigação e desenvolvimento para trabalhar a transformação da fibra SPINNOVA em fio. A parceria permitiu testar misturas, desenvolver fios e aproximar uma tecnologia de materiais de uma realidade industrial. Foi essa proximidade que acabou por abrir a porta ao negócio.
A CEO conta que foi ela própria quem perguntou à Spinnova se estaria interessada em comprar a Tearfil. “Já estão cá dentro. Há conhecimento partilhado e pessoas a trabalhar connosco”, explica. Inclusive, em janeiro deste ano, já tinham reforçado a parceria, com um acordo para assegurar o acesso da empresa finlandesa a volumes de fibra e para desenvolver misturas destinadas ao mercado europeu. Agora, a parceria pode transformar-se numa aquisição.
Para Maria de Belém, há algo mais importante do que o valor financeiro da operação: saber quem fica com a fábrica. A Tearfil não é apenas um conjunto de máquinas, edifícios e contas. São 140 pessoas e um conhecimento industrial acumulado ao longo de décadas. É esse conhecimento que Luís Cristino, profissional com mais de duas décadas de experiência na indústria têxtil, considera uma das forças menos visíveis do setor. “Portugal tem uma capacidade industrial que permite às novas tecnologias passar da ideia à fábrica e da fábrica ao mercado. A própria Tearfil é um exemplo dessa combinação: uma fiação tradicional que se tornou espaço de experimentação para uma nova geração de fibras”, diz.
A Spinnova não procura apenas uma fábrica. Procura encurtar o caminho entre a fibra que desenvolve na Finlândia e o produto que chega às marcas. E a compradora está, ela própria, a entrar numa nova fase. Já está cotada na Nasdaq First North Growth Market Finland, mas apresentou o pedido para listar os seus valores mobiliários no Nasdaq Capital Market, nos Estados Unidos. A empresa prevê realizar a oferta pública inicial nos EUA em setembro ou outubro, embora a operação ainda esteja dependente da aprovação do Nasdaq e de outras condições. A oferta deverá procurar captar pelo menos 15 milhões de dólares, cerca de 13 milhões de euros, para financiar a expansão da unidade de demonstração, a comercialização da tecnologia e necessidades gerais da empresa.
É uma coincidência quase cinematográfica. Enquanto Maria de Belém fecha o ciclo português da sua vida empresarial, a empresa que pode ficar com a Tearfil prepara-se para abrir uma janela para o mercado de capitais norte-americano.
Porém, algo torna a despedida mais fácil. “Se vir a Tearfil com sucesso e muitos clientes... isso dar-me-à alegria, mas vou sentir saudades”, confessa emocionada.

Este conteúdo é exclusivo para assinantes, faça login ou subscreva o Jornal Económico