Um total de 16 aviões da TAP aterraram e descolaram do aeroporto de Lisboa enquanto o Governo anunciava ao país o vencedor da primeira fase de privatização. Terminada a conferência de imprensa pelas 13h45 de quarta-feira, 14 de outubro, houve apertos de mão e abraços entre o primeiro-ministro e vários membros do Governo. No país que passou semanas a discutir a polémica Jesus/Ronaldo, estava a ser trabalhado nos bastidores um negócio que vai mudar o setor da aviação em Portugal e na Europa com a promessa de entrada de muito dinheiro nos cofres públicos.
A Lufthansa avaliou a totalidade da TAP em 2.552 milhões de euros. Este valor contrasta com os 2,8 mil milhões de capitalização bolsista do grupo Air France-KLM (AF-KLM), com o grupo franco-neerlandês a gerar oito vezes mais receitas do que a TAP, com uma frota seis vezes superior.
A proposta alemã de 1.201 milhões de euros para 49,9% da companhia foi 16% superior à proposta franco-neerlandesa.
O valor oferecido atesta a importância que a companhia alemã dá à TAP. No fim, a vontade de ganhar ditou a maior ambição da proposta germânica, que deixou a milhas a sua concorrente.
“A proposta vencedora da Lufthansa é uma proposta de elevada qualidade. Foi assessorada pelo Goldman Sachs e a qualidade do trabalho é evidente em todos os pormenores. A proposta está a um nível muito elevado: concreta, quantificada, calendarizada e assente em compromissos bem definidos, deixando pouca margem para ambiguidades ou meras declarações de intenção”, segundo o analista financeiro Nuno Barradas Esteves.
Já a proposta da Air France-KLM “apresenta algumas zonas mais etéreas, sobretudo quanto à concretização e quantificação de determinados compromissos”.
Nuno Barradas Esteves destaca que a TAP a 100% vale 90% do valor bolsista da AF-KLM e 30% do da Lufthansa.
Na Europa, a Ryanair é a empresa de aviação mais valiosa em bolsa: 24,2 mil milhões de euros, seguida da IAG (British Airways e Iberia) com 22,5 mil milhões e da Lufthansa com 8,6 mil milhões.
O primeiro-ministro também destacou o elevado valor da avaliação. “Um valor muito, eu diria mesmo muitíssimo, acima das avaliações independentes perspetivadas há alguns anos ou mesmo há alguns meses”, disse Luís Montenegro na conferência de imprensa de quarta-feira.
Entretanto, o tempo não cessou de avançar. Passou mais de um ano do lançamento da reprivatização da TAP; mais de seis anos da renacionalização da TAP em plena pandemia, que arrasou com o setor mundial da aviação; mais de 10 anos da venda da TAP a David Neeleman.
O contrato deverá ser assinado até ao final deste ano, com as aprovações da Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC) e da Direção-Geral da Concorrência (DGComp) da Comissão Europeia a terem lugar durante o ano de 2027. Já o ’closing’ da primeira fase deverá ter lugar na primeira metade de 2028.
A companhia fica responsável pela comissão executiva da TAP, que gere o dia a dia, com o poder de escolher o presidente-executivo. Já o conselho de administração fica nas mãos do Governo, com cinco administradores num total de nove.
“A TAP era uma das poucas transportadoras com escala para ser consolidada. Não podíamos falhar esta oportunidade. A TAP irá desempenhar um papel muito forte na nossa rede, temos de pensar nas próximas décadas”, disse na quinta-feira o presidente-executivo da Lufthansa.
Carsten Spohr destacou também: “Nunca vi uma rede assim de sinergias a serem criadas numa transação”, afirmou ao analisar um mapa que sobrepunha os voos da TAP com os do grupo Lufthansa.
“São números que não se veem muitas vezes na compra de uma companhia aérea”, afirmou. Destacou também a intenção de manter a paz social na companhia aérea.
O analista Nuno Barradas Esteves destaca que o preço da privatização assumiu uma “relevância que ultrapassa a dimensão estritamente financeira da operação. O Governo PSD, condicionado por uma maioria parlamentar inexistente e por um ambiente político exigente, enfrenta pressões tanto do PS como do Chega. Demonstrar que a venda de uma participação na TAP permite obter um retorno financeiro significativo para o Estado constitui, por isso, um argumento político relevante perante os contribuintes e a opinião pública”.
A companhia conta atualmente com cerca de 100 aviões. A proposta da Lufthansa prevê também o aumento da frota. Dos atuais 101 aviões, para 117 até 2035 e 130 após a abertura do novo aeroporto. A Lufthansa prevê a transferência de até oito A350-900, que transportam mais passageiros para voos de longo curso até 2030.
No Porto, prevê criar a segunda base da TAP com oito aviões de longo curso. O investimento na frota está orçamentado entre 3 a 4 mil milhões de euros.
A Lufthansa vai investir 500 milhões de euros numa escola de pilotos em Tancos, distrito de Santarém. Está prevista a criação de 200 postos de trabalho. O projeto vai ser realizado no mesmo local do Aeródromo Militar de Tancos, que já conta com uma base que serve a Brigada de Reação Rápida e também a Unidade de Aviação Ligeira do Exército.
Além da escola de pilotos, o executivo anunciou que a companhia vai investir mais em Portugal: um centro de inovação em Aveiro e um centro de serviços corporativos. Estes investimentos juntam-se à unidade de manutenção e reparação da Lufthansa Technik em Santa Maria da Feira, um investimento de 300 milhões. A escola estará em operação em 2029/2030.
Alemães vão pagar quase tanto pela TAPquanto o valor da Air France-KLM que é oito vezes maior
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Avaliação da Lufthansa coloca TAP próxima do valor bolsista do grupo franco-neerlandês, que gera oito vezes mais receitas e tem uma frota seis vezes maior. Alemães prometem mais aposta no Brasil, mais aviões, escola de treino de pilotos, paz social e aposta no Porto.