A Agência Internacional da Energia (AIE) admitiu através do seu diretor executivo, Fatih Birol, estar a discutir com governos asiáticos e europeus a libertação de mais barris de petróleo. Mas o responsável da organização considera que a melhor solução é a abertura do Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo.
"Se for necessário, é claro que o faremos. Analisaremos as condições, avaliaremos os mercados e discutiremos com os nossos países membros", afirmou o responsável da agência de Energia, durante o National Press Club, que se realizou em Camberra, sobre a possibilidade de ser libertado mais petróleo para o mercado.
Os membros da AIE já tinham concordado, em março, em libertar 400 milhões de barris de petróleo (equivalente a 20% do total), das suas reservas estratégias, depois do disparo de preço da matéria-prima com o início do conflito no Médio Oriente entre Estados Unidos, Irão, e Israel.
Faith Birol admitiu que libertar stocks de petróleo "ajudará a acalmar os mercados" contudo "não é a solução", reforçando que libertar stocks desta matéria-prima "apenas ajudará a reduzir o impacto" na economia.
O responsável da AIE considerou que a solução mais eficaz passaria pela abertura do Estreito de Ormuz. Pelas contas da organização cerca de 15 milhões de barris de crude e outros cinco milhões de produtos petrolíferos passavam diariamente naquela via marítima, cerca de 20% do consumo mundial daquelas matérias, mas que com o início do conflito [no Médio Oriente] as quantidades ficaram reduzidas a "conta-gotas".
Faith Birol considerou que o conflito que se vive no Médio Oriente é "muito grave" considerando que é pior que os dois choques petrolíferos dos anos 70, bem como o impacto da guerra entre a Rússia e a Ucrânia no gás, em conjunto.
A agência a 20 de março já tinha apresentado 10 medidas de urgência que pretendiam reduzir a procura de petróleo devido ao conflito no Médio Oriente. Aqui encontram-se medidas tais como: mais três dias de teletrabalho, menos 40% de voos comerciais, a gratuitidade dos transportes públicos, redução do limite de velocidade nas estradas em, pelo menos, 10 km/h, para baixar o consumo de combustível "entre 5% e 10% por veículo", a partilha de veículos e a restrição de circulação nas grandes áreas metropolitanas, através do rateio de matrículas (pares/ímpares, por exemplo).
Japão liberta reservas de petróleo quinta-feira
A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, confirmou que o país asiático vai começar esta semana [quinta-feira] a maior libertação de petróleo das suas reservas estratégicas, para dar resposta a uma possível escassez desta matéria-prima devido ao conflito no Médio Oriente.
Ao todo cerca de 80 milhões de barris de petróleo armazenados – o equivalente a 45 dias de consumo interno – estão a ser disponibilizados às refinarias nacionais, de acordo com o The Guardian. No final de 2025, o Japão tinha reservas de cerca de 470 milhões de barris de petróleo, o equivalente a 254 dias de consumo interno. O executivo já tinha avançado com medidas como subsídios aos combustíveis de modo a limitar o preço da gasolina a cerca de 1,10 dólares por litro.
Analistas admitem volatilidade no petróleo
Com o anúncio do Presidente norte-americano, Donald Trump, na segunda-feira, de uma trégua de cinco dias na guerra pode reduzir o nível de volatilidade da matéria-prima, de acordo com o analista da XTB, Henrique Tomé.
"O petróleo Brent está atualmente a ser negociado em torno de 100 dólares por barril no contrato de maio, enquanto o contrato de abril permanece significativamente acima deste nível. Na sequência da interrupção da onda de vendas de segunda-feira, os ganhos de terça-feira permanecem limitados. Dado o prazo de cinco dias estabelecido pelos Estados Unidos, a volatilidade poderá diminuir temporariamente, embora seja importante notar que Israel não se retirou das operações militares contra o Irão", referiu Henrique Tomé.
O analista assinala também que a curva de futuros [do petróleo] mantém-se em backwardation acentuada (uma situação em que o preço atual (spot) é superior à previsão do contrato de futuros), enquanto que os spreads de calendário até ao final do ano permanecem elevados (embora inferiores aos níveis extremos observados em 2022). "Uma redução nos spreads de calendário de aproximadamente 1–2 dólares sinalizaria um pico genuíno e o potencial para uma queda mais acentuada nas próximas semanas", considera.
"Notavelmente, os preços de futuros para o início de 2027 mantêm-se acima dos 80 dólares por barril, significativamente mais elevados do que os níveis observados antes do início do conflito", acrescenta o analista.
O CEO da ActivTrades Europe, Ricardo Evangelista, admite que apesar do risco imediato de uma escalada acentuada nos preços da energia ter, para já, sido evitado [com a trégua], o potencial para nova volatilidade "mantém-se", acrescentando que nesta altura "não há sinais claros de progressos significativos" no sentido de uma resolução do conflito.
"Além disso, as condições subjacentes permanecem inalteradas. O Estreito de Ormuz continua, na prática, fechado pelo Irão; parte das infraestruturas energéticas da região foi danificada e a ameaça de retaliação por parte do Irão persiste. Neste contexto, é pouco provável que os preços do Brent desçam de forma sustentada abaixo dos 100 dólares até que haja progressos concretos nas negociações. Qualquer nova escalada do conflito deverá, muito provavelmente, voltar a impulsionar os preços em alta", admite Ricardo Evangelista.
Goldman Sachs e S&P Global fizeram revisão em alta do petróleo
No domingo o Goldman Sachs reviu, em alta, a previsão de preço médio para o brent, em 2026, de 77 dólares para 85 dólares, e subiu também a do crude de 72 dólares para 79 dólares. O banco perspetiva que o brent tenha um preço médio de 110 dólares, em março e abril, face aos anteriores 98 dólares, devido a um prémio de risco maior. Estas perspetivas são influenciadas por fatores como uma interrupção prolongada do Estreito de Ormuz e por uma perda sustentada de dois milhões de barris por dia na produção do Médio Oriente.
A instituição considerou que o brent e crude podem permanecer estável nos 80 dólares e 75 dólares até 2027, referindo que o efeito de flexibilização da resposta dos preços à oferta e à procura compensaria o efeito causado pela reconstrução das reservas estratégicas de petróleo dos países.
A nota do banco, transcrita pela agência noticiosa Reuters, admite que quando a incerteza atingir o pico o petróleo pode transacionar nos 135 dólares.
Ao início da tarde de terça-feira o brent transacionava com uma valorização de 3,08% para os 98,87 dólares e o crude subia 3,87% para os 91,54 dólares.
"Neste cenário extraordinário, a volatilidade dos preços irá provavelmente manter-se elevada, com os riscos cada vez mais inclinados para cima. Quanto mais tempo persistir a disrupção, mais os preços necessitarão de subir (potencialmente de forma significativa) para equilibrar o mercado na ausência dos 10% a 20% da anterior oferta global estrutural proveniente do Médio Oriente. Os principais riscos ascendentes para a nossa previsão de preços incluem uma maior escalada militar, interrupções prolongadas nas exportações de Ormuz, novas paragens na produção e danos nas instalações de produção ou exportação de petróleo", destacou.