O atual Maestro Titular e Diretor Artístico da Orquestra Filarmónica de Helsínquia, Jukka-Pekka Saraste, é hoje um dos grandes nomes da música europeia. Na Gulbenkian Música, dirige a Sinfonia n.º 6, também conhecida como “Patética”, de Piotr Ilitch Tchaikovsky, a derradeira sinfonia do compositor russo, associada à sua morte enigmática e ao conturbado período emocional que então viveu.
Recuemos no tempo. Em 1890, Nadezhda von Meck, mecenas de longa data do compositor, suspendeu o apoio que lhe dava, devido a privações económicas. Tchaikovsky nunca aceitou o argumento. Sentiu-se traído e a sua autoconfiança tremeu. Por outro lado, a homossexualidade também lhe trazia dificuldades crescentes, numa altura em que mantinha uma relação apaixonada com o seu sobrinho Vladimir Davydov – a quem a partitura é dedicada – e se via confrontado com normas legais intolerantes a esse respeito.
A Sinfonia n.º 6 encerra em si toda essa carga dramática. Conhecida como “Patética”, com o provável consentimento do compositor, deve o seu nome à palavra pathos, que em grego significa sofrimento, mas também remete para paixão e emoções exacerbadas. Nada que espante quem acompanhava o trabalho do compositor russo, que evocava amiúde aspetos da sua vida emocional nas ‘entrelinhas’ das suas sinfonias. Há quem especule que, neste caso, terá levado isso até às últimas consequências, até porque o dramatismo dos episódios biográficos que enredaram esta composição terão contribuído para tal.
Ao longo dos quatro andamentos vislumbra-se um confronto colossal entre o entusiasmo pela existência e a exaustão profunda, entre uma força vital e o esgotamento físico e anímico. Talvez seja esse cansaço que se vislumbra no seu rosto numa fotografia datada de janeiro de 1893. Tinha apenas 53 anos, mas o que vemos é um homem desgastado e envelhecido.
Tchaikovsky dirigiu a estreia da Sinfonia n.º 6 no final de outubro de 1893, em São Petersburgo. Morreu nove dias mais tarde, de maneira inesperada, o que contribuiu para as inúmeras alusões extramusicais que surgiram em torno da obra. Tanto mais porque o próprio compositor admitiu a existência de um conteúdo programático subjacente, muito embora nunca o tenha revelado. Mas resumir esta obra a um aceno de despedida por parte de um grande músico seria redutor. Antes ouvir a “Patética”, interpretada pela Orquestra Gulbenkian, sob a direção do reputado maestro finlandês Jukka-Pekka Saraste.
A derradeira sinfonia de Tchaikovsky
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A Orquestra Gulbenkian interpreta a célebre Sinfonia n.º 6 de Tchaikovsky, sob a direção do maestro finlandês Jukka-Pekka Saraste.