O mais simples seria enviar umas quantas perguntas por escrito. Não foi sequer opção. O Atlântico liga Continente e Açores, e uma videochamada ligou Lisboa e Ponta Delgada, na ilha de São Miguel. Deambulando por entre as árvores de um jardim público, Maria Ana Vasco Costa sorriu, entusiasmou-se e partilhou com o JE momentos do seu percurso de arquiteta-escultora-ceramista. Já lá vamos. Antes de se sentar nos bancos da escola, já Maria Ana vivera na pele isso a que chamamos liberdade para explorar, para sentir a terra, para sonhar acordada, com as ondas do mar a servir de banda sonora.
Para esta lisboeta assumidamente urbana, esse mês de insularidade na infância, em casa dos avós, deu-lhe muita coisa. Lisboa também, claro. Foi aqui que cursou arquitetura e que descobriu que a muito falada luminosidade de Lisboa. Não, não é um mito. Faz parte dos tesouros da cidade. Isso e a diversidade de padrões de azulejos – a maior riqueza da cidade. Faz até um paralelismo social, considerando que “a riqueza da diversidade humana é o valor maior quando falamos de cidade.”
Londres foi uma “escola de arquitetura” para Maria Ana Vasco Costa. Realça a importância de ter trabalhado com o premiado arquiteto David Adjaye, cuja prática implica uma atenção profunda aos materiais e um constante questionando de como podem ser usados. Adjaye é tão-só um dos arquitetos mais proeminentes do mundo e a estrela por trás de inúmeras obras, entre as quais o emblemático Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, em Washington, EUA.
Esse questionamento, diz-nos Maria Ana, foi fundamental na sua formação. Assim como os quatro intensos anos em que Londres foi a sua casa. Foi aí que percebeu que a construção tinha um ritmo que não era o seu ritmo. “Ou seja, as coisas eram pensadas e não muito amadurecidas [nos projetos de arquitetura], porque a construção é muito estandarizada, muito pré-fabricada. E isso causava-me alguma estranheza.” A questão do tempo, de mão dada com a responsabilidade, falou mais alto: “como é que podes tomar decisões tão sérias em tão pouco tempo?” Não se sentia feliz, nem realizada. Colegas e chefias apontavam-lhe grande potencial. Mas não se via como arquiteta. Otempo do amadurecimento era, para si, como o ar que respira. Imprescindível. Em 2008, rumou a Milão, encantou-se com o design, viu, leu, colecionou catálogos e livros, respirou design. Absorveu tudo o que lhe enchia a retina, em estado de graça, ou melhor, “esponja”.
“Venho de uma família de empreendedores”, por isso, ser artista em Portugal era algo exótico para os mais próximos. Já em Lisboa, encontrou o ArCo - Centro de Arte e Comunicação Visual e descobriu-se escultora. Primeiro de azulejos, vamos chamar-lhe ‘clássicos’, depois de azulejos tridimensionais. Foi no ArCo que teve uma “sensação física de pertença imediata”.
Eram poucos alunos quando decidiu estudar cerâmica. Afinal, a sua matéria-prima de eleição. Em 2012, quando a cerâmica passou a ser o “novo ioga”, diz, o departamento não tinha condições para crescer. Longe de ser o fim, os astros alinharam-se e acabou a dividir a direção do departamento de cerâmica, que entretanto se tornou uma referência na área.
Já deu aulas e marcou-a o facto de, muitas vezes, faltar foco, propósito e ambição aos alunos. Quando lecionava, Maria Ana dizia aos alunos para se “reservarem ao direito de não explicar logo o que é que estão a fazer.” Nem à família, nem aos amigos. Porque tendem a ser menos críticos. Não é a complacência nem a condescendência que nos levam mais além. “Reservem-se ao direito de ir mais fundo. Arrisquem. “Se estás sempre a mostrar, não estás a arriscar muito. Não busquem a aceitação nas redes sociais. Deixem-se ser validados pela escola, primeiro. Deem-se ao luxo de ter aqui momentos de silêncio e de reflexão. De procurar a vossa identidade.”
Foi esse olhar para dentro que lhe revelou quem é. A sua autenticidade. Escultora apaixonada pelo potencial do barro e dos vidrados na arquitetura. Pelas cores que ainda não vimos a revestir fachadas de prédios. “Quero trazer a imprevisibilidade do azulejo para o meu trabalho. Aceito todas as imperfeições porque, para mim, é essa a beleza das fachadas antigas. A ‘imperfeição’ é o auge da descoberta quando estou a observar”, exclama a artista. Conversámos num momento em que Maria Ana desenha padrões “compulsivamente” nos cadernos que andam sempre consigo, confessa. Estão-lhe a “surgir coisas.” Em resultado do seu exercício de observação. Que depois plasma em fachadas personalizadas ou em intervenções de arte pública e museológica, pelas quais já foi premiada, em três ocasiões, nos Surface Design Awards, no Reino Unido.
‘É impossível deixar de olhar, e até de tocar, nos azulejos’. De uma fachada ou mesmo no interior de um prédio. Este é um dos maiores elogios que lhe podem fazer.
A luz de Lisboa não é um mito e faz do azulejo identidade
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A artista visual Maria Ana Vasco Costa transformou o azulejo tridimensional na sua linguagem estética. Premiada pela inventiva das suas criações, vê na imperfeição um manancial de descoberta.