A micromobilidade está a ganhar cada vez mais utilizadores em Portugal. Já são muitos os portugueses que optam por fazer o first e last mile dos seus trajetos diários de bicicleta ou trotinete elétricas.
Este é um setor em franco crescimento, e onde o maior operador já conta com seis anos de experiência em Portugal. A Bolt já está presente em 15 cidades portuguesas, mas continua a querer expandir, pretendendo reforçar a sua oferta na zona Sul do país, querendo chegar a Albufeira, Portimão e Lagos, chegar ao Alentejo, como a Évora, e a Aveiro e expandir para mais cidades nos Açores, como Lagoa, referiu ao JE Frederico Venâncio, responsável de micromobilidade da Bolt e Portugal, Espanha e Itália.
“Eu tenho uma ambição de dizer que temos cobertura nacional”, afirmou o responsável, referindo que a empresa continua a trabalhar para este objetivo.
Esta ambição de expansão acontece numa altura em que a empresa já conta com uma frota de quase sete mil veículos no país, e já realizou mais de 22 mil milhões de viagens, em que 47% destas já são entre os dois e cinco quilómetros, enquanto 10% são entre os cinco e os 10 quilómetros.
“Temos aqui um percentual elevadíssimo daquilo que são as viagens que os utilizadores realmente necessitam”, refere, “percebemos, claramente, que o padrão de consumo alterou e deixamos de ter aqui um bocadinho aquela ideia do first and last mile”.
Inicialmente este negócio era visto para “turistas”, para “passear na cidade, para usufruir do bom tempo”, mas agora os dados mostram que grande parte das “nossas viagens foram com utilizadores locais”.
Este setor já tem um peso considerável na empresa em Portugal, segundo o responsável esta área da empresa já esteve no top três do mundo, tendo agora descido para o top cinco. "Portugal tem um impacto muito grande naquilo que é a micromobilidade e em Portugal esta tem um peso significativo", refere.
Para o responsável pela micromobilidade da Bolt “é este preciso caminho que a mobilidade tem de percorrer para estar completamente integrada nas cidades, para servir os cidadãos e para colmatar as necessidades que muitas vezes as cidades têm naquilo que toca ao transporte público e as pessoas no seu transporte privado”.
Ao JE, Frederico Venâncio refere que o setor está a par de que às vezes traz “alguns inconvenientes, de mau estacionamento, algum acumular de frota”, mas tem feito investimentos e falado com os municípios para mitigar esta desorganização.
“Eu vejo o nosso setor com dois focos principais, o de gerar viagens e de viagens em segurança”, declara. O responsável vê a organização como parte importante da segurança, “não só para os nossos utilizadores, mas também para os munícipes, para os peões, para toda a gente que anda na cidade”.
Este é um forte investimento da empresa, que também lançou a opção de subscrições. Essa opção baixa o valor cobrado por minuto, de 0,25 cêntimos para 0,10 cêntimos, o que faz com que as pessoas “não tenham necessidade de fazer viagens à pressa, de estacionar em qualquer sítio, e portanto vão descansadas até ao ponto onde vão terminar a viagem”, explica.
Estas subscrições funcionam em modelos de passes diários, bi-diários, semanais, mensais ou até em sinergia com os municípios, como aconteceu com o passe Navegante em Lisboa.
Na opinião de Frederico Venâncio este setor tem uma “regulamentação descentralizada”, ou seja, a forma de circular está no Código da Estrada, mas a “operação em si são os municípios que decidem”, ou seja, “não há uma regulamentação própria”. A empresa considera a velocidade um ponto fulcral, limitando todos os seus veículos a uma velocidade máxima de 20 km/h.
Contudo, a organização, que fica ao critério de cada cidade, pode variar entre modelos free-floating, (onde os veículos não têm lugar fixo de recolha nem de devolução) ou o mandatory parking, onde em conjunto com o município “definimos milhares de pontos de estacionamento e os utilizadores só podem parar os veículos nesses pontos”, explica.
Nesse ponto a empresa “vai um bocado mais além, e temos uma série de features que obrigam, ou que tentamos que obriguem, a esse cumprimento”, refere. “Se for fazer uma viagem de trotinete e se estiver num lugar de mandatory parking, no final vai ter de tirar uma fotografia onde o sistema identifica automaticamente a geolocalização do veículo”, desta forma a empresa quer mitigar os veículos que são deixados no passeio e nas passadeiras.
Quando o utilizador abre a aplicação da Bolt vai ver os locais onde pode parar, não sendo possível parar noutro sítio.
Obviamente que por se tratarem de veículos com baterias podem existir erros ou até mesmo que o veículo fique sem bateria num local onde não é suposto estacionar, mas nestas situações a empresa tem “equipas de rua a fazer essa organização”.
Para o responsável o facto de não existir uma regulamentação própria é um problema, o que faz com que os operadores estejam em estreita comunicação com os municípios para chegarem a entendimentos. Contudo, Frederico Venâncio considera que um dos principais desafios do setor é os acordos celebrados entre empresas e municípios não serem conhecidos por todos.
“Às vezes as autoridades não conhecem os acordos que há com os municípios” e muitas vezes, não estando a zona sinalizada, "rebocam os veículos estacionados", explica.
Ao JE o responsável afirma que os operadores estão disponíveis para colaborar e criarem uma regulamentação para o setor. “Nós operadores temos uma sinergia muito boa, no início éramos muitos e não era fácil, mas agora somos três e falamos entre nós”, declara.
“Há reuniões mensais ou trimestrais com os municípios onde avaliamos o impacto da operação, os resultados das operações, todas essas informações são passadas e as nossas sugestões são sempre dadas”, diz.
Para além deste desafio, Frederico Venâncio salienta outro, o de “não haver uma distinção perfeita do que é micromobilidade partilhada e do que micromobilidade privada”. “Esse ponto é chave e deve ser obrigatório na movimentação, porque os nossos veículos cumprem os requisitos, e têm um controlo remoto, que nenhum veículo privado tem”, refere.
A partir desse controlo remoto a empresa consegue controlar a velocidade e limita áreas operacionais. Para o responsável esta é uma definição importante, porque “muitas vezes achamos que as scooters e as bikes são a causa de muitos acidentes que há no país. Mas a verdade é que a maior parte dos acidentes vêm dos veículos privados”, aponta.
De acordo com os dados do Safety Report da empresa, em 2023 por cada 6500 viagens havia um incidente registado, em 2024 este valor passou a ser de um incidente em 24.500 viagens. “Reduzimos em 80% o índice de acidentes que temos”, afirma.
A falta de infraestruturas é outro dos desafios do setor. Apesar de já estar ligeiramente melhor, ainda há falta de infraestruturas para estes veículos. Com estas infraestruturas, o responsável acredita que é possível levar a micromobilidade a outro patamar. "Se nós tivermos cidades com ciclovias ótimas, há um impacto brutal naquilo que são as operações", refere. "Nas cidades que têm evoluído mais as suas infraestruturas vemos um impacto imediato naquilo que são as operações", salienta.
"A partir do momento em que hajam infraestruturas mais amigáveis para o uso de micromobilidade, eu acho que nós vamos ser uma parte fundamental daquilo que é a mobilidade do dia-a-dia de qualquer pessoa", perspetiva.
Frederico Venâncio acredita que se estes desafios forem resolvidos no nosso país "temos tudo o que é necessário para ter um negócio muito saudável e com bastante utilização".
Tecnologia para impulsionar o negócio
A tecnologia marca presença em vários setores, o da mobilidade não lhe escapa. Ao JE o responsável diz que a tecnologia tem sido utilizada neste setor, tanto a nível de software como de hardware.
"Nós temos investido muito na tecnologia, porque na verdade, toda esta inovação que nós trazemos é com foco, principalmente, na segurança e na organização das cidades", afirma.
Há dois anos a empresa criou o seu próprio modelo de trotinetes, o Dragon, (que foi retirado do mercado português, mas há possibilidade de voltar) com o auxílio da tecnologia. "Criamos veículos tendencialmente mais compactos, com rodas maiores e mais largas, para os utilizadores se sentirem mais confortáveis, e com dispositivos de controlo GPS, para conseguirmos ter uma maior assertividade, uma maior precisão de onde está o veículo, onde está a estacionar", explica.
A tecnologia também é utilizada noutras features dos seus veículos, como para mostrar o caminho ao utilizador, para este definir a sua rota, para seguir pela ciclovia, sem existir a necessidade de este parar no meio da estrada.