A UE e a Índia finalizaram terça-feira “o maior de todos os acordos comerciais”, como descreveu Bruxelas, que irá eliminar progressivamente direitos aduaneiros a exportadores europeus, incluindo em sectores estratégicos para Portugal, como o agroalimentar ou o automóvel. Contas feitas, as economias europeia e indiana representam, combinadas, um quarto da economia mundial e um terço do comércio global e, segundo von der Leyen, este é apenas o primeiro passo num aprofundamento de relações, enquanto os empresários portugueses sublinham a natureza histórica e as oportunidade que se abrem.
A presidente da Comissão Europeia considerou que Bruxelas e Nova Deli “fizeram história” ao chegarem acordo após 17 anos de avanços e recuos para constituir “uma zona de livre comércio para dois mil milhões de pessoas”, ao passo que António Costa, presidente do Conselho Europeu, falou numa “mensagem clara” de união “estratégica” com os parceiros indianos.
Ao JE, Rafael Alves da Rocha, diretor executivo da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, fala num “passo histórico nas relações económicas entre a UE e um parceiro estratégico de dimensão global”, sobretudo no atual contexto internacional.
“A CIP vê com grande satisfação os resultados alcançados nesta cimeira. Já sabemos que o contexto internacional é marcado por crescentes tensões geopolíticas e por sinais de retração no comércio global. Após o voto no Parlamento Europeu a semana passada, que atrasa novamente o acordo com o Mercosul, é importante que a UE demonstre que continua comprometida com uma agenda de abertura, cooperação e parcerias estratégicas”, afirma, pedindo “responsabilidade política” nos “processos formais de ratificação e implementação”.
O acordo deve eliminar cerca de quatro mil milhões de euros em taxas aduaneiras para os exportadores europeus para a Índia, que assim conseguem maior acesso à grande economia que mais cresce a nível global. Desde a recessão causada pela Covid-19 em 2021, a economia indiana cresceu entre 6,5% no ano passado e 9,7% em 2022, sendo projetado novo avanço de 7,4% este ano.
A Índia era já o nono maior parceiro comercial da UE, representando 2,4% do comércio internacional europeu em 2024, quando se registaram cerca de 120 mil milhões de euros em trocas comerciais de bens. Em sentido inverso, a Europa é o principal parceiro comercial indiano, com 11,5% das suas trocas internacional. Juntando a este valor os serviços, o volume de trocas entre as duas economias ascende a 180 mil milhões.
A expectativa passa agora por duplicar as exportações para a Índia até 2032, isto quando o bloco exportou 75 mil milhões de euros em bens em 2024. Para tal, Bruxelas destaca que deverão ser eliminados direitos aduaneiros em 96,6% do valor das vendas para o país.
Automóvel e agroalimentar são vencedores
No caso português, a balança comercial com a Índia é consistentemente desfavorável, registando um défice de 889 milhões de euros em 2024. Ainda assim, as exportações têm crescido sustentadamente com uma média de 17% entre 2020 e 2024, embora essa performance seja compensada por um avanço de 16% em igual período do lado das importações.
“O acordo poderá ainda contribuir para uma maior integração das empresas portuguesas nas cadeias globais de valor, criando oportunidades adicionais de investimento, parcerias empresariais e reforço das ligações logísticas entre a UE e a Índia”, refere Rafael Alves da Rocha. Além da maior facilidade de comércio, as empresas portuguesas têm agora mais oportunidades de diversificação e investimento, completa.
Portugal exporta sobretudo papel e pasta de papel, cujas vendas chegaram a 54 mil milhões de euros em 2024 – valor entretanto já pulverizado até novembro de 2025, com 56,7 mil milhões –, produtos químicos, e maquinaria e equipamentos. Em sentido inverso, os produtos têxteis, químicos e petrolíferos dominam os mais de mil milhões de euros importados da Índia em 2024, com 2025 a registar um montante global de 950,8 milhões até novembro.
Para o diretor executivo da CIP, há ainda outros sectores que poderão emergir como beneficiários do acordo. À cabeça, o automóvel e de maquinaria, que enfrentavam “direitos aduaneiros particularmente elevados no mercado indiano e poderão ganhar competitividade com a sua redução progressiva” de 110% para 10%, sendo que os componentes terão tarifa zero daqui a cinco a dez anos.
Também o ramo agroalimentar deve sair beneficiado, sobretudo fileiras altamente relevantes para Portugal como o vinho e o azeite, que verão uma redução inicial de 150% para 75% no caso do vinho, que depois continuará a cair até 20%, e de 45% para 0% ao fim de cinco anos para o azeite.
Finalmente, os serviços e tecnologia também devem sentir efeitos positivos, “nomeadamente serviços digitais, profissionais e financeiros, que tendem a beneficiar de uma maior liberalização e cooperação económica”, remata o responsável da CIP.