A ONU apelou esta quarta-feira, 5 de agosto, ao reforço da estratégia de defesa contra o grupo extremista Estado Islâmico (EI) devido ao seu "crescente uso" de Inteligência Artificial (IA) em comunicações encriptadas, plataformas digitais, ativos virtuais e ataques com drones. O apelo foi emitido por Oguljeren Niyazberdiyeva, representante do Gabinete das Nações Unidas de Combate ao Terrorismo, numa sessão do Conselho de Segurança sobre a ameaça que o terrorismo 'jihadista' constitui.
Segundo aquela responsável, o EI continua a ameaçar diversas regiões aproveitando-se da sua fragilidade e de conflitos armados prolongados, apesar de os Estados-membros da ONU terem conseguido "limitar as capacidades do grupo em vários teatros de operações". "A ameaça continua a ser particularmente aguda em partes de África, especialmente no Sahel e na bacia do lago Chade", declarou Niyazberdiyeva.
Nos últimos anos, o Sahel - especialmente o Mali, o Burkina Faso e o Níger - tornou-se o epicentro do terrorismo 'jihadista', ao albergar dois dos mais poderosos ramos da Al-Qaida e do EI - duas organizações 'jihadistas' adversárias com aspirações a criar um califado global -, que ameaçam a segurança regional e europeia.
O EI mantém também uma presença significativa na República Democrática do Congo e em Moçambique, onde “continua a perpetrar atentados, ampliando o recrutamento e as zonas onde opera”, apesar da pressão das medidas antiterroristas.
Perante esta situação, a ONU apela para um reforço da resposta coletiva através da partilha de informações, da gestão de fronteiras, da cooperação em matéria de justiça penal, investimentos financeiros e respostas coordenadas. Mas "sempre de acordo com o Direito Internacional, os direitos humanos e o direito dos refugiados", sublinhou Niyazberdiyeva, numa aparente alusão a práticas abusivas de alguns Estados, como detenções arbitrárias, deportações imediatas e uso desproporcionado da força militar.
A chefe de gabinete apontou os desafios atuais, incluindo a ascensão do Estado Islâmico na África Ocidental como o filiado global mais ativo do grupo. Segundo disse, a divisão do IE demonstra “uma capacidade crescente de adquirir e empregar tecnologia de drones comerciais”. Ao mesmo tempo, na República Democrática do Congo e em Moçambique, na região de Cabo Delgado, as ramificações do grupo mantêm-se resilientes.
Apesar da contínua pressão das operações de combate ao terrorismo, os ataques persistem, ampliando o recrutamento e alargando o raio de ação dessas redes.
A representante da Direção Executiva do Comité da ONU contra o Terrorismo, Carmen Cantor, frisou a importância da cooperação internacional. No último semestre, o Daesh e seus filiados demonstraram uma notável capacidade de adaptação e resistência. O desafio é de alcance global, com o continente africano continuando a suportar um impacto desproporcional.
Ao mesmo tempo, os desenvolvimentos no Iraque e na Síria reforçam a necessidade premente de vigilância constante em um cenário onde as crises humanitárias decorrentes permanecem críticas. Concluído em julho, um estudo ilustra um panorama de mutação da rede terrorista: embora a sua influência tenha diminuído em certas regiões, o grupo demonstra resiliência por meio da descentralização, do avanço tecnológico e da expansão no continente africano.
Entre os pontos mais importantes apresentados na reunião contam-se o golpe na liderança: em meados de maio, uma ação conjunta entre a Nigéria e os Estados Unidos no Estado de Borno resultou na morte de importantes lideranças do grupo. Foi neutralizado o vice-líder global do Daesh, Abu Bakr ibn Muhammad ibn Ali al-Mainuki, e o chefe do Diretório Geral de Províncias numa ação que deve impactar temporariamente a coordenação internacional da rede.
O avanço no Grande Saara do braço do EI expandiu de forma significativa a sua capacidade operacional na região, tendo o Níger como principal alvo. O país concentrou 75% dos ataques em 2026, incluindo um atentado ao aeroporto internacional de Niamey.
No nordeste da Síria, uma nova configuração territorial alterou profundamente o cenário local. O relatório aponta para que, após o fecho do acampamento de al-Hol em fevereiro, entre 15 mil e 20 mil pessoas a maioria mulheres e crianças com laços familiares com o grupo permanecem em paradeiro desconhecido. O Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, alerta que milhares de crianças continuam extremamente vulneráveis ao tráfico humano e ao recrutamento por grupos armados.
Em contrapartida, o EI regista enfraquecimento no Iraque, onde atinge o seu nível mais baixo, reduzido a poucos elementos. O governo iraquiano concluiu as repatriações dos acampamentos de Al-Hol e Al-Roj, totalizando mais de 21,5 mil cidadãos repatriados desde 2021.
Observa-se, ainda, a persistência do grupo no Afeganistão. A ‘associada’ Isil-K mantém o objetivo de realizar ataques internacionais de grande impacto, apesar das perdas sofridas em operações das autoridades locais e do Paquistão.
Perante os dados apresentados, vários membros do Conselho de Segurança reiteraram a condenação unânime ao terrorismo enquanto debatem as dinâmicas políticas internas. As discussões enfatizam a necessidade de abordagens preventivas e globais, apoio financeiro e logístico para respostas lideradas por países africanos e combate ao uso de novas tecnologias pelo terrorismo, como drones, inteligência artificial e ativos virtuais. O Conselho salientou ainda o apelo para que os Estados-membros da ONU repatriem, de forma segura, voluntária e digna, os seus nacionais ainda retidos em campos no Médio Oriente.