"Para mantermos a nossa cooperação transatlântica, temos de nos tornar mais europeus", afirmou Mark Rutte, secretário-geral da organização, antes da cimeira da NATO em Ancara, que termina esta quarta-feira e onde se espera que os aliados europeus apresentem os seus planos de reforço dos gastos com a defesa. Demonstrando alinhamento com o mais importante defensor de Donald Trump em território europeu (lugar deixado recentemente em aberto pela primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni), a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que a NATO precisa de tornar-se mais europeia para reduzir a sua longa dependência da proteção de segurança dos Estados Unidos. "Ambos sabemos o quão importante é a estreita cooperação entre a União Europeia e a NATO", disse a presidente da Comissão Europeia ao lado do secretário-geral.
Pouco depois de aterrar na Turquia, o presidente Donald Trump decidiu recuperar a retórica sobre a Gronelândia, que tinha ficado como que suspensa depois da cimeira de Munique, em fevereiro passado, duas semanas depois do início da aventura no Irão. Trump declarou que a Gronelândia deveria estar sob o controlo dos Estados Unidos e não da Dinamarca e reiterou que o território semi-autónomo dinamarquês é vital para a segurança norte-americana, uma vez que navios russos e chineses operam sem qualquer controlo naquela região do Ártico. “A Groenlândia não ajuda a Dinamarca”, disse. “A Dinamarca não gasta dinheiro para ajudar realmente a Groenlândia, mas a ilha é uma parte importante para os Estados Unidos e está cercada por navios chineses e russos”. Trump admitiu ainda que seus planos anteriores para a Groenlândia, em janeiro passado, quando se recusou a descartar o uso da força militar para assumir o controlo do território, "prejudicaram" as relações com os aliados europeus (e com o Canadá) da NATO.
Maia adiante, Trump voltou a criticar os seus aliados por não se juntarem à guerra no Irão, repetindo estar "muito dececionado com a NATO" e reiterando alegações de que a Europa e o Canadá "abandonaram" os Estados Unidos à sua sorte no Médio Oriente. “Francamente, se não fosse na Turquia, onde o meu amigo Recep Erdogan é um líder muito forte, uma pessoa muito influente, é possível que eu não tivesse comparecido”, disse ainda. “Senti que tinha que comparecer porque sei que Erdogan se empenhou ao máximo”. Erdogaan recebeu Trump no Palácio Presidencial de Beştepe com salvas de canhão, uma banda militar e uma guarda de honra. “Você é um líder respeitado em todo o mundo”, disse Trump a Erdogan, acrescentando que o considera um “grande amigo” – e talvez deixando de lado o facto de o seu ‘amigo’ ser desde 7 de outubro de 2023 (dia em que o Hamas atacou Israel), uma das vozes mais críticas desse seu outro amigo, Benjamin Netanyahu.
Péssimo ambiente
O ambiente em Ancara está, assim, sob forte tensão, com os Estados Unidos a entrarem novamente em confronto com os aliados europeus – num registo que alguns críticos asseguram parecer o enredo de uma novela mexicana. Sobre a questão da readmissão da Turquia no programa de caças F-35, Trump disse que “essa é uma decisão que vamos tomar... é um ótimo avião, o melhor de todos, e certamente é algo que vamos considerar". O acesso da Turquia ao sistema foi suspenso em 2019 por ordem do Congresso, após Ancara ter adquirido o sistema de defesa aérea russo S-400.
Como se nada disto se estivesse a passar, Marke Rutte e von der Leyen destacavam a "clara divisão de trabalho" entre as duas organizações que dirigem: a NATO supervisiona a estrutura de comando, as capacidades e os padrões, enquanto a União Europeia é responsável pela indústria, pelo investimento e pela regulamentação. "Não podemos continuar, como fizemos, a depender excessivamente dos Estados Unidos. Precisamos de uma Europa muito mais forte dentro de uma NATO mais forte", disse Rutte, elogiando uma transformação "sem precedentes" impulsionada por uma cooperação mais estreita entre a União e a NATO. Onde ela está, essa cooperação mais estreita, é difícil de determinar, uma vez que os soldados norte-americanos (da NATO) têm vindo a abandonar os seus postos na Europa (principalmente na Alemanha). Ao mesmo tempo, Trump haverá de encontrar forma de recordar aos seus aliados europeus que os aumentos dos investimentos em defesa é para ser gasto em armamento norte-americano.
Incomodados com o aprofundamento das divisões, os europeus estão determinados a mostrar ao presidente dos Estados Unidos que estão a fazer a sua parte, aumentando rapidamente os investimentos em defesa, uma tendência frequentemente descrita como a "europeização da NATO", ou NATO 3.0. Mas, mesmo nesta vertente, Polónia, os países bálticos e os nórdicos, aumentaram drasticamente os gastos militares (rumo à nova meta de 5% do PIB), mas Espanha, Bélgica, Luxemburgo e República Checa ainda estão muito atrás – enquanto que outros, como Portugal, asseguram que concordam com as metas ambiciosas, na esperança, como dizia ao JE o comentador Francisco Seixas da Costa, de que acabe por não ser necessário ir tão longe.
Von der Leyen não quis deixar de destacar os planos financeiros que a Comissão apresentou para impulsionar as capacidades de defesa nacionais: 150 mil milhões de euros no âmbito do programa de empréstimos SAFE e 135 mil milhões alocados provisoriamente no próximo orçamento da União. "Neste ambiente geoestratégico e geopolítico, precisamos de um aumento maciço no investimento em defesa", disse. "Com o dinheiro dos contribuintes, queremos, obviamente, um retorno sobre o investimento. E queremos bons empregos na Europa. Queremos investigação e desenvolvimento na Europa. Isso é importante para nós", acrescentou.
Do seu lado, Rutte afirmou que a NATO precisa de um "aumento enorme" em toda a base industrial de defesa, em ambos os lados do Atlântico, para acompanhar a máquina de guerra da Rússia. "A Rússia colocou toda a sua economia em guerra. A indústria automobilística russa está a produzir para o esforço de guerra, e isso significa que precisamos de fazer o mesmo na Europa, no Canadá e nos Estados Unidos", disse Rutte. "Temos que nos defender. É a primeira tarefa de qualquer governo. E a ameaça existe. A Rússia está a trabalhar com a Coreia do Norte, o Irão e a China. Não sejamos ingénuos".
No bloco, 23 dos 27 Estados-membros da União também são membros da NATO. Áustria, Chipre, Irlanda e Malta são as exceções.
Um banco para a guerra
Com os aliados europeus e o Canadá a acelerar investimentos para aumentar o nível de despesa em defesa, há quem considere uma boa ideia a criação do Banco de Defesa, Segurança e Resiliência (conhecido internacionalmente como DSR Bank). A instituição seria um banco multilateral de desenvolvimento dedicado exclusivamente a financiar a indústria da defesa a longo prazo dos aliados da NATO e dos seus parceiros. A instituição seria concebida para contornar as restrições éticas e de investimento que os bancos comerciais e públicos tradicionais enfrentam quando financiam armamento.
Os seus principais objetivos são mobilizar capital público e privado para impulsionar a capacidade industrial militar de países aliados – e quer ter logo de início uma classificação de crédito AAA, o que permitirá emitir obrigações no mercado internacional e emprestar dinheiro a governos e empresas com juros muito baixos.
O governo canadiano tem sido um dos principais impulsionadores do projeto. O objetivo assumido foi apresentar formalmente a lista dos membros fundadores do DSR Bank precisamente na Cimeira de Ancara. Refira-se que o banco não se limitaria à Europa: Japão e a Coreia do Sul seriam chamados a estar presentes.
A ideia de criar um ‘banco da NATO’ foi apresentada pela primeira vez em 2019 por Rob Murray, antigo responsável da aliança atlântica. O conceito foi mais tarde detalhado num relatório para contornar a falta de financiamento da banca tradicional à defesa. O Canadá assumiu a liderança do projeto e reuniu representantes de 18 países para desenhar formalmente a estrutura e o modelo de funcionamento do banco. A lista definitiva de cerca de dez Estados-membros fundadores e os moldes finais da instituição serão apresentados, em princípio, em Ancara. A sede europeia do banco será no Luxemburgo.
Segundo as agências internacionais, a lista de países aderentes é a seguinte: Canadá (líder e promotor da iniciativa), Albânia, Bélgica, Grécia, Letónia, Luxemburgo, Roménia, Turquia e Ucrânia (que não faz parte da NATO) – ou seja, os países europeus mais influentes estão todos, para já, fora do projeto.
Ucrânia empenhada
Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia e mais uma vez presente na cimeira, exigiu (ao propôs) à NATO que financie e fabrique em massa novos sistemas avançados contra mísseis russos. Apelou diretamente aos parceiros internacionais para o envio e produção em massa destes sistemas, sublinhando que a proteção aérea é necessária "hoje, não daqui a alguns anos". E destacou a forte capacidade tecnológica da Ucrânia no setor dos drones, questionando diretamente os aliados sobre se faz sentido deixar uma nação com tanta experiência de combate e inovação militar fora da defesa coletiva da aliança.