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Bruno Zhu do outro lado do espelho

Arte : A exposição “Belas Artes” é, antes de mais, uma pergunta em aberto: quem tem o poder de nomear as coisas? E como encarar uma proposta que não tem obra criada, apenas uma narrativa feita de dúvidas? Bruno Zhu aterrou no CAM e fala-nos de frustrações institucionais de uma forma deliciosamente desconcertante.

Se não me apresso, tenho que voltar para o outro lado do espelho sem ter visto o resto da casa!» Num instante, tinha saído da sala, descendo os degraus a correr, ou pelo menos, se não era exatamente a correr, era uma maneira nova de descer escadas, rapidamente e sem dificuldade, disse Alice para si. Apoiava apenas a ponta dos dedos no corrimão e deslizava suavemente sem tocar os degraus com os pés; depois voou através da entrada e teria saído porta fora se não se tivesse agarrado ao umbral”. Foi esta a memória que nos tomou de assalto ante as portas e possibilidades que Bruno Zhu nos propõe na sua primeira exposição individual no CAM - Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian. A exploração de “Alice do outro lado do espelho”, de Lewis Carroll, tem o seu quê de vertigem. E também aqui, em “Belas Artes”, a vertigem nos convoca. Não no plano formal, mas das ideias, uma vez que esta exposição nasce de uma frustração institucional e, tendo-a por base, levanta questões que vão muito além das paredes do museu.
Tudo começou em Londres, em 2024, quando Bruno Zhu foi convidado para fazer uma exposição individual na Chisenhale Gallery. “Desenhei uma cenografia que pode ser adaptada a qualquer sítio e a qualquer contexto através de um manual de instruções”, explica o artista nascido no Porto, que vive e trabalha entre Portugal e os Países Baixos. Na visita guiada pelo artista, este partilhou as duas respostas possíveis ao seu “manual de instruções”. A bem-comportada, na qual aborda “uma noção expandida do que é superfície e superficial. Estamos a pensar em formas de lidar com o espaço, tempo e oportunidades de uma forma elástica, de uma forma dominante e onde os jogadores podem jogar de uma forma horizontal.” Ou a resposta honesta, em que o artista tem de “lidar com pressões e interesses institucionais que colocam o artista em situações precárias.”
Escolheu a honestidade. Escolheu “a peça que não é obra, antes um dispositivo que tem quatro momentos, quatro salas. Cada sala tem regras, diretivas ou sugestões singulares para mostrar ‘coisas’. No nosso caso, estamos a mostrar peças da coleção do CAM Gulbenkian. Uma coleção vasta e relevante de arte moderna portuguesa”, que conta com “um empréstimo muito especial do Museu Nacional do Traje”. Resumindo, não há obra criada. Há uma cenografia que se espraia por quatro salas com regras muito distintas e pensada “para ser reproduzível: qualquer pessoa interessada pode adquirir os direitos de reprodução.” E agora? Vamos subverter conceitos?

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