Giorgio Pradelli é o Chief Executive Officer (CEO) do banco suíço de gestão de fortunas, EFG International, que em Portugal está presente através de uma sucursal. O CEO do EFG veio a Portugal e foi entrevistado pelo Jornal Económico, numa altura em que a guerra no Médio Oriente afeta países como os Emirados Árabes Unidos que eram líderes no destino das fortunas dos ultra-ricos.
O EFG International é um dos 10 maiores bancos privados suíços, tem 185 mil milhões de dólares de ativos sob gestão. É um banco que tem como maior acionista uma família empresarial grega com raízes no setor do transporte marítimo.
O que distingue a EFG dos outros grandes bancos de gestão de patrimónios é o facto de ser um banco privado criado nos anos 80 do século XX. Na lista dos seus concorrentes históricos estão gigantes como a UBS (criada em 1912), a Julius Baer (1890) ou a ainda mais antiga Pictet (1805).
O EFG chegou a Portugal em 2019, em plena crise da pandemia, e tem à frente da sucursal portuguesa Bernardo Meyrelles. O EFG Portugal acumulou mais de mil milhões de euros em ativos sob gestão em menos de meia década. Bernardo Meyrelles responde sobre a operação em Portugal.
"Portugal é o sétimo destino para onde milionários de todo o mundo têm migrado, segundo um relatório da Henley & Partners. Este ranking é liderado pelo Dubai (EAU) e, obviamente, agora a situação é novamente diferente [devido à guerra no Médio Oriente]. Em segundo lugar estão os Estados Unidos, seguidos de Itália, Suíça, Arábia Saudita e Singapura"
O EFG é um grupo internacional que oferece serviços de private banking e gestão de ativos. É um banco suíço de gestão de património. A sua sede fica em Zurique e opera em mais de 40 localizações em todo o mundo. Um desses países é Portugal. Quais são os principais objetivos do EFG para Portugal?
Apresentámos a nossa estratégia para 2028 no final de novembro. Uma das tendências mais importantes que observamos é que a fortuna global está em movimento. Acreditamos que a riqueza continuará a ser gerada por empreendedores, apesar deste ambiente geopolítico incerto e volátil. Estamos a assistir à migração do património privado [particulares com elevado património líquido]. Acreditamos que o dinheiro que será gerado irá deslocar-se dos países onde é criado para outros centros financeiros.
O EFG está bem posicionado para beneficiar da fortuna criada por empreendedores a nível global e da riqueza que se desloca entre geografias e gerações.
Portugal é o sétimo destino para onde milionários de todo o mundo têm migrado, segundo um relatório da Henley & Partners. Este ranking é liderado pelo Dubai (EAU) e, obviamente, agora a situação é novamente diferente [devido à guerra no Médio Oriente]. Em segundo lugar estão os Estados Unidos, seguidos de Itália, Suíça, Arábia Saudita (que também é muito interessante) e Singapura (o que não é surpreendente).
A sucursal portuguesa também serve Espanha?
Tínhamos uma subsidiária em Espanha, que decidimos vender em 2022. Neste momento não temos presença em Espanha, nem estamos a trabalhar ativamente no mercado espanhol a partir de Lisboa.
Ainda na lógica da riqueza em movimento, vemos hoje muitos latino-americanos, de língua espanhola, que tradicionalmente iam para Miami e que agora também se dirigem a outros centros financeiros europeus onde estamos presentes.
Estamos presentes em 40 países a nível global e, na Europa, para além do nosso mercado doméstico, a Suíça, temos uma forte presença em Londres, Luxemburgo, Mónaco, Lisboa e Atenas.
"Temos todo o fluxo de empreendedores que vieram do Brasil e se mudaram para Portugal"
Que perfil de clientes têm em Portugal?
Quando decidimos abrir em Portugal em 2019, a ideia era servir uma rede de empreendedores que estavam a migrar do resto do mundo para Portugal. Penso que desde 2019 esta tendência abrandou um pouco, mas continua a ser muito relevante. Por exemplo, temos todo o fluxo de empreendedores que vieram do Brasil e se mudaram para Portugal. Para nós, Portugal foi um país ideal para abrir uma sucursal e servir empreendedores que já geraram riqueza no país ou que já geraram riqueza noutros países, mas decidiram mudar-se para Portugal. Esta continua a ser a nossa estratégia.
Logo após termos aberto o nosso primeiro escritório em Lisboa, em setembro de 2019, começou a pandemia de Covid e isso atrasou o arranque da operação, mas estamos muito satisfeitos com o progresso alcançado nos últimos seis ou sete anos.
Bernardo Meyrelles: Estamos aqui para nos focarmos nos portugueses, mas também para tentar servir todos os novos residentes. Portugal está a tornar-se um novo hub para os fluxos de riqueza de milionários e multimilionários que estão agora a escolher mudar-se para o país. Considerámos que Portugal poderia tornar-se um novo hub, talvez mais pequeno do que outros, mas um novo hub atrativo para servir clientes que decidiram relocalizar-se.
Agora estamos a ver muitos outros bancos concorrentes a perceber isto, mas o EFG tomou essa decisão há quase sete anos, o que considero ter sido um movimento muito inteligente e ágil.
Hoje, diria que o EFG é provavelmente a melhor escolha para gerir a riqueza daqueles que decidiram vir viver para Portugal.
"Portugal tem estado consistentemente entre os cinco países mais seguros de acordo com vários rankings. Uma das coisas que os nossos clientes valorizam é a segurança"
Acredita então que a instabilidade geopolítica pode beneficiar Portugal e Espanha, porque são mais seguros do que muitos outros países e que algumas das maiores fortunas se irão mudar para Portugal?
BM: Penso que sim. A segurança é sempre um fator considerado na escolha de um novo país. Portugal tem estado consistentemente entre os cinco países mais seguros de acordo com vários rankings. Uma das coisas que os nossos clientes valorizam é a segurança, porque faz definitivamente parte do luxo. Se Portugal continuar a ser um país seguro e desenvolvido, penso que essas são qualidades muito positivas para promover junto dos nossos clientes ou potenciais clientes.
Foi noticiado que o objetivo estratégico do EFG em Portugal era atingir 1,5 mil milhões de euros em ativos sob gestão até ao final de 2025. O EFG atingiu esse objetivo?
BM: O que eu disse foi que atingimos mil milhões de euros desde que nos estabelecemos em Portugal e gostaríamos de continuar a crescer, em média, cerca de 200 milhões de euros em ativos sob gestão por ano. Posso mesmo dizer que este é o ritmo que gostaríamos de manter nos próximos anos.
Como pode o EFG ser competitivo num mercado que tem concorrentes como UBS, Julius Baer e Pictet?
Estes bancos são nossos concorrentes, não apenas em Portugal, mas em todos os mercados. No mercado de private banking na Suíça existem 83 bancos, dos quais oito têm mais de 100 mil milhões em ativos sob gestão. Naturalmente, nós somos um desses oito: temos 185 mil milhões de ativos sob gestão.
Diria que o EFG tem dois elementos diferenciadores face aos outros operadores. Um é o que chamamos de modelo “Client Relationship Officer (CRO)”, em que o nosso CRO (banqueiro) coloca o cliente no centro de tudo o que fazemos. Vemos os nossos CRO como as pessoas que têm a relação direta com os clientes. Consideramos que a relação entre o cliente e o gestor de património é o nosso ativo mais precioso. No nosso modelo centrado no cliente, a relação e a ligação entre o CRO e o cliente estão sempre no centro.
Complementamos a atividade do private banker com uma equipa de especialistas. Penso que a nossa diferença está no facto de oferecermos uma gama muito ampla de produtos e serviços e darmos escolha aos clientes. Procuramos ligar os clientes à nossa oferta, que é muito ampla, e queremos fornecer aconselhamento imparcial.
Oferecemos soluções de gestão de património que incluem, entre outras, planeamento sucessório. Isto é especialmente importante num momento em que muita riqueza será transferida da geração dos baby boomers para a geração seguinte.
No EFG também oferecemos serviços de trust, especificamente em Jersey, Bahamas e Singapura, e temos um negócio de fundos de private equity, bem como um negócio de fundos de marca branca no Luxemburgo e em Jersey.
Existem clientes que nos escolhem porque gostam de estruturar o seu património. A maioria dos nossos clientes procura o EFG pelas soluções de investimento, e oferecemos uma ampla gama de opções, incluindo aconselhamento financeiro, gestão discricionária de carteiras, financiamento estruturado, private markets e uma grande variedade de fundos de investimento.
Também temos o que chamamos de soluções de crédito, uma vez que muitos clientes gostam de alavancar tanto ativos imobiliários como ativos financeiros. Estamos a pensar lançar isto em Portugal, o chamado lombard lending [um tipo de empréstimo garantido por ativos financeiros — como ações, obrigações ou fundos — detidos numa carteira de investimento]. Este é um fator diferenciador que temos no EFG.
Por outro lado, os mercados de capitais globais tornaram-se cada vez mais importantes, especialmente nos últimos anos, em que houve muita volatilidade e incerteza nos mercados. Temos vários clientes que gostam de transacionar diretamente nos mercados e oferecemos-lhes acesso direto ao trading floor na Suíça ou em Hong Kong.
Como é a composição da vossa carteira de clientes?
Olhando para a nossa carteira de clientes, 50% dos ativos sob gestão pertencem a clientes que têm mais de 30 milhões de dólares no banco e, geralmente, se um cliente tem mais de 30 milhões no EFG, normalmente trabalha com três ou quatro instituições financeiras. Estamos a falar de clientes com ativos financeiros líquidos superiores a 100 milhões. Clientes que têm entre 3 e 30 milhões connosco representam cerca de um terço dos clientes do EFG. Depois temos cerca de 10% a 11% de clientes com menos de 3 milhões.
O que queremos oferecer é, naturalmente, a relação e o serviço e o conteúdo. O que é extremamente importante é que damos a escolha final aos nossos clientes. Não apresentamos um produto igual para todos. Os nossos private bankers não têm objetivos ligados a produtos específicos comercializados. O nosso negócio é desenhar soluções financeiras adaptadas a cada cliente e isso talvez seja o que mais nos distingue dos concorrentes.
Além disso, temos uma arquitetura aberta na gestão de ativos e, por isso, podemos incluir uma ampla gama de produtos de investimento de terceiros na nossa oferta.
Há algumas semanas, por exemplo, anunciámos uma cooperação estratégica com a Capital Group, da Califórnia, que é o maior gestor mundial de fundos ativos. Mas, na prática, cooperamos com várias outras sociedades gestoras.
"Queremos tornar-nos o banco de eleição para várias gerações dos nossos clientes"
Qual é a sua visão para 2030?
Queremos tornar-nos o banco de eleição para várias gerações dos nossos clientes. Para nós, a próxima geração é extremamente importante e queremos focar-nos num serviço superior e em aconselhamento imparcial.
Qual é o montante mínimo de investimento ou o mínimo de ativos sob gestão exigido pelo EFG?
Não temos um montante mínimo formal de investimento, mas 90% dos nossos clientes têm mais de 3 milhões de dólares e cerca de 10% têm menos de 3 milhões.
"A riqueza move-se geograficamente, dependendo das tendências geopolíticas e económicas, mas também está a ser transferida entre gerações"
Considerando a transição geracional, qual é o papel das heranças na dimensão das fortunas?
As fortunas estão em movimento e precisamos de as captar. A riqueza move-se geograficamente, dependendo das tendências geopolíticas e económicas, mas também está a ser transferida entre gerações. Espera-se que, nos próximos 20 a 25 anos, cerca de 80 biliões de dólares de riqueza sejam transferidos para as gerações seguintes, principalmente as fortunas da geração baby boomer.
Existem estatísticas que indicam que, muitas vezes, os herdeiros mudam de banco. Isto pode ser um risco, porque obviamente queremos manter os nossos clientes, mas também é uma oportunidade, porque o EFG pode ser escolhida pelas novas gerações que decidam mudar de banco após herdarem.
Por isso desenvolvemos uma estratégia dedicada à próxima geração, com o objetivo de assegurar uma transição suave entre gerações. Temos clientes que estão connosco há três gerações.
Primeiro, precisamos de saber quem é o próximo na linha de sucessão. Depois, temos de garantir que temos a pessoa certa para falar com essa nova geração. Preferimos ter um private banker que compreenda a mentalidade, necessidades e valores específicos de cada geração.
É por isso que estamos a investir muito na nova geração de CRO. A nossa estratégia sempre foi contratar private bankers muito experientes e continuamos com essa estratégia, mas complementamo-la com a contratação de jovens private bankers que podem trabalhar em equipa com um CRO experiente. Também criámos a EFG Academy, na Suíça, um centro de formação e desenvolvimento de talento para a nova geração de colaboradores.
Do lado da oferta, vemos o wealth planning como extremamente importante, porque quando se pensa na transferência geracional de riqueza a primeira questão é saber se essa riqueza está estrategicamente direcionada da forma correta. A estruturação de património é muito dinâmica. Pode haver impactos como alterações fiscais, mas também a nova geração pode ter objetivos diferentes.
Por exemplo, o investimento sustentável está a ganhar importância nas novas gerações. Mesmo que nos Estados Unidos o ESG (Environmental, Social e Governance) já não tenha o mesmo peso na agenda política que tinha antes, vemos que para muitos dos nossos clientes continua a ser uma consideração importante.
Falando de novas gerações, o EFG está a olhar para os criptoativos?
As criptomoedas são um tema muito importante. No entanto, somos conservadores neste setor: aceitamos investimentos em ativos digitais através de fundos. Um dos fundos mais bem-sucedidos da BlackRock foi, por exemplo, o IB1T, que tem Bitcoin como ativo subjacente, mas é um fundo de investimento normal e, portanto, aceitamos.
Um cliente também pode ter opções, em produtos estruturados, baseadas em ativos digitais. No entanto não transacionamos nem guardamos criptomoedas. Mais uma vez, é também uma questão de tempo, porque estamos à espera de um enquadramento regulatório mais claro.
"Avaliar o impacto da guerra no centro financeiro do Dubai é ainda cedo"
Falando agora do contexto geopolítico, que impacto poderia ter uma guerra no Médio Oriente, afetando países como os Emirados Árabes Unidos, no segmento dos ultra-ricos?
Há duas coisas claras. A primeira é que, até à guerra no Irão, os Emirados Árabes Unidos consolidaram-se como líder global na entrada de riqueza. Segundo o Henley Private Wealth Migration Report 2025, o país é o destino número um para milionários migrantes pelo quarto ano consecutivo.
Agora, avaliar o impacto da guerra no centro financeiro do Dubai é ainda cedo. Uma das principais questões é quanto tempo irá durar esta guerra. Se for novamente uma questão de dias ou semanas, como aconteceu em junho passado, penso que a importância do Dubai e dos Emirados Árabes Unidos como centro financeiro se manterá. Se durar mais tempo, será naturalmente mais complicado.
Temos cerca de 60 pessoas na região, no Dubai e no Bahrein, e foi claramente um choque, porque em junho passado o Golfo não tinha sido atingido pelas operações, ao contrário do que aconteceu agora.
Quais são os principais objetivos do plano estratégico 2026-2028?
Globalmente, o nosso objetivo é continuar a trajetória de crescimento. Queremos crescer entre 4% e 6% por ano em Net New Assets. Queremos manter a nossa margem de receitas em pelo menos 85 pontos base, alcançar um cost-to-income ratio de 68% e um retorno sobre ativos tangíveis (RoTE) de 20% ou mais.
Pretendemos aumentar o lucro em 15% ao ano, em termos de CAGR [Taxa de Crescimento Anual Composta], nos próximos três anos.
"A nossa estratégia de crescimento é essencialmente orgânica, mas gostaríamos de complementá-la com aquisições"
Existem aquisições no horizonte para o EFG?
A nossa estratégia de crescimento é essencialmente orgânica, mas gostaríamos de complementá-la com aquisições. Temos três critérios: as aquisições devem ocorrer em mercados onde já estamos presentes; deve existir um forte alinhamento cultural; e devem gerar um retorno mínimo de 10% em três anos.
Fizemos três aquisições nos últimos 12 meses: duas na Suíça e uma na Nova Zelândia.
E em Portugal, o EFG tem aquisições em mente?
BM: Em Portugal seguimos exatamente a mesma estratégia. O nosso principal objetivo é crescer organicamente. Não estamos ativamente à procura de aquisições, mas obviamente estaremos atentos a qualquer oportunidade que surja.
O Governo suíço propôs novos requisitos de capital regulamentar. O EFG é afetado?
Não. Esta medida afeta essencialmente apenas os bancos sistemicamente importantes.
"O compliance — incluindo Anti-Money Laundering (AML) — e a gestão de risco são pré-requisitos para o nosso crescimento"
Recentemente, o EFG Bank Luxembourg foi alvo de buscas no âmbito de uma investigação sobre branqueamento de capitais. O que está a fazer o EFG para melhorar o seu sistema de gestão de risco e compliance?
A EFG confirma que, a 24 de fevereiro de 2026, as autoridades locais estiveram presentes nas instalações do EFG Bank Luxembourg e que o banco está a cooperar plenamente.
É importante notar que o Ministério Público do Luxemburgo não abriu uma investigação. Esta intervenção decorre de uma nova lei em vigor desde dezembro de 2025, que permite recolher informação antes da abertura de uma investigação formal.
O compliance — incluindo Anti-Money Laundering (AML) — e a gestão de risco são pré-requisitos para o nosso crescimento. Mantivemos um perfil de risco baixo nos últimos ciclos e somos muito rigorosos na seleção de clientes.
No setor do private banking, os três maiores riscos atualmente são cibersegurança, branqueamento de capitais e liquidez. Acreditamos que a IA pode ajudar muito a filtrar e avaliar os clientes certos.
Estamos também a usar IA no negócio de gestão de ativos e soluções de investimento. Já introduzimos uma ferramenta chamada “Ally”, que ajuda os nossos colaboradores a serem mais produtivos.
No final de 2025, o EFG International anunciou a integração da tecnologia Aladdin Wealth na sua plataforma de aconselhamento para aumentar a eficiência e personalizar as carteiras dos clientes.
No entanto, a IA é um apoio e não um substituto do aconselhamento humano, que continua a ser central para nós.