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Uma ilha, um porto e um estreito (que não o de Ormuz) são os novos pontos cruciais do petróleo

O petróleo do Médio Oriente está agora dependente destes três pontos de exportação. Petróleo disparou para 110 dólares após ataques contra a maior reserva de gás no mundo, localizada no Irão. Teerão prometeu retaliação.

Uma ilha, um porto e um estreito (que não o de Ormuz) são agora os pontos principais de exportação de petróleo do Médio Oriente, perante o encerramento do estreito de Ormuz.

O mundo entrou numa "guerra energética total" com ataques diretos a infraestruturas de energia nesta região vital do globo. Ao 20º dia de guerra, os preços do petróleo continuam acima dos 100 dólares pelo sexto dia consecutivo.

Do lado do Irão, há a ilha de Kharg no Golfo Pérsico, por onde passam 90% das exportações de petróleo do país, tornando-a vital para a economia do país.

A ilha foi atacada durante o fim de semana pelos EUA/Israel . Mais ataques podem levar ao aumento da retaliação do Irão contra infraestruturas energéticas dos países vizinhos.

Por outro lado, apesar de significar mais uma pressão para o Irão terminar a guerra, o fim da exportação iraniana também vai colocar mais pressão a nível mundial sobre os preços energéticos.

"Apesar de o sistema de exportações do Irão ter permanecido relativamente resiliente durante a guerra, qualquer disrupção às operações de carga ou acesso dos navios à ilha de Kharg pode ser um desastre para o Irão", segundo o analista Aditya Saraswat da Rystad.

Antes da guerra, o Irão aumentou as suas exportações para níveis próximo de máximos, enviando para o estrangeiro mais de 3 milhões de barris por dia, talvez já a antecipar o início do conflito.

Mais há mais novos pontos nevrálgicos. "Para os produtores do Golfo Pérsico, se ambos os corredores alternativos de exportação foram simultaneamente suprimidos, a capacidade de exportação da região vai colapsar totalmente", segundo a Rystad referindo-se a Fujairah e a Bab el-Mandeb.

Nos Emirados Árabes Unidos, o porto de Fujairah, que fica no golfo de Omã, não depende do Irão, ficando para cá do estreito de Ormuz, mas está exposto aos ataques iranianos.

Na terça-feira, esta instalação a 150km a leste do Dubai foi atacada por um drone iraniano. Os ataques não provocaram vítimas mortais e só causaram danos ligeiros à infraestrutura, mas serviram de aviso da capacidade iraniana de atacar infraestruturas energéticas.

Depois, há o estreito de Bab el-Mandeb entre o Iémen na Península Arábica e o Djibouti e Eritreia em África. Com apenas 26km de distância na sua parte mais estreita, faz a ligação entre o Mar Vermelho e o Golfo de Aden, e o oceano Índico. Um ataque dos Houthis aqui pode contribuir ainda mais para o disparo nos preços.

O pipeline para Fujairah, assim como o pipeline saudita East-West para o porto de Yanbu coloca 6,5 milhões de barris diários a salvo das mãos do Irão. O primeiro transporta 1,8 milhões de barris diários, com o segundo a transportar 5 milhões de barris por dia.

"O corredor de Yanbu enfrenta uma ameaça separada, mas igualmente ameaçadora. O crude exportado pelo Yanbu deve transitar pelo Bab al-Mandeb para chegar aos mercados asiáticos, onde os Houthis do Iémen têm capacidade de ataque demonstrada contra a navegação comercial, uma capacidade que exerceram extensivamente em 2024 e 2025", segundo a Rystad.

Antes da guerra, o Médio Oriente exportava 21 milhões de barris por dia, mas esse valor caiu 40% para 12,5 milhões de barris em apenas duas semanas.

Mas este valor não é certo, pois os campos no Kuwait também estão sujeitos a novos cortes. A produção caiu de 1,42 milhões de barris para 500 mil barris. Sem conseguir exportar, o consumo doméstico atinge 360 mil barris e quando a armazenagem encher, a produção vai ser cortada.

Além do Irão, os restantes produtores da região também anteciparam vendas temendo o início do conflito. Em janeiro e fevereiro, as exportações diárias dos produtores regionais (ex-Irão) atingiram 16,6 milhões de barris diários, o valor mais elevado desde o início de 2023.

Dos 12 a 18 petroleiros/metaneiros que cruzavam o estreito de Ormuz diariamente, apenas um ou dois, ou mesmo nenhum, atravessam agora esta zona por dia.

Mundo entra numa "guerra energética total" e petróleo dispara para 110 dólares

O petróleo disparou mais de 6% para os 110 dólares na tarde de quarta-feira depois de ataques dos EUA/Israel à maior reserva de gás do mundo, localizada no Irão. Já o gás na Europa sobe mais de 6% para 55 euros/Mwh.

O ataque atingiu o campo de South Pars, o maior depósito de gás do mundo, partilhado pelo Irão e o Qatar.

O Irão já prometeu retaliar, considerando que as principais infraestruturas energéticas dos países vizinhos tornaram-se "alvos diretos e legítimos e serão atingidos nas próximas horas".

Entre os alvos encontram-se:

Qatar: refinaria de Ras Laffan, complexo petroquímico de Mesaieed;
Arábia Saudita: refinaria de Samref, complexo petroquímico de Jubail;
UAE: campo de gás de Al Hosn.

"A linha vermelha foi ultrapassada: os ataques dos EUA-Israel a South Pars dão origem a uma "guerra total energética" a nível global, reagiu Francesco Sassi, especialista em geopolítica da Universidade de Oslo.

"Este ataque representa o gatilho definitivo para o escalar" de ataques contra infraestruturas de energia no Médio Oriente.

"Estamos agora numa guerra energética, o que vai provocar uma crise energética de proporções globais catastróficas", segundo Francesco Sassi.

O Qatar já veio a público criticar o ataque de Israel ao campo de South Pars: "é um passo irresponsável e perigoso", segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros Majed Al Ansari que destacou os perigos para a segurança energética global, mas também para as pessoas da região e o meio ambiente.

O Irão mantém fechado o estreito de Ormuz por onde passava 20% do consumo global de petróleo e de gás desde o início da guerra.