Enquanto a Ucrânia trava a guerra mais importante da sua história moderna, a integridade do sistema de governação tornou-se um fator decisivo para a sobrevivência do Estado. O presidente Volodymyr Zelensky – outrora o símbolo incontestado da resistência nacional – enfrenta agora uma crescente pressão não só no campo de batalha, mas também dentro das suas próprias instituições. “Grandes escândalos de corrupção nos sectores da energia, da aquisição de armamento e da administração pública estão a revelar vulnerabilidades estruturais que ameaçam minar tanto a credibilidade interna como o apoio ocidental”, refere Corneliu Pivariu, militar, membro do International Institute for Middle East and Balkan Studies (IFIMES) e fundador e ex-CEO da INGEPO Consulting.
A convergência da governação em tempo de guerra, da fadiga institucional e dos desafios à legitimidade constitucional “coloca a presidência ucraniana sob uma tensão sem precedentes”, refere o analista. Que chama a atenção para o facto de o projeto reformista centrado no combate à corrupção de antes da guerra ter sido, compreensivelmente, deixado para segundo plano – até que, subitamente, voltou ao centro da agenda da presidência. Convém recordar que, ao abrigo da lei marcial, as prerrogativas presidenciais expandiram, o controlo sobre o Parlamento intensificou-se e a atividade das instituições de fiscalização tornou-se muito mais dependente do poder executivo. Paralelamente, “o ambiente político homogeneizou-se, a oposição foi reduzida a um papel marginal e a comunicação social foi integrada numa estrutura unificada de comunicação estratégica, justificada por imperativos de segurança”. O resultado, entre outros, foi uma evidente oposição: eficiência administrativa por um lado, enfraquecimento dos mecanismos democráticos de fiscalização por outro.
“Na ausência de um Parlamento capaz de exercer uma fiscalização eficaz e de uma imprensa totalmente autónoma, a responsabilidade pela tomada de decisões concentrou-se cada vez mais a nível presidencial. Isto transformou o mandato de Zelensky num pilar de estabilidade política e, ao mesmo tempo, num potencial ‘ponto único de falha’ caso a situação se descontrolasse”, refere Pivariu. Estas duas forças em sentido contrário – e mesmo conflituantes – foram um dos principais fatores por trás dos grandes escândalos de corrupção que eclodiram entre 2023 e 2025. “Não se tratava de incidentes isolados, mas de disfunções simultâneas em três sectores críticos: energia, aquisição de armamento e recrutamento militar”.
‘Coreografia’ dos escândalos
O escândalo no sector energético teve como alvo contratos no valor de centenas de milhões de dólares geridos pela Energoatom, a empresa nacional de energia nuclear. As investigações descobriram um extenso esquema que envolve comissões ilegais, contratos sobrefaturados e empresas intermediárias, algumas alegadamente ligadas a círculos próximos do governo. Recorde-se que o setor nuclear é estratégico para a segurança energética e a modernização das infraestruturas depende do financiamento ocidental. “As repercussões políticas do caso atingiram círculos próximos da administração presidencial, aumentando a perceção de vulnerabilidade no topo” da cadeia de comando, refere o analista. “Pela primeira vez durante a guerra, as instituições anticorrupção abriram um caso desta magnitude, com potencial para afetar diretamente a imagem pública do presidente Zelensky””.
Em 2023, eclodiu um escândalo devido à sobrefaturação maciça de fornecimentos alimentares ao exército – diferenças de preço duas ou três vezes acima do valor de mercado. Embora inicialmente rotulados como “erros administrativos”, as investigações do NABU ((o gabinete anticorrupção) e a pressão pública confirmaram a existência de fraude em grande escala. Casos semelhantes foram conhecidos nas áreas da aquisição de fardamento, combustível e equipamento não letal. “As consequências políticas foram significativas: o ministro da Defesa demitiu-se e foi substituído por uma figura vista como tecnocrata, num esforço para restaurar a confiança ocidental”.
No verão de 2023, Zelensky ordenou a demissão de todos os chefes regionais de recrutamento militar depois de investigações jornalísticas e inquéritos oficiais terem revelado um sistema nacional de subornos para obtenção de isenções médicas ou saída ilegal do país. “A decisão teve um forte impacto simbólico: a presidência reconheceu o problema e tomou medidas radicais. Ao mesmo tempo, expôs uma questão mais profunda: o sistema de mobilização da Ucrânia, um pilar da resiliência em tempo de guerra, estava gravemente infiltrado pela corrupção”.
Paradoxalmente, mesmo com o avanço dos grandes casos de corrupção, “surgiram indícios de tentativas políticas para limitar a autonomia das instituições anticorrupção — particularmente o NABU e o SAPO (o primeiro tendo em mãos detetar e investigar a corrupção no Estado, e o segundo responsável por supervisionar judicialmente e apoiar essas investigações). Certas propostas legislativas e nomeações controversas foram interpretadas como tentativas de controlar ou travar o ímpeto destes órgãos.
Recorde-se que a União Europeia reagiu rapidamente: “algumas tranches de financiamento foram temporariamente adiadas ou condicionadas a garantias de independência institucional. A mensagem de Bruxelas foi explícita: a Ucrânia não pode prosseguir a integração na UE sem fortes salvaguardas para os mecanismos anticorrupção”, refere o analista. Na sua ótica, estas ocorrências – a que se somam muitas outras de mais reduzida dimensão – contribuem para minar “a moral interna, a confiança na liderança, a credibilidade internacional, o processo de adesão à EU e a capacidade de gerir um conflito prolongado”.
Conclusões
Perante este cenário, Corneliu Pivariu chega a três conclusões. “A Ucrânia encontra-se numa encruzilhada crítica: entre a resiliência militar e a vulnerabilidade política, entre o apoio ocidental e o crescente ceticismo, entre a necessidade de unidade e a pressão para reformas”. Por outro lado, “a presidência de Zelensky continua a ser um pilar de estabilidade, mas está cada vez mais exposta. Sem uma resposta firme e transparente à corrupção interna, a vantagem moral acumulada em 2022 corre o risco de se erodir ainda mais”. Finalmente, “a resistência da Ucrânia não se define apenas no campo de batalha, mas também na força das suas próprias instituições. O futuro político do presidente e o posicionamento estratégico do país dependem da eficácia com que estas vulnerabilidades forem contidas e corrigidas”.