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Um país frágil num mundo em transição

O comboio de tempestades que atravessou o país, com danos severos na região centro, confirmaram a nossa vulnerabilidade estrutural face a eventos climáticos extremos.

Portugal mostrou-se incapaz de proteger devidamente a sua população, as suas infraestruturas críticas e as suas atividades económicas das intempéries resultantes de um clima em transição. Ficou patente não só a inadaptação do país às alterações climáticas, designadamente ao nível do ordenamento territorial e da resiliência infraestrutural, mas também as fragilidades da nossa organização institucional para identificar, prevenir e reduzir os riscos e responder às catástrofes com eficiência.
Para além do sistema de proteção civil, é a própria segurança nacional que está em causa quando se trata de salvaguardar o território e a sua população, infraestruturas e economia de uma perigosidade climática crescente. A soberania do país fica hipotecada se, enquanto sociedade, não formos capazes de minimizar os impactos diretos e indiretos das alterações climáticas. Desde logo, na saúde pública e no bem-estar coletivo mas também no funcionamento de serviços essenciais (água, energia e telecomunicações), na segurança de habitações, infraestruturas e empresas e na continuidade da dinâmica económica.
Sem menosprezar a óbvia importância da segurança, saúde e bem-estar da população, olhemos em especial para as questões infraestruturais e económicas. As redes elétricas, os sistemas de telecomunicações, as infraestruturas rodoviárias e ferroviárias, o abastecimento de água e o saneamento básico são não apenas essenciais ao funcionamento da nossa sociedade como implicam diretamente com a autonomia e segurança nacional. Isso mesmo pudemos constatar com o “apagão” de abril de 2025, que deixou o país seriamente vulnerável a ameaças internas e externas.
Não menos preocupantes são os impactos económicos das calamidades, designadamente para a segurança nacional. Para além do peso dos danos materiais, os eventos climáticos extremos levam à inatividade das empresas e, consequentemente, geram quebras de produção, disrupções nas cadeias de valor, queda nas exportações e perdas de valor, de mercados, de postos de trabalho e de receita fiscal. Por outro lado, o Estado é forçado a acudir às empresas com medidas de apoio à recuperação da atividade económica, agravando a despesa pública e, eventualmente, o défice orçamental e os juros da dívida.
Em suma, a economia fica mais frágil e o crescimento é penalizado, apesar do previsível aumento do investimento público e privado para restabelecer a normalidade nas empresas e infraestruturas. Ora, um tecido económico mais débil também levanta questões de autonomia e segurança, com a agravante de as intempéries afetarem um sector crucial para a soberania de qualquer país: a agricultura e pescas. Uma redução da produção agrícola, pecuária e piscícola significa maior dependência externa de bens alimentares. Por conseguinte, a adaptação das estruturas produtivas às alterações climáticas e a mitigação dos seus efeitos são fatores críticos para a nossa autonomia e segurança.

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