Em janeiro de 2021, a China criou, através do Ministério do Comércio, legislação que permitisse ao país combater as consequências das sanções lançadas internacionalmente a partir dos Estados Unidos. Era o chamado ‘Estatuto de bloqueio’ ou “Regras para combater a aplicação extraterritorial injustificada de legislação estrangeira e outras medidas”, na designação particular chinesa. Na altura, era apenas um mecanismo de defesa face a sanções unilaterais lançadas pelos Estados Unidos – o que a Casa Branca faz com frequência e à margem das Nações Unidas e do Conselho de Segurança.
Mas as sanções lançadas sobre o Irão e sobre os países que mantenham negócios com Teerão em volta do petróleo levaram Pequim a ‘acordar’ essas sanções e a impor as suas regras às empresas locais. A partir do passado mês de abril, o Ministério do Comércio chinês emitiu ordens que proíbem as empresas chinesas de obedecer às sanções dos Estados Unidos relacionadas com petróleo iraniano. Estas empresas ficam assim no meio de um difícil dilema: obedecem aos Estados Unidos e violam a lei chinesa, ou obedecem à China e sofrem sanções norte-americanas? Mas o dilema resolve-se depressa: nenhuma empresa chinesa corre o risco de violar as determinações do Estado, sob pena de o seu futuro ficar hipotecado. Dito de outra forma: nesta guerra ‘surda’, os Estados Unidos perderam a parada.
Perante duas jurisdições soberanas em conflito, bancos, seguradoras, traders e empresas industriais globais estão um pouco perdidas. Mas esse é o grande trunfo da China: conseguiu lançar a dúvida nos mercados globais, o que sucede pela primeira vez desde que o dólar passou a ser a ‘moeda corrente’ na economia global, a partir dos Acordos de Bretton Woods, em 1944. Donald Trump quis acabar com os resquícios desse tempo, nomeadamente dinamitando 80 anos de aliança atlântica; pois bem, dizem os analistas, uma das consequências dessa tomada de posição é a degradação da confiança no dólar – que é tudo o que a Casa Branca não quer.
China ativa ‘Estatuto de Bloqueio’ e prepara guerra contra o dólar
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Vários países, principalmente os BRICS, querem mover-se para fora da zona de influência do dólar. O encerramento do Estreito de Ormuz transformou isso numa urgência.