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Vendas da Century 21 Portugal superam os mil milhões no primeiro trimestre. "Portugueses já representam 87% das transações", diz CEO

Ricardo Sousa revela que a procura de casa continua dinâmica, mas avisa que a capacidade de compra das famílias portuguesas de classe média tem de estar abaixo dos 300 mil euros. "Quando vamos acima ou nos aproximamos desse valor, condiciona logo o negócio", afirma, acrescentando que o arrendamento pode ser uma solução, mas que é necessário combater as informalidades deste mercado.

Os portugueses estão cada vez mais a comprar casa e manter uma procura dinâmica no mercado e a representarem já um peso de 87% nas transações efetuadas pela mediadora imobiliária Century 21 Portugal no primeiro trimestre, que atingiram os 1.138 mil milhões de euros. Em entrevista ao Jornal Económico (JE), Ricardo Sousa, CEO da empresa destaca o valor médio ronda os 276 mil euros e que as famílias portuguesas estão a mudar os seus parâmetros de habitação, optando por casas mais pequenas em tipologia.

Outra das alterações prende-se com a localização da habitação, salientando que existe um afastamento dos grandes centros urbanos para zonas onde os preços são mais acessíveis, mas também com menos mobilidade de transportes.

Que balanço faz do primeiro trimestre?

Tivemos um volume de vendas de 1.138 milhões de euros. Se compararmos com o período homólogo tivemos um crescimento de 9% em volume de negócio, o que correspondeu a 4.264 transações. O peso dos portugueses nestas transações tem vindo a subir e já representam 87%. Notamos em março e abril, que o mercado internacional continua ativo e até recuperou um pouco para 13%, mas aquilo que temos visto é a procura portuguesa a concretizar-se.

Qual é o valor médio de venda?

Fechámos o ano passado, o último trimestre, com uma média de 278 mil euros, e conseguimos estabilizar e fechar o primeiro trimestre de 2026 com 276 mil euros, sem contrariar aquilo que é a tendência do mercado. Conseguimos construir uma carteira de imóveis, aconselhar os clientes nas zonas e nos imóveis que estão no mercado que eles podem realmente comprar.

Quando olhamos para o valor médio de transação e comparamos com o primeiro trimestre de 2025 claramente sobe, mas quando comparamos com o último trimestre conseguimos baixar o valor médio de transação. Ou seja, foi um esforço que estamos a fazer para conseguir construir uma carteira de imóveis, ajustada àquilo que é o tipo de conta dos portugueses.

Quais são os principais desafios que o mercado tem pela frente?

A procura está muito dinâmica, apesar das Euribor terem subido um pouco com a crise no Médio Oriente, mas aquilo que são os nossos dados e os que temos do Banco de Portugal, revelam que o volume de financiamento está a subir, ou seja, há crédito disponível no mercado e com condições para obter um crédito à habitação. Isso faz com que tenhamos no lado da procura as coisas a acontecer.

O grande desafio que temos é o processo de decisão e encontrar a casa ajustada ou que as pessoas podem realmente comprar ou terem de sair daquilo que eram os critérios de pesquisa inicial, seja por tipologia de imóvel ou localização.

Essa resistência para tomar muitas vezes essa decisão é que faz com que o mercado esteja um bocadinho mais lento a decidir. A nossa expectativa é que neste primeiro trimestre o mercado abrande quando comparamos com o ano anterior, porque de facto estas condições de acesso à habitação começam a ser cada vez mais o travão do mercado.

Como está a capacidade de rendimento dos portugueses para comprar casa?

Esse é um ponto importante, quando falamos a nível nacional e para aquilo que é a classe média, que é o que move o mercado, temos de estar abaixo dos 300 mil euros como valor médio. Quando vamos acima ou nos aproximamos desse valor, isso condiciona-nos logo o negócio.

Esse trabalho está a ser feito, que é aconselhar clientes particulares que estão a vender as suas casas. Este é um desafio grande que temos quase de pedagogia de quanto é que vale realmente uma casa.

Se é uma construção nova, uma casa reabilitada, uma casa usada, precisa ser intervencionada, não tem as mesmas características de uma casa que foi remodelada, ou é uma construção nova, e isso vê-se até nos próprios dados também do INE, como o preço dos usados está muito próximo do preço do novo, o que não faz nenhum sentido, não é racional.

Temos que fazer este trabalho mais de pedagogia, de qual é o valor justo na venda nesta casa usada, nesta transação que é entre particulares. Ou seja, uma família que vende ou compra a sua casa, porque este é claramente o driver do mercado.

Se tirássemos o efeito de troca de casa, a situação do mercado seria bastante diferente, porque quem tem que comprar uma casa só a depender dos seus rendimentos, não consegue acompanhar aquilo que são os valores médios dos imóveis em todo o território português.

Estes 276 mil euros de preço médio, estamos a falar de que tipologias?

A tipologia que prevalece atualmente nas nossas transações é o T2. O T3 era a tipologia mais vendida, mas as pessoas estão a mover-se para uma tipologia um pouco mais pequena, não só em área, mas também em número de quartos, porque a própria constituição das famílias tem variado muito nas últimas décadas.

Ainda há muitas pessoas que começam a pesquisa pelo T3, mas acabam por optar pelo T2, porque é a solução mais racional para aquilo que é a capacidade financeira e também a caracterização do agregado familiar.

Em termos geográficos, onde é que se sentiram maior procura?

Infelizmente as pessoas estão a afastar-se dos eixos rodoviários e do metro, que é onde há mais procura, mas também é onde os preços estão a subir mais e estão a mover-se para os territórios onde esta infraestrutura pesada de metro e comboio, ainda não chegou, e que é onde dos preços estão mais acessíveis.

Estão a ir muito para a margem sul, claramente é um dos territórios com maior subida do número de transações, o próprio eixo Oeste. As pessoas estão a fazer o percurso à procura dos imóveis ajustados ao seu poder de compra. A linha de Cascais, centro de Lisboa, a linha de Sintra começam a ficar muito inacessíveis para a maioria das famílias.

E agora para o segundo trimestre, quais são as expectativas?

Há uma característica muito interessante também do mercado, sobretudo naquilo que são as famílias e no processo de troca de casa. Sabemos que quando temos um inverno muito rigoroso as vendas ficam sempre mais adiadas para quando chega à primavera-verão. Ou seja, estamos na expectativa de termos um segundo trimestre bastante ativo, até por muita da decisão adiada do primeiro trimestre.

Que impacto pode ter o conflito no Médio Oriente?

Naturalmente somos um país muito seguro e que cada vez chama mais a atenção. E estes conflitos, e vemos o que aconteceu, por exemplo, no Dubai, a forma como caiu abruptamente desde o início do conflito.

E Portugal, como Espanha e o sul da Europa, vive exatamente o momento contrário, somos observados como um destino seguro e isso realmente desperta o interesse. A nível doméstico o ponto principal que temos de ter em atenção e que temos de medir é o sentimento de confiança, e esse claramente tem vindo a baixar.

As pessoas têm mais medo, esta imprevisibilidade faz com que se adie a decisão, se pense mais no processo ou naquilo que é o próximo passo neste projeto de vida que é comprar ou vender a casa, mas o fator crítico vai ser as Euribor e as taxas de juro.

Porquê?

Enquanto as Euribor se mantiverem abaixo dos 4% ou até 3,5% não estamos à espera de grande impacto. Se temos taxas de juro e as Euribor já a tocarem nos 4% ou superar, vamos sentir diretamente no número de transações, porque se juntarmos ao preço das casas esta subida das taxas de juro, o problema do acesso à habitação multiplica-se, porque aí temos dois efeitos a penalizar quem quer ir ao mercado.

O mercado de arrendamento é a solução?

O mercado de arrendamento é para nós muito importante por vários motivos. Primeiro quem compra para arrendar, na sua maioria em Portugal, são os pequenos investidores, são as famílias, ou seja, é um instrumento de poupança para os portugueses.

Este trimestre subimos as transações de arrendamento, mas continua a ser um mercado que lhe falta estrutura e formalismo. Continua a haver muita informalidade neste negócio, as pessoas que compram connosco, sabemos que é para o mercado de arrendamento, mas depois isso já são transações feitas de uma forma mais direta e perdemos um pouco o controlo do que se passa no mercado.

O que falta no mercado de arrendamento é muito mais oferta, mas acima de tudo maior transparência. Era muito importante haver um trabalho das autoridades para haver um combate a esta informalidade que existe.